IA política
Políticos brasileiros estão recorrendo com frequência às IAs para produzir seus textos na internet (Foto: Freepik)

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Quando o leitor se deparar, nas redes sociais de parlamentares, com textos de estrutura engessada, cheios de conectivos e contrastes, e com travessões para dar um ar solene, vale desconfiar: não é apenas um parlamentar escrevendo — é um modelo de inteligência artificial trabalhando.

Políticos brasileiros estão recorrendo com frequência às IAs para produzir seus textos na internet. A tendência fica evidente pelo uso frequente de clichês retóricos, estruturas sintáticas previsíveis e as conclusões moralizantes típicas dos modelos de IA.

Algumas postagens reunidas pela Gazeta do Povo praticamente denunciam o uso da tecnologia, em frases como:

  • "Não há democracia quando divergência vira crime e opinião vira cadeia. O país precisa de pacificação, não de vingança."
  • "Não era narrativa política. Era aviso. Agora é investigação oficial."
  • "Quando um homem concentra poder, define o rito, acusa, julga e executa, isso não é democracia — é tirania com verniz jurídico."
  • "O silêncio também é uma escolha. E a neutralidade, diante do mal, nunca foi virtude."

O cientista político Felipe Rodrigues, que oferece consultoria e formação em inteligência artificial para políticos e equipes de comunicação, explica que alguns padrões tornam claro o uso de IA.

O primeiro deles, presente em todos os exemplos citados, é a estrutura de contraste: "É um recurso retórico que está superexplorado: ‘não apenas X, mas também Y’; ‘não é só isso, mas também aquilo’; ‘não se trata apenas disso, é isso’. ‘Mais do que tal, é tal coisa’. Isso tem sido muito usado”, diz.

Outro sinal é a presença excessiva de conectivos e uma estrutura de texto muito previsível, em blocos. "Vem um parágrafo com duas linhas, outro com quatro linhas, outro com quatro e outro com duas. Ou frases com sujeito, verbo, predicado, complemento… sujeito, verbo, predicado, complemento… Essas estruturas bem formatadinhas, que não têm muita quebra, que não têm muito toque pessoal, que são muito genéricas, são evidências de um texto de IA."

Isso se deve, explica ele, a "uma questão probabilística". "A IA vai reproduzir padrões. Se a gente for analisar probabilisticamente, em termos percentuais, a probabilidade de que alguém goste de um texto ou de que um texto seja considerado bem formatado justamente porque é um clichê, é maior."

Rodrigues resume algumas das marcas principais das IAs em textos de políticos nos seguintes pontos:

  • Obsessão com contrastes: fórmulas do tipo “não é apenas X — é Y”.
  • Tiques lexicais: aberturas como “de modo geral” e conclusões com expressões como “em síntese” ou “em suma”, mesmo em textos curtos.
  • Falta de voz individual: pouco humor, ironia, idiossincrasias ou contexto pessoal.
  • Estrutura engessada: parágrafos de tamanho padronizado e conectivos previsíveis em excesso.
  • Generalidades e clichês moralizantes: lugares comuns e abstrações com lição de moral genérica no fim.
  • Sinais de padrão visual: travessões longos, subtítulos, estruturas de tópicos e emojis em excesso.

Todas essas características são marcas do que se tem chamado em inglês de "AI slop" – lixo de IA ou IA desleixada, em tradução livre –, isto é, conteúdos de inteligência artificial de baixa qualidade gerados de forma preguiçosa.

Falta de treinamento da IA e uso voltado para poupar trabalho são receita para gerar clichês

Evitar os lugares-comuns de IA é possível, mas é preciso treinar os modelos, alimentando-os com a personalidade e os padrões de fala dos políticos — algo que costuma dar trabalho. Para Rodrigues, essa preguiça na etapa de calibração do modelo explica por que os textos acabam desembocando em clichês.

O problema se agrava porque a IA, no dia a dia dos gabinetes, virou um atalho para facilitar o trabalho, e não para elevar a sua qualidade. O produto final, com isso, fica mais genérico.

"Muita gente usa a IA como muleta, para facilitar, para deixar o trabalho mais fácil, e não necessariamente para deixar o trabalho melhor. Um uso virtuoso da IA é usá-la não só para facilitar o trabalho, mas também, e principalmente, para torná-lo melhor. Mas não é o que o pessoal tem feito. Muitos assessores trabalham sozinhos, precisam escrever coisas em larga escala e usam a IA como muleta, como um assistente genérico", diz.

Ele não vê um grande problema ético nessa tendência, mas considera que a eficácia da comunicação se perde. "O que o político mais precisa é ocupar um lugar na cabeça do eleitor ou do cidadão. Se você se comunica como todo mundo, com um padrão muito genérico, você não tem identidade nenhuma. E isso solapa o seu posicionamento na cabeça do eleitor", comenta.

Não por acaso, a principal preocupação que políticos e seus assessores têm trazido para ele é justamente a de como fazer textos que não tenham cara de IA.

Eleições devem aumentar uso de inteligência artificial em textos de políticos, e até debates devem ser impactados

À medida que as eleições se aproximarem, o desejo de publicar em larga escala e de forma mais rápida tenderá a crescer. Rodrigues prevê, com isso, um aumento de postagens genéricas produzidas por IA nas redes de políticos.

Na visão dele, isso pode empobrecer as discussões no período eleitoral, principalmente porque textos gerados por IA sem o treinamento devido costumam ter conclusões genéricas e vazias, com truques retóricos que se encaixariam em qualquer contexto.

Rodrigues também aposta que a IA deve começar a aparecer, de forma indireta, até em debates eleitorais ao vivo, como ferramenta de bastidor para acelerar checagens e preparar textos com respostas a questões suscitadas por adversários.

"A checagem de fatos é mais rápida. Você tem um motor de IA funcionando com uma busca muito ampla, com uma precisão muito grande. Você consegue rebater inclusive com fontes um dado que foi citado errado, por exemplo", explica. "Vamos imaginar que há um tempo antes de uma réplica, ou um intervalo um pouquinho maior… Um assessor pode muito bem entregar essa resposta para o candidato, formatar a resposta para que ele rebata algum dado, reforce algum argumento… Eu acho que isso é bem possível de ser usado e apontaria até como uma tendência", acrescenta.