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Imagine um sujeito recém-desempregado. A geladeira está vazia, a família prestes a passar fome. Diante deste cenário, o que ele faz? Saca o FGTS e aposta tudo no “Jogo do Tigrinho”. Eis o retrato da direita brasileira atualmente.
Houve um tempo em que pareciam invencíveis. Derrubaram Dilma, prenderam Lula, subiram a rampa com Bolsonaro. Hoje? Estão prostrados. Nas cordas. Praticamente derrotados. A derrota política dói, é verdade, mas a derrota moral é avassaladora.
O mais humilhante é que não perderam para um adversário brilhante, nem para um projeto superior. Não foi (apenas) obra de uma camarilha que sequestrou paulatinamente os poderes da República. A direita está derrotada porque nunca se organizou de fato, perdeu o fôlego e se dispersou. Hoje, não possui mais um projeto de nação. Nem sequer um projeto de poder. Assim como seu líder máximo – e tragicamente único –, a direita padece de uma crise de soluços que já dura meia década. Um espasmo contínuo, ridículo e impotente.
O pátio dos milagres
Eu confesso. Sempre que o Regime estica a corda e comete mais um absurdo – bloqueia o Twitter, frauda os aposentados em bilhões, voa em jatinhos de empresários enrolados ou assina contratos multimilionários com bancos corruptos – eu também me rendo às alucinações. Penso: “Agora vai! Depois dessa, o povo vai às ruas! O sistema vai cair!”.
Mas nada acontece. Porque é impossível acontecer.
Aquele modelo de ultraje nas redes, seguido de tomada das ruas e algum ganho político – o motor da breve ascensão conservadora –, está esgotado. Um modelo que nunca entregou esse projeto de nação e acabou por deixar em seu vácuo uma verdadeira “Cracolândia” ideológica. Um terreno baldio onde soluções mágicas são vendidas em trouxinhas de “tic-tacs” para uma militância viciada.
Enquanto isso, o acervo do museu de balas de prata que saíram pela culatra só aumenta: as Forças Armadas, do “um cabo e um soldado” às infames “72 horas”; o “Tarifaço” de Trump e a Lei Magnitsky, que morreram de inanição após muita festa e nenhuma atitude real. A anistia virou uma moeda de troca desidratada. E 2026 promete a “maioria no Senado” que deveria permitir o impeachment de ministros do STF.
Eu entendo, é uma luta pela sobrevivência. Mas enquanto o movimento conservador for essa coisa meramente reativa, um cão de Pavlov babando conforme o sino da esquerda toca, jamais irá recuperar sua força e credibilidade. E continuará espectador da hegemonia de um projeto de poder que, há trinta anos, consolida seu domínio.
A recuperação passa por constatar que o tal “bolsonarismo” não existe. Nunca existiu. O que não significa abandonar Jair Bolsonaro. Ou negar que ele seja o grande líder da direita. Mas, enquanto ideologia, e como projeto de país e projeção para o futuro, o “bolsonarismo” nunca possuiu um corpo. Muito menos um cérebro.
A maldição da loteria
Por ironia do destino, a vitória nas eleições de 2018 pareceu uma bala de prata que atingira o alvo. Jair Bolsonaro, um deputado do baixo clero que saltou do semianonimato para a Presidência em pouco mais de um ano, foi um acidente feliz. Foi como se o sujeito do começo do texto tivesse encontrado um bilhete de loteria premiado na sarjeta.
Agora a direita olha para a sorte do passado recente com uma nostalgia incompreensível, tentando achar uma dança da chuva que faça o raio cair duas vezes no mesmo lugar.
Essa mentalidade é a antítese, senão a traição absoluta, dos princípios da direita brasileira que, em sua atual configuração, nasceu dos esforços de uma promissora geração que arrancou milhões de brasileiros da imbecilidade coletiva ao se disseminar pelas novas mídias. Mas a disciplina deu lugar à euforia.
Ganhou as ruas sequestrando uma pauta que era da esquerda (os protestos dos “vinte centavos” em 2013) e transformando-a na onda que derrubou Dilma Rousseff; então apropriou-se da Lava Jato, um projeto de poder eminentemente tucano que, ao sair do controle, virou a maior cruzada anticorrupção da história.
Mas ali, escondido na espuma, estava o ovo da serpente.
