A propaganda eleitoral ilegal e o ataque aos cristãos
Escola de samba ultrapassou a fronteira da crítica e mergulhou no pântano da intolerância religiosa
Rafael Durand - 18/02/2026 13h24

O carnaval, muitas vezes utilizado como palco para a inversão de valores e a promoção de imoralidades, atingiu em 2026 um novo patamar de degradação institucional. O desfile da Acadêmicos de Niterói, muito mais que uma exibição de mau gosto estético, foi uma operação escancarada de propaganda eleitoral antecipada, financiada com o suado dinheiro do pagador de impostos, e um ataque direto à fé de milhões de brasileiros.
A hagiografia do poder e o peso de duas medidas
Sob o enredo Lula, o operário do Brasil, a avenida foi transformada em um comício extemporâneo.
Enquanto o sistema foi célere e implacável ao tornar o ex-presidente Jair Bolsonaro inelegível por condutas infinitamente menores (como sua participação em um desfile cívico do 7 de Setembro e sua reunião com embaixadores), assistimos agora a uma passividade ensurdecedora diante de um desfile que utilizou jingles, cores partidárias e exaltação hagiográfica de um mandatário em exercício em plena rede nacional de TV aberta.
Essa tentativa de reescrever a história ignora deliberadamente o rastro de escândalos que marcou os governos do biografado. O desfile silenciou sobre o Mensalão, o Petrolão, as fraudes bilionárias no INSS e as nebulosas operações envolvendo o Banco Master.
Tentar elevar ao status de santidade política alguém cujo grupo político protagonizou os maiores esquemas de corrupção da história do país passa longe de “arte”: é cinismo escancarado e financiado pelo Estado.
O desvio dos cofres públicos para a promoção pessoal
A imoralidade financeira do evento é gritante. Com repasses de cerca de R$ 1 milhão via Embratur e autorização para captações milionárias pela Lei Rouanet, o governo federal financiou a própria exaltação.
Esse uso da máquina pública fere de morte o princípio da impessoalidade administrativa. É inadmissível que o contribuinte seja obrigado a custear uma peça publicitária personalizada para quem detém a caneta no momento.
O Tribunal de Contas da União (TCU), o Ministério Público Eleitoral e o TSE não podem fechar os olhos para este abuso de poder econômico e político que desequilibra completamente o pleito de 2026.
Intolerância religiosa e o ataque aos conservadores
Ademais, o ponto de maior indignação foi a Ala 23, Neoconservadores em conserva. Ao colocar famílias tradicionais, a Bíblia Sagrada e o segmento evangélico dentro de latas de conserva, a escola de samba ultrapassou a fronteira da crítica e mergulhou no pântano da intolerância religiosa e do discurso de hater.

Instituições como a OAB/RJ, a Associação Nacional de Juristas Evangélicos (ANAJURE) e o Instituto Brasileiro de Direito e Religião (IBDR) foram enfáticas: o que se viu foi o vilipêndio de símbolos de fé e a desumanização de uma coletividade.
Como bem pontuado pelas notas de repúdio dessas entidades, a liberdade artística não autoriza o escárnio público nem a ridicularização sistêmica de grupos religiosos.
Afinal, seria tolerado que, no lugar da Bíblia, símbolos de matriz africana fossem retratados de forma tão desumanizadora e caricata dentro de latas de lixo ou de conserva?
O silêncio que vemos hoje se transformaria, instantaneamente, em uma enxurrada de inquéritos criminais com denúncias por racismo religioso.
Neste sentido, representar cristãos como figuras “descartáveis” ou “preservadas em latas” é um ato de preconceito que fere o Artigo 5º da Constituição Federal e tratados internacionais de direitos humanos, atacando de maneira hostil a dignidade humana de milhões de brasileiros que professam a fé cristã.
O fiasco de um espetáculo sem alma
A tentativa de transformar a fé alheia em objeto de escárnio e a política em uma religião estatal resultou em um fracasso técnico retumbante. O desfile foi marcado por alegorias pobres e uma execução confusa, demonstrando que, quando uma escola de samba abandona sua identidade e sua comunidade para servir de “puxadinho” ideológico para o poder de turno, ela perde sua alma artística.
Neste sentido, o que se viu na avenida não foi cultura, mas sim o sequestro de uma manifestação popular para fins de propaganda eleitoral vedada, em um claro aparelhamento ideológico custeado pelo contribuinte.
O legado do carnaval de 2026 é mais uma lição amarga sobre o avanço de um sentimento anticristão institucionalizado, que utiliza a festa como pretexto para destilar preconceito contra quem professa valores conservadores. Assim, sob o falso manto da “liberdade artística”, promoveu-se uma narrativa de segregação que coloca o cidadão de fé como um inimigo a ser ridicularizado.
Isto posto, a Justiça Eleitoral tem em mãos, agora, provas robustas de um abuso de poder que desequilibra o jogo democrático: o uso da estrutura cultural do país como ferramenta de ataque à fé cristã e de exaltação indevida de um projeto político.
Portanto, não podemos permitir que a identidade do nosso povo seja alvo de chacota sob o patrocínio de quem, por dever de ofício, deveria zelar pela impessoalidade e pelo respeito a todos os credos.
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Rafael Durand é advogado, mestre em Direito, pós-graduado em Direito Público e em Direito Digital, professor, membro do Instituto Brasileiro de Direito e Religião (IBDR) e da Comissão de Direito e Liberdade Religiosa da OAB-PB, fundador do NEPC3 – Núcleo de Estudos em Política, Cidadania e Cosmovisão Cristã, autor de artigos e obras jurídicas. |
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