A estética que você chama de feia tem nome: espoliação

Confusão entre o feio e o injusto tem intenção: transforma um problema de distribuição de recursos numa questão de gosto pessoal

  • Por Helena Degreas
  • 06/03/2026 09h00
Unsplash/David Sidhom favela no Brasil Reduzir a periferia à condição de vítima seria apagar o mais impressionante nela: a capacidade de criar onde falta quase tudo

A arquiteta Karol, moradora, ativista e mãe periférica, comentou em postagem recente nas redes sociais sobre um vídeo gerado por inteligência artificial que “reformava” uma favela, pintando todas as casas de branco, plantando árvores e transformando o lugar em uma espécie de Santorini digital. A mensagem implícita era clara: olha como ficaria lindo se os moradores cuidassem melhor, se tivessem “bom gosto”, se mudassem seu jeito de pensar.

Com ironia precisa, ela respondeu aos comentários: “O pobre tem que mudar o mindset pra conseguir manter a estética da casa bonita e a rua limpa, parar de ter filho pra não precisar fazer puxadinho, aumentar a renda para comprar uma casa fora da área de risco. É tão simples, vocês que complicam.”

 
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A ironia contida em sua fala está em mostrar o absurdo disso tudo. Ao dizer que a periferia é feia, ou ao afirmar que os moradores “estragam” o recebido, alguém emite um julgamento de aparência estética, mas ético na raiz — e mal colocado, por confundir categorias insistentemente separadas pela realidade.

Essa confusão entre o feio e o injusto tem intenção: transforma um problema de distribuição de recursos numa questão de gosto pessoal.

O nome disso é espoliação e descreve o mecanismo pelo qual quem trabalha na escala 6×1 é duplamente penalizado: ganha mal no emprego e vive mal na cidade, pois o salário baixo é insuficiente para comprar um pedaço de chão com infraestrutura.

Empurrado para áreas sem asfalto, sem esgoto, sem escola, ele usa o tempo restante — depois de horas no transporte lotado — para construir a própria casa, fazer a própria ligação de água, aterrar o próprio barro. A paisagem resultante é alheia a qualquer “estética” escolhida. É a prova física da ausência do Estado.

A Karol sabe disso melhor do que ninguém. O arquiteto ou urbanista periférico exerce o ofício no mesmo território onde mora, passa pela enchente, pelo deslizamento, pelo verão de 40 graus — e é exatamente essa experiência encarnada que torna seu olhar insubstituível. A paisagem resultante é alheia a qualquer “estética” escolhida. É a prova física da ausência do Estado.

Quando olhamos para um morro tomado por casas ou uma várzea ocupada irregularmente, estamos vendo o resultado de uma equação simples: cidades que cresceram sem planejamento para os mais ricos e sem política habitacional para os mais pobres.

O morador não está ali porque gosta do risco. Está porque o mercado formal de terras o expulsou para a única margem que sobrou. A irregularidade fundiária mantida por décadas é uma instabilidade conveniente — permite a omissão do poder público e alimenta um ciclo que só se rompe com decisão política e visão habitacional estratégica.

Reduzir a periferia à condição de vítima seria apagar o mais impressionante nela: a capacidade de criar onde falta quase tudo.

A laje transformada em lazer no fim de semana, o mutirão para levantar um muro, o comércio na porta de casa — tudo isso é a afirmação cotidiana: a vida digna dispensa a permissão do Estado para acontecer. Mas essa energia é insuficiente para substituir o asfalto ausente, a creche nunca construída ou a escritura nunca chegada. A criatividade do morador é testemunho da sua luta — jamais desculpa para a ausência do poder público.

A prova de que essa estética degradada não é inevitável já existe e foi premiada internacionalmente. A Casa do Cafezal, projetada pelo Coletivo Levante no Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, usa exatamente os mesmos materiais da autoconstrução periférica — tijolo aparente, bloco de concreto, cimento — e é vencedora de concurso mundial com mais de 1.600 moradias inscritas. A diferença está além do material, está na ética a orientar o seu
uso. A beleza recusa a decoração, é consequência.

O puxadinho criticado nos comentários não é capricho estético — é a resposta a uma necessidade real: um filho nascido, um parente precisando de abrigo, uma renda extra do aluguel de um cômodo.

E quem nunca teve um amigo ou parente fazendo exatamente a mesma coisa? Na casa de praia, no fundo do quintal, na laje da garagem virada em escritório.

O puxadinho é praticamente uma instituição brasileira. A diferença: no bairro de classe média, chama-se “reforma” ou “ampliação”. Na periferia, vira sintoma de “falta de educação estética”. A mesma prática, o mesmo tijolo, o mesmo cimento — mas um é charme, o outro é poluição visual.

Essa dualidade revela preconceito social travestido de crítica estética. Se o puxadinho fosse um atentado à beleza urbana, as cidades seriam obrigadas a multar metade dos moradores, começando pelos bairros de classe média, onde as reformas informais também acontecem — disfarçadas de “estilo rústico”. Mas ninguém pede mudança de mindset para o dono do apartamento, fechando a frente da casa para estacionar o carro sem licença da prefeitura.

O Estatuto da Cidade criou os instrumentos para viabilizar o reconhecimento formal da posse e a adequação desses territórios aos padrões urbanísticos da cidade. A ATHIS — Assistência Técnica em Habitação de Interesse Social — poderia garantir a qualquer família de baixa renda o acesso a arquitetos e urbanistas, como o SUS garante o acesso a médicos. Profissionais e modelos de boas práticas existem. Falta vontade política.

Na próxima vez em que alguém sugerir ao morador da periferia a necessidade de “mudar o mindse” para ter casa bonita e rua limpa, vale a pergunta de volta: quem decidiu não merecer ele calçada, drenagem, regularização e segurança na posse?

Quem decidiu — pelo filho chegado sem teto — a laje improvisada como único destino? Essas decisões não foram estéticas. Foram éticas. E foram feitas — ou omitidas — muito antes de qualquer tijolo ser assentado ou de qualquer IA sonhar em pintar a favela de branco.

 

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.