A sequência de vitórias viciou a militância em “boas notícias”. Era como uma droga. A cada prisão do Petrolão, o movimento crescia; a cada panelaço, mais pessoas iam às janelas. E, a cada apoio declarado, abraçavam o oportunista da vez: Doria, Joice, Frota, Soraya...
Esse ciclo de dopamina criou uma massa supostamente conservadora, mas despegada de seus valores subjacentes. Acreditando que poderia sempre vencer no improviso, na base das soluções mágicas. E, principalmente, de que é possível vencer primeiro para se organizar depois.
O resultado é que os representantes da direita desperdiçaram o seu capital político ao não construírem para o futuro. Focados no curto prazo, pouco fizeram para mudar o regime vigente, ignorando que lançar suas raízes – o conservadorismo nos costumes e o liberalismo na economia – exige tempo, esforço e estrutura.
“A última chance de salvar o país”
Hoje as derrotas se acumulam, assim como a angústia. E o que faz o angustiado? Ele busca a morfina, o alívio imediato. Neste caso, passa a tratar cada nova eleição como se fosse a última chance para salvar o Brasil.
As eleições deste ano, sozinhas, não vão mudar o jogo. A própria eleição de Bolsonaro em 2018, lembrem-se, não mudou. E vejam a diferença: naquela época, Lula estava na cadeia e o “Inquérito do Fim do Mundo” ainda não existia. Achar que o voto vai resolver a equação agora é a insistência esquizofrênica em fazer a mesma coisa esperando resultados diferentes.
A verdade é que não temos como salvar o país hoje. Nem amanhã. O buraco é muito mais fundo. Sem a forja paciente de um movimento político genuinamente de direita – organizado, hierarquizado e intelectualmente robusto ao redor de um partido e um conjunto de pautas – talvez nunca tenhamos salvação.
O Cassino das Tesouras
O erro mais impressionante dessa direita não é a cegueira, mas acreditar em uma ilusão de ótica. O movimento que diagnosticou com precisão cirúrgica o “Teatro das Tesouras” – a falsa disputa entre esquerda e centro-esquerda travestida de direita – cometeu a estupidez de achar que as cortinas se fecharam em 2018.
Mas o teatro não fechou. Apenas foi reformado. Derrubaram o palco e montaram um cassino, onde os antigos donos agora discutem a melhor forma de viciar a roleta.
Não há como negar a realidade. Basta notar onde estão os “grandes nomes” da direita hoje: o PL de Valdemar da Costa Neto, preso no Mensalão; o PSD de Gilberto Kassab, a encarnação do fisiologismo; ou o Republicanos, da base aliada de Lula.
Os movimentos que nasceram cheios de boas intenções, como o Escola Sem Partido ou a Aliança pelo Brasil, foram abortados ou abandonados. Outros, como o MBL, tornaram-se irreconhecíveis, carcaças do que um dia prometeram ser.
Pensem= nas pautas daquilo que poderia ter sido o embrião de um projeto conservador brasileiro: o Imposto Único, as Dez Medidas Contra a Corrupção, a capitalização da Previdência, a Carteira Verde e Amarela, a CPI da Lava Toga, as privatizações, inúmeros projetos de segurança pública... ou foram enterrados, ou viraram fichas na mesa do cassino.
Essas iniciativas não morreram de causas naturais; elas não sobreviveram aos primeiros desafios porque a direita não tem disciplina. Veem a política como um mal necessário, e não como um exercício de ocupação de espaços.
O regime de vitórias efêmeras e derrotas duradouras criou uma dicotomia entre absurdos: um movimento que ora se acovarda, ora parte para um “tudo ou nada” suicida. Ora acampa na porta dos quartéis, ora aceita calado as maiores arbitrariedades da tirania judiciária. Ora se exila buscando sanções internacionais, ora bate palmas para os carrascos em convescotes exclusivos. Ora invade o STF e quebra tudo num espasmo de fúria, ora se limita a soltar notinhas de repúdio no Twitter, tremendo de medo.
É compreensível o pavor após o 8 de janeiro e a reação virulenta do sistema. Mas essa paralisia também é o reflexo de uma direita que continua jogando nos caça-níqueis viciados desse novo cassino, esperando que, por milagre, a banca perca.
