Elefante na sala, Maduro atrapalha ‘química’ entre Trump e Lula
Petista se afastou do chavista desde o último ciclo eleitoral, mas aliança do passado e coerência sobre defesa da soberania dificultam estreitamento da relação com republicano após invasão
O ataque dos Estados Unidos à Venezuela, que culminou na captura do presidente Nicolás Maduro e na tomada de poder pelos norte-americanos, deve afetar a relação entre Casa Branca e Palácio do Planalto.
A recente aproximação entre os presidentes Lula (PT) e Donald Trump pegou muita gente de surpresa: ideologicamente opostos, os dois chegaram a protagonizar intensas trocas de farpas, em especial sobre o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe. Bolsonaro é aliado de longa data de Trump e o republicano já chamou o capitão da reserva de “amigo” em diversas ocasiões.
Após lobby do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), autoexilado nos EUA, o republicano fez uma série de sanções ao Brasil e a ministros do Supremo. A mais preocupante para o governo foi a imposição de altas tarifas sobre produtos importados daqui.
Pressionado pelo mercado (e com a ajuda de parte do empresariado brasileiro), Lula começou a se aproximar de Trump em uma cúpula da ONU realizada em Nova York em setembro. Os dois tiveram uma conversa rápida e o petista brincou que sentiu uma “química” com e republicano.
De lá para cá, foram alguns telefonemas, uma reunião bilateral e reuniões e conversas entre as diplomacias dos dois países. O resultado: a queda das tarifas de produtos importantes como carne bovina, café, frutas e madeira, além da revogação da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, algoz de Bolsonaro.
Com o tarifaço ainda valendo para setores importantes da economia brasileira, como pescados, a recente aproximação entre Lula e Trump vai precisar encarar de frente um dos seus principais obstáculos: Nicolás Maduro.
O PT e o chavismo são aliados de longa data. No passado, Lula defendeu Maduro, considerado ditador por grande parte das democracias ocidentais, de forma veemente. A relação mudou, no entanto, depois do último ciclo eleitoral na Venezuela, em 2024. Em meio a prisões de opositores e acusações de fraude eleitoral, o presidente do Brasil não reconheceu a vitória de Maduro no pleito e criticou falas do aliado sobre um possível “banho de sangue” em caso de derrota.
Também em 2024, o Brasil também vetou a entrada da Venezuela nos Brics, também sendo criticado por Maduro. O governo brasileiro também assumiu papel de negociador quando Caracas invadiu a Guiana. Nos bastidores, no entanto, Lula foi duro com o regime comandado por Maduro, aumentando o afastamento entre os dois.
Após o ataque norte-americano, Lula ficou em situação desconfortável: defender Maduro seria um caminho fácil para irritar Trump, além de municiar a oposição, que usa a antiga amizade entre os dois para criticar o governo. Por outro lado, optar pelo silêncio soaria incoerente com uma das principais bandeiras diplomáticas do brasileