A culpa não é da mãe
Nada; absolutamente nada; autoriza o assassinato de crianças
Marisa Lobo - 18/02/2026 11h22

O caso recente do pai que matou os dois filhos e, em seguida, tirou a própria vida, expõe não apenas uma tragédia familiar, mas também algo igualmente grave: a rapidez com que parte da sociedade tenta transferir a responsabilidade para a mulher.
Informações divulgadas indicam que o relacionamento havia terminado e que ele não aceitava o fim. Esse dado é central. A literatura psicológica é consistente ao apontar que muitos crimes dessa natureza estão associados à incapacidade de lidar com rejeição, perda de controle e frustração narcísica.
Quando o término é vivido como ferida ao ego — e não como exercício legítimo da liberdade do outro — o risco de violência aumenta.
O que não se pode admitir é a construção de uma narrativa que insinue: “Mas o que ela fez?”
Mesmo que houvesse traição. Mesmo que houvesse conflito. Mesmo que houvesse erros. Nada — absolutamente nada — autoriza o assassinato de crianças.
Traição não autoriza violência. Separação não autoriza violência. Humilhação não autoriza violência.
Violência é escolha. E é crime.
Quando pessoas passam a sugerir que a mãe “provocou”, “sabia como ele era”, “deveria ter evitado”, estamos diante de um fenômeno conhecido como culpabilização da vítima. Trata-se de um mecanismo social perverso: desloca-se o foco do agressor para a conduta da mulher, como se o comportamento dela tivesse poder causal sobre a decisão homicida dele.
Isso não é análise. É distorção.
Do ponto de vista técnico, estamos possivelmente diante de um filicídio por retaliação — quando os filhos são mortos como forma de atingir a mãe. Nesses casos, o ato não é fruto de amor exacerbado ou desespero romântico. É exercício extremo de controle. É punição. É mensagem violenta: “Se você não fica comigo, eu destruo o que é mais precioso para você.”
Esse padrão está relacionado a:
— crenças de posse sobre a parceira;
— dificuldade patológica de aceitar rejeição;
— intolerância à frustração;
— estrutura de personalidade marcada por controle e domínio.
Não se trata de romantizar o sofrimento masculino. Sofrer não transforma alguém em homicida. Milhares de homens são traídos, abandonados, rejeitados — e não matam seus filhos. A diferença não está na dor; está na escolha.
É preciso dizer com firmeza: ele não foi vítima da situação. Foi autor de um ato brutal.
E ao relativizar isso, a sociedade envia uma mensagem perigosa: que a honra ferida ou a dor emocional podem funcionar como atenuantes morais. Mas, não podem.
A mulher tem direito de terminar um relacionamento. Tem direito de errar. Tem direito de recomeçar. Nenhuma falha conjugal — real ou imaginada — autoriza a execução de inocentes.
Quando a discussão pública se volta para o comportamento dela, estamos desviando do ponto central: duas crianças foram assassinadas por quem tinha o dever de protegê-las.
É urgente interromper esse ciclo cultural que ensina homens a confundir amor com posse e rejeição com desonra. É urgente também que a sociedade pare de exigir das mulheres responsabilidade preventiva sobre a violência masculina, como se coubesse a elas administrar o descontrole do outro.
A dor é humana. A violência é escolha.
E enquanto continuarmos procurando culpa na mulher, estaremos deixando de enfrentar o verdadeiro problema.
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Marisa Lobo atua como psicóloga e psicanalista, é pós-graduada em Psicanálise; Gestão e Mediação de Conflitos; Educação de Gênero e Sexualidade; Filosofia de Direitos Humanos e Saúde Mental; tem também habilitação para magistério superior. |
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