A política não pode ser terceirizada. A verdadeira vitória precisa vir das urnas, em eleições limpas e transparentes, não do capricho das togas. (Foto: Fellipe Sampaio/STF)

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A crise que hoje corrói o país não surgiu do nada. Ela foi, em larga medida, contratada quando a disputa contra o bolsonarismo deixou de ser travada no campo político — no debate público, na articulação parlamentar, na mobilização social — para ser terceirizada ao Poder Judiciário. Tudo o que está acontecendo agora é consequência disso.

Ao substituir o embate democrático pela judicialização sistemática e por uma estratégia de asfixia institucional dos adversários, o campo lulopetista pode ter vencido batalhas imediatas, como evitar a reeleição de Bolsonaro e mandar desafetos para o exílio. Mas, fazendo isso, pavimentou o caminho para um grave processo de perversão da democracia – que agora começa a cobrar seu preço.

Nesse processo de terceirização, naturalizaram-se inquéritos abertos de ofício, bloqueios de perfis em redes sociais, desmonetização de influenciadores, prisões preventivas prolongadas e interpretações elásticas de competências constitucionais.

Ao incorporar essas práticas ao repertório de contenção do bolsonarismo, a Corte se politizou. Para atingir seus objetivos, não hesitou em borrar a fronteira entre crime e dissenso – com o apoio entusiasmado da grande mídia, é importante lembrar.

Mas a democracia não se fortalece com atalhos institucionais. Com o passar do tempo, torna-se evidente que delegar ao STF a linha de frente do combate ao bolsonarismo foi um erro de proporções épicas.

Quando se optou pelo confronto baseado em inquéritos, decisões monocráticas, medidas cautelares e expansões interpretativas de tipos penais, a justificativa era proteger a democracia de ameaças autoritárias. Diante dos últimos acontecimentos, essa narrativa já caiu por terra. E a História ensina que é o autoritarismo que sempre vem embalado em boas intenções.

Um campo político que depende de decisões judiciais para conter o adversário passa a imagem de que não confia na própria capacidade de convencimento.

O lulopetismo, cuja trajetória foi, mal ou bem, construída sobre mobilização popular e narrativa de justiça social, passou a depender de despachos e votos de ministros para se manter no poder – ou manter os adversários sob controle. Isso deslocou o eixo da democracia para um terreno bem pouco transparente.

A percepção de arbitrariedade ganhou força – e, na política, percepção é realidade. Em vez de isolar o bolsonarismo, a judicialização ajudou a consolidá-lo como identidade política coesa. Movimentos que poderiam se fragmentar diante de derrotas eleitorais ou de contradições internas encontraram um elemento agregador: a denúncia de um sistema que os persegue.

A cada medida controversa do STF, amplia-se o público disposto a ver no Supremo não como um árbitro imparcial, mas como um agente político engajado no ativismo.

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Essa dinâmica começou já durante o governo de Bolsonaro. Após a derrota de Fernando Haddad em 2018, o PT enfrentava o desafio de reorganizar sua base diante da ascensão de um adversário com forte apelo popular, que emergia como força disruptiva, ancorada no antipetismo, no conservadorismo moral e na crítica às elites.

Entre 2019 e 2022, a judicialização da política foi o caminho escolhido para enfrentar o bolsonarismo. Ou seja, em vez de tentar reconquistar os corações e mentes do eleitorado, preferiu-se o atalho institucional. A curto prazo, parecia eficiente. No médio e longo prazo, seria desastroso.

Os eventos de 8 de janeiro de 2023 marcaram um ponto de inflexão. Mais uma vez, o STF assumiu protagonismo – mais uma vez com apoio da grande mídia, que transformou em heróis os mesmos personagens que agora começa a desmascarar.

Não faltou quem alertasse: inicialmente celebrada como defesa da ordem constitucional, essa centralidade do tribunal trouxe efeitos colaterais previsíveis, ampliando a percepção de que o Supremo se tornou parte do jogo político.

Esse movimento ignorou lições históricas: a perseguição de líderes populares como Bolsonaro costuma gerar um "efeito rebote": apoiadores percebem as ações judiciais como desonestas, o que aumenta sua coesão e sua rejeição ao sistema. A inelegibilidade e a prisão de líder se tornam combustível para a mobilização – ainda mais quando a verdadeira face de seus carrascos começa a ser exposta.

Além disso, a judicialização exacerbada contribuiu para a erosão da legitimidade e da credibilidade do STF. Ao expandir sua jurisdição e interferir em territórios da política, o Supremo provocou um esvaziamento da democracia representativa. Quando o Judiciário decide questões que caberiam ao Legislativo ou ao Executivo, cria-se uma situação anômala grave, na qual a vontade de ministros não eleitos se sobrepõe invariavelmente à decisão de representantes eleitos.

Para o lulopetismo, o custo será alto. Primeiro, porque a associação simbólica entre governo e Supremo cria no cidadão comum a convicção de que o Poder Executivo só governa porque está amparado em um aparato judicial que persegue o (e restringe o espaço do) adversário. Segundo, porque qualquer erro, excesso ou decisão controversa do STF recai, inevitavelmente, sobre o campo que é visto como seu beneficiário.

Não é à toa que todas as pesquisas indicam que Flávio Bolsonaro apresenta uma curva ascendente nas intenções de voto. A crise de imagem do STF, agravada por julgamentos polêmicos, como os da trama golpista e, mais recentemente, pelo escândalo do Banco Master (que ainda promete muitos desdobramentos), virou munição pesada para a oposição. Lula pode até tentar se descolar da Corte, mas é tarde: a polarização acirrada, fomentada pela judicialização, começa a se voltar contra aqueles que a promoveram e dela se alimentaram.

A crise que o país está vivendo foi contratada lá atrás; ela é consequência de escolhas. Quando o STF se tornou protagonista do jogo eleitoral, a judicialização agravou conflitos, em vez de resolvê-los. Para surpresa de ninguém, a estratégia fracassou miseravelmente: ela não só falhou em erradicar o bolsonarismo, como o revitalizou, transformando-o em uma força que explora a perseguição sofrida para ganhar terreno em 2026.

A lição é clara: a política não pode ser terceirizada. A verdadeira vitória precisa vir das urnas, em eleições limpas e transparentes, não do capricho das togas.

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