A conta que vem depois da eleição: a dívida dos EUA caminha para US$ 64 trilhões

Hoje, a dívida federal já supera US$ 34 trilhões

  • Por Eliseu Caetano
  • 12/02/2026 08h30
Andrew Caballero-Reynolds / AFP O presidente dos EUA, Donald Trump O presidente dos EUA, Donald Trump

A dívida pública americana pode alcançar US$ 64 trilhões em apenas dez anos. A projeção aparece em análises recentes do Congressional Budget Office, o órgão técnico e apartidário do Congresso responsável por medir o impacto fiscal das políticas federais. E o dado começa a mudar o tom do debate econômico nos Estados Unidos: pela primeira vez em décadas, a maior economia do planeta passa a discutir não apenas inflação ou juros, mas sustentabilidade fiscal.

Hoje, a dívida federal já supera US$ 34 trilhões. O problema não é apenas o tamanho — é a velocidade de crescimento. Pelos cenários analisados, as políticas econômicas defendidas por Donald Trump, especialmente a extensão permanente dos cortes de impostos aprovados originalmente em 2017, ampliariam o déficit estrutural do governo. Ou seja: não se trata de um gasto emergencial, como ocorreu na pandemia, mas de um desequilíbrio permanente entre arrecadação e despesas.

O mecanismo é simples. Quando impostos caem sem redução equivalente de gastos, o governo precisa financiar a diferença emitindo títulos do Tesouro. Esses títulos são comprados por investidores, fundos e bancos centrais do mundo inteiro. É assim que Washington paga suas contas.

O problema começa quando a dívida cresce mais rápido que a economia. Segundo o CBO, os déficits anuais podem permanecer próximos de 6% a 7% do PIB durante a próxima década. Para comparação, economistas consideram saudável algo perto de 2% a 3%. Acima disso, a dívida passa a crescer automaticamente, mesmo sem novas políticas públicas.

E há um efeito em cadeia. Quanto maior a dívida, maior o gasto com juros.
E o gasto com juros, nos Estados Unidos, está se transformando rapidamente em uma das maiores despesas do governo federal — competindo com Defesa e Previdência. Isso significa que o governo americano pode entrar em um ciclo inédito: contrair empréstimos apenas para pagar juros de empréstimos anteriores.

O impacto não fica restrito a Washington. A dívida americana é o principal ativo financeiro do planeta. O título do Tesouro dos EUA é considerado o investimento mais seguro do mundo. Bancos centrais, inclusive o do Brasil, guardam reservas em dólares justamente nesses papéis. Se o endividamento sobe, os juros tendem a subir também. E quando o juro americano sobe, todo o planeta sente.

Crédito imobiliário fica mais caro.
Financiamento empresarial encarece.
Moedas emergentes se desvalorizam.
Capitais voltam para os Estados Unidos. Por isso economistas tratam o tema não como uma discussão doméstica, mas como uma questão global.

Há ainda um componente político delicado. Republicanos defendem que cortes de impostos estimulam crescimento econômico e compensam parte da perda de arrecadação. Democratas argumentam que, sem aumento de receita, o país ficará preso a déficits permanentes. O CBO não entra no debate ideológico – apenas calcula cenários – e seus números mostram que o crescimento projetado não seria suficiente para neutralizar o rombo.
O ponto mais sensível aparece nas próximas décadas.

Com o envelhecimento da população americana, programas obrigatórios – principalmente Medicare e Social Security – aumentam automaticamente. O governo passará a gastar mais independentemente de quem esteja no poder. Ou seja, o problema não depende só de Trump ou de Biden.
Depende da matemática.

Se nada mudar, a dívida pode ultrapassar o tamanho de toda a economia americana nas próximas décadas. Historicamente, isso só ocorreu em períodos extremos, como após a Segunda Guerra Mundial — mas naquela época os EUA tinham crescimento acelerado e população jovem. Hoje, o cenário é oposto: crescimento moderado e população envelhecendo.

A discussão começa a aparecer em Wall Street, no Federal Reserve e até no Departamento do Tesouro. Ainda não é uma crise. Mas também já não é apenas uma hipótese acadêmica.

A maior potência econômica do mundo começa lentamente a encarar um debate que sempre pertenceu a países emergentes: quanto tempo um governo pode gastar mais do que arrecada sem mudar sua própria estabilidade financeira.

A resposta não virá em uma eleição. Virá em uma década.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.