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Por que temos favelas revitalizadas que voltam a ser favelas? Por que beneficiários de Bolsa Família gastam tudo no novo iPhone? Por que temos letras de funk que elogiam crime, promiscuidade e droga? Por que vivemos uma onda de sexualização precoce (agora chamada “adultização”)?
Pobreza não é só falta de dinheiro; é um fenomeno multidimensional. É também falta de instrução, saúde, transporte, cultura, serviços digitais etc. De fato, a pobreza (econômica) é estatisticamente correlata com analfabetismo, baixa escolaridade, pouca cultura, trabalho infantil, gravidez indesejada, famílias desestruturadas, etc.
É claro que há uma enorme componente de dificuldades concretas e barreiras institucionais (falta de emprego, regulamentações restritivas, impostos, barreiras de ingresso, falta de saneamento básico etc.). Ninguém quer minimizar isso. Mas, além disso, há o que o sociólogo mexicano Oscar Lewis chama de “cultura da pobreza”: um sistema de valores diferentes, que cria um círculo vicioso que impede os pobres de subir na escada social. Do que se trata, exatamente?
O sociólogo mexicano Oscar Lewis chama de “cultura da pobreza” um sistema de valores diferentes, que cria um círculo vicioso que impede os pobres de subir na escada social
Lawrence Mead, em From Prohepcy to Charity, fala de um “aspecto comportamental da pobreza”: a tentação da vida de rua, da cultura da droga, do dinheiro fácil, a falta de autoridades que deem diretivas sobre o que fazer na vida, a confusão da vida privada.
Os adolescentes tendem naturalmente ao sexo, à rebelião e à transgressão. Nas famílias mais ricas, são mais controlados e recebem vários direcionamentos de vida (tanto pelos pais quanto pela escola), enquanto os pais pobres não conseguem fazer o mesmo. Os adolescentes começam a se medir no mundo além da família e formam suas identidades entre pares, na tribo de amigos, mas cada um na sua. Nas periferias urbanas, os jovens não têm contato com outras camadas da sociedade (há segregação) e não têm referências diferentes e melhores. Os únicos ao seu redor que subiram de nível são os criminosos. Para se dar bem em um ambiente violento, tendem a ser violentos. Sabem que existem médicos, advogados, engenheiros, mas estão muito longe e são vistos como inalcançáveis. É um mundo muito diferente do interior, onde todos vivem mais misturados e tudo é mais possível. A isso se adiciona o fatalismo (a ideia do “não adianta nada”) e a cultura da honra (um sistema de valores que prioriza o status pessoal, podendo envolver a defesa da honra por meio de confrontos).
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É por tudo isso que temos pichação e degradação urbana; gravidez indesejada entre menores de idade; favelas revitalizadas que viram favelas de novo; funk e perdição moral, vida sem limites guiada pelo princípio do prazer (sempre de curto prazo). É a vida “sexo, drogas e rock and roll”, a vida “live fast and die hard”.
O economista Walter Williams demonstrou, em várias obras e com uma maré de dados empíricos, que o que mais mantém os pobres nessa condição são famílias desestruturadas, taxas de divórcio maiores, e famílias sem a figura paterna (porque os pais estão mortos, presos ou abandonaram o lar).
A cultura da pobreza não é um fenômeno exclusivo dos pobres: pode afetar outras camadas e já chegou até às classes mais altas (especialmente a dos “novos-ricos”). Materialismo, dinheirismo, ostentação, moda estilo “bad boy”, promiscuidade e funk estão sempre mais presentes entre os ricos. A droga também nunca faltou; só mudam o tipo e o preço.
O economista Walter Williams demonstrou que o que mais mantém as pessoas na pobreza são famílias desestruturadas, taxas de divórcio maiores e famílias sem a figura paterna
Quem é mais imune a tudo isso é a classe média (a classe média de verdade, não os ricos). Os pobres sentem que têm pouco a perder e os ricos dificilmente perdem, pois sua renda independe desse comportamento; mas a classe média, para manter seu emprego, precisa de boa reputação e não pode se permitir o “luxo” da cultura da pobreza.
Oscar Lewis não queria culpar os pobres, muito pelo contrário. A cultura da pobreza é a resposta (inconsciente) à condição de pobreza econômica, periferização e exclusão social. É um efeito, mas cria uma espiral da qual é difícil sair.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos
