Desemprego está nas mínimas históricas. (Foto: Marcelo Andrade / Gazeta do Povo / Arquivo)

Os números fechados do desemprego no Brasil devem ser divulgados pelo IBGE no fim de janeiro, e espera-se a repetição dos últimos resultados positivos, já que dezembro costuma ser um mês aquecido, especialmente no comércio. Governistas e seus aliados na opinião pública já salivam com a possibilidade de usar os números – especialmente o principal deles, a taxa geral de desemprego, que foi de 5,2% no trimestre móvel encerrado em novembro, o menor valor da série histórica – como ferramenta de campanha eleitoral. O mercado de trabalho aquecido é de fato uma realidade, mas também é preciso não apenas matizar alguns números e entender que parte desse dinamismo se deve a uma estratégia que cobrará seu preço no médio prazo.

Os dados já publicados pelo IBGE permitem formar um retrato interessante do período de 12 meses transcorrido entre o trimestre móvel encerrado em novembro de 2024 e o trimestre móvel encerrado em novembro de 2025 (o último período cujas informações foram divulgadas até agora). A população total ocupada, por exemplo, saltou de 101,916 milhões para 103,019 milhões, aumento de 1,08%. No entanto, o crescimento se deu de forma desigual entre setores, e o principal contraste está entre o setor privado e o público. Os empregados no setor privado (exceto trabalhadores domésticos, cujo número caiu) foram de 52,493 milhões para 52,986 milhões, uma elevação de 0,94%, enquanto no setor público o crescimento foi de 3,8% (de 12,617 milhões em novembro de 2024 para 13,1 milhões em novembro de 2025).

Não há como dissociar o dinamismo atual do mercado de trabalho aos inúmeros estímulos governamentais

O grupo com a maior elevação em números absolutos foi o dos trabalhadores por conta própria, que ganhou quase 700 mil pessoas nos 12 meses entre novembro de 2024 e de 2025, elevação de 2,9%. Aqui, é positivo verificar que a formalização ganhou espaço, pois a quantidade de trabalhadores por conta própria com CNPJ subiu 6,2%, enquanto os sem CNPJ aumentaram 1,7% – embora este grupo ainda seja 2,7 vezes mais numeroso que aquele. A formalização também ganhou tração no setor privado: enquanto, como vimos, o número total de empregados nesse setor subiu menos de 1% entre novembro de 2024 e novembro de 2025, os trabalhadores com carteira assinada foram de 38,375 milhões para 39,354 milhões, com elevação de 2,5%. Apesar disso, as taxas de informalidade não se afastaram dos 38% ao longo de todo o ano passado.

Uma outra ressalva interessante vem de um estudo da Fundação Getulio Vargas. Segundo o pesquisador Bruno Ottoni, o envelhecimento da população tem participação na queda do desemprego, já que o ritmo de idosos saindo da força de trabalho é mais veloz que o de jovens ingressando no mercado, um resultado óbvio considerando a queda na natalidade e o aumento da longevidade do brasileiro. Se a pirâmide etária do Brasil em 2025 fosse a mesma de 2012, o desemprego no segundo trimestre do ano passado teria sido de 7,8% em vez de 5,8%, lembrando que o IBGE considera desempregado aquele que está buscando inserção no mercado de trabalho, e não aquele que simplesmente está sem trabalhar.

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Por fim, não há como dissociar o dinamismo atual do mercado de trabalho aos inúmeros estímulos governamentais – principalmente do governo Lula, mas também de estados e municípios. Projeções de seis instituições financeiras ouvidas pelo Estadão/Broadcast apontam que, do crescimento de 1,7% no PIB previsto para 2026, mais da metade (0,9%) virá de estímulos governamentais, incluindo a isenção do Imposto de Renda e programas como o Luz para Todos, o Gás do Povo e o Minha Casa, Minha Vida. Em outras palavras, o poder público está alimentando um círculo vicioso: o governo aquece a economia, o Banco Central tenta esfriá-la com juros altos, aos quais o governo responde com ainda mais estímulos e superaquecimento. Mais que fundir, esse motor corre sério risco de explodir.

Ninguém haverá de negar que o desemprego em queda é positivo. Mas seria ainda melhor se ela viesse graças a boas políticas econômicas, que tirassem das costas do setor privado o peso que atrapalha as contratações. Em vez disso, a queda atual ocorre por meio de aumento da máquina estatal e como resultado de estímulos que, se por um lado elevam a demanda e puxam a iniciativa privada, por outro criam uma bomba-relógio idêntica a uma outra, bastante recente, em que um período de bonança econômica e crescimento insustentável deu lugar a uma severa recessão. Hoje o quadro é positivo, mas resta saber por quanto tempo ele resistirá.