Crônica de um crime financeiro anunciado
Rabos presos, silêncios coreografados, a encenação institucional intacta...
Juliana Leite - 07/01/2026 09h34

O Banco Master não foi um acidente financeiro; foi um enredo. Um banco que operava como romance sujo: capa limpa, páginas internas cheirando a dinheiro quente.
O colapso não revelou apenas balanços inflados, mas um ecossistema inteiro sustentado por transferências reais, bancárias, rastreáveis — dinheiro mesmo, não metáfora — irrigando uma rede de conveniências. Não eram ideias, não eram afinidades, não era “narrativa”. Era pagamento. Um sistema em que elogios tinham preço, silêncios tinham valor de mercado e a indignação era terceirizada como serviço.
No centro, Daniel Vorcaro aparece menos como banqueiro e mais como personagem de máfia moderna: sem revólver, sem charuto, mas com planilhas, contratos e gente no bolso. Brasília nas mãos — não por ideologia, mas por dependência. Influencers de direita, influencers fitness, comentaristas de ocasião, todos orbitando a mesma fonte pagadora, todos disciplinados pela mesma regra antiga: quem paga manda.
E enquanto isso, a elite togada desfila salários e benefícios tão obscenos que se tornam pornográficos — não pelo valor em si, mas pela indiferença moral com que são exibidos, como se o país fosse um figurante dispensável.
E aí entram os rabos presos, os silêncios coreografados, o Dias Toffoli permanente no fundo do quadro, o Centrão babando guardanapo, a encenação institucional intacta. Tudo muito grave, tudo muito investigado, tudo terminando exatamente onde sempre termina: em nada.
Porque no Brasil o escândalo não explode — ele amadurece. Fermenta. Esfria. E, no fim, é servido em fatias iguais, mornas, previsíveis. Acaba em pizza. Como sempre.
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Juliana Moreira Leite é jornalista especialista em cultura, escritora e curiosa. Nesse espaço vai falar sobre assuntos da atualidades sob a sua visão. |