A urgência da paciência
Mas o pior legado é o silêncio. A direita recolheu-se, encurralada, fragmentada e obcecada por si mesma, com medo de sair às ruas. Por outro lado, a militância digital segue a todo vapor, gritando no vácuo, esperando que “alguém” faça o trabalho pesado por eles. O que ninguém irá fazer.
É verdade: quem não compra um bilhete não ganha na loteria. Mas planejar o futuro baseando-se na sorte não é estratégia. Passar mais quatro anos esperando um milagre da noite para o dia, negligenciando o longo prazo, é a receita perfeita para a irrelevância.
O movimento conservador hoje exala o cheiro do desespero e da desorganização. Suas pautas se resumem a itens de mera sobrevivência, como a anistia e o voto impresso, que, embora importantes, têm pouca ou nenhuma relevância fora de sua bolha. Perdeu a guerra das ideias da forma mais humilhante possível: por W.O.
Prova dessa derrota é que passaram a admitir passivamente, quase por osmose, a narrativa de que houve, de fato, um “golpismo” em 2022. Basta observar as diferentes reações, dentro da própria direita, ao julgamento do chamado “Inquérito do Golpe”. A militância denuncia a plenos pulmões as prisões de Jair Bolsonaro e Filipe G. Martins como arbitrárias – e são –, mas dá de ombros para as dos generais Braga Netto e Augusto Heleno, ou para a de Silvinei Vasques, ex-chefe da PF.
Perceba a armadilha lógica: defender que as prisões dos primeiros são mais absurdas do que as dos últimos, equivale a confessar que existiu uma trama golpista e que a participação direta nela justificaria o cárcere. É abandonar seus princípios e aceitar a imposição de uma narrativa, novamente esquecendo a perspectiva de longo prazo – a construção de um país – em favor da lógica de curto prazo, a da mera sobrevivência.
Hoje, nada mobiliza a direita além do medo e de um crescente sentimento de vingança. Faltam pautas. Falta organização. Falta inteligência. É exatamente aí que reside o abismo entre o fracasso da direita brasileira e o sucesso obtido por seus pares ao redor do mundo: lá, construíram partidos e cultura; aqui, palanques e ilusões.
A direita que pode dar certo
Olhe para os exemplos. A ascensão de Trump não foi por acaso. Ele contou com uma coalizão organizada ao redor de pautas concretas – principalmente os efeitos da imigração e da desindustrialização – e sustentou-se em um partido hegemônico, puramente de direita, transformado em uma verdadeira máquina de guerra.
Milei, na Argentina, chegou ao poder por um partido minúsculo, mas tinha uma pauta econômica clara e tratou logo de organizar o La Libertad Avanza, hoje um dos maiores partidos do país. Bukele, em El Salvador, alavancou o nanico GANA com seu hiperfoco na segurança pública, e então estruturou e hoje lidera o colosso Nuevas Ideas.
No Brasil, o cenário é bem diferente. Com o fim da Lava Jato, a bandeira do combate à corrupção perdeu credibilidade. Uma parcela significativa da sociedade que, nesse vácuo – e mesmo envergonhada – votou em Lula, hoje constata que a direita não possui um projeto de país, nem de poder, sentindo-se confortável e validada em sua decisão.
Não há nada mais urgente do que fazer a lição de casa e reverter essa percepção. Não é exagero afirmar: o futuro do Brasil depende da maturidade do movimento conservador. Depende do retorno triunfal da verdade e da justiça – não por milagre, mas por sua construção deliberada.
Esse retorno exige enfrentar perguntas incômodas. Como conciliar um Estado enxuto com a necessidade de ocupar espaços de poder? Como expurgar os oportunistas que brotam de todos os lados antes que façam um estrago maior? Como agir com inteligência sem atrair censura e perseguição? Como romper a paralisia de apenas diagnosticar problemas e avançar para as soluções?
O primeiro passo é aceitar uma realidade elementar: não adianta possuir balas de prata se você não tem o revólver, nem a pontaria. Ignorar isso é seguir à risca o conselho da “especialista em segurança pública” Jacqueline Muniz: acreditar que é possível derrotar facções armadas até os dentes apenas com uma pedra na mão.
É assim que um país morre. Não em combate, mas por estupidez. Com uma bala de prata em cada têmpora.
Jefferson Vieira é economista e atua no mercado financeiro.