BBB, violência contra a mulher e indignação seletiva: o escândalo mobiliza, a realidade não
A violência contra a mulher não acontece de vez em quando, ela acontece o tempo todo
O episódio do último fim de semana no Big Brother Brasil, envolvendo a tentativa de beijo sem consentimento e a consequente saída de um participante, dominou redes sociais, manchetes e debates públicos. A reação foi imediata e, sob diversos aspectos, correta. Mais do que isso, merece registro a postura firme adotada pela TV Globo, que tratou o episódio com seriedade institucional e não como mero elemento de entretenimento.
A emissora interpretou corretamente a desistência do participante como uma tentativa de fuga do jogo, já diante da possibilidade concreta de eliminação pela própria direção do programa. O apresentador, Tadeu Schmidt, foi explícito ao informar aos demais participantes que, independentemente da desistência, o agressor seria eliminado em razão da conduta adotada. Houve também apoio imediato à participante que sofreu o assédio, inclusive com a disponibilização de profissionais especializados para o devido acolhimento, além do rompimento do contrato da emissora com o participante, classificado como decorrente de uma conduta inadequada gravíssima. Trata-se de uma resposta exemplar do ponto de vista institucional, pedagógico e simbólico.
Contudo, o desconforto sobre o assunto começa quando essa indignação, correta e necessária, se esgota no espetáculo. O país se mobiliza quando a violência acontece em horário nobre, com câmeras, edição e audiência. Fora desse enquadramento, a violência contra a mulher segue ocorrendo de forma contínua, silenciosa e em escala alarmante. O problema não é falar do BBB. O problema é parar no BBB.
Os números que não viram manchete
Os dados oficiais desmontam qualquer narrativa de exceção. Em 2024, o Brasil registrou 87.545 casos de estupro e estupro de vulnerável, o maior número da série histórica iniciada em 2011, conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. A maioria absoluta das vítimas é do sexo feminino, e cerca de dois terços dos crimes ocorrem dentro de casa. Isso desloca o debate do risco eventual para a violência estrutural, cotidiana e muitas vezes invisível.
No Estado de São Paulo, o cenário é igualmente grave. Em 2024, foram registrados 14.579 estupros, dos quais 11.169 classificados como estupro de vulnerável, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública. O próprio poder público reconhece o recorde histórico e a persistência da subnotificação como fator agravante.
A pergunta que se impõe é direta. Por que um episódio televisionado mobiliza o país, enquanto milhares de ocorrências reais permanecem restritas a relatórios técnicos e estatísticas pouco divulgadas? O Brasil não enfrenta apenas um problema de violência contra a mulher. Enfrenta também um problema grave de visibilidade dessa violência.
Invisibilidade também é falha institucional
Casos com imagem, celebridade e viralização geram reação imediata. Casos sem roteiro, que representam a imensa maioria, viram boletim, inquérito e silêncio. Essa assimetria não é neutra. Quando a atenção coletiva falha, a política pública falha junto, porque prevenção exige prioridade, orçamento e pressão social permanente.
São Paulo oferece um exemplo relevante com o Protocolo Não se Cale, que leva o enfrentamento do assédio e da violência para ambientes de lazer e convivência. Trata-se de um avanço institucional importante, que deveria ser replicado em outros estados. Segundo dados oficiais, o programa já superou 100 mil inscritos e capacitou mais de 60 mil profissionais.
Ainda assim, permanece pouco conhecido pela população em geral. Política pública não se mede apenas pela sua existência formal. Mede-se pela capilaridade, pela lembrança social e pela capacidade de transformar procedimento em reflexo. Se o protocolo não está na memória coletiva, ele não protege quando mais importa.
Um chamado que precisa sair do discurso
Aos deputados, senadores, governadores, prefeitos, vereadores, Ministérios Públicos e forças de segurança, o chamado é direto e inadiável. A violência contra a mulher não pode depender do algoritmo, da viralização ou da presença de câmeras para existir no debate público. Ela exige prioridade permanente, visibilidade contínua e resposta estruturada.
Isso pressupõe investimento consistente em campanhas institucionais permanentes, divulgação acessível e regular de dados, painéis mensais de transparência, treinamento contínuo dos agentes envolvidos e, sobretudo, integração real entre os sistemas de denúncia, acolhimento, investigação e responsabilização. Política pública eficaz não se constrói com episódios isolados, mas com método, repetição e presença cotidiana.
Quando um estado registra mais de 14 mil estupros em um único ano, isso não é estatística. É emergência.
O episódio do BBB gerou indignação, e isso é correto. A postura da emissora foi firme, responsável e institucionalmente adequada. O problema surge quando essa indignação se esgota no episódio e não se converte em política pública, informação contínua e prevenção em escala. Nesse ponto, a indignação seletiva deixa de ser reação legítima e passa a funcionar como conforto moral.
A violência contra a mulher não acontece de vez em quando. Ela acontece o tempo todo. O que acontece de vez em quando é a nossa atenção.
E isso, sim, deveria escandalizar mais do que qualquer reality show.
*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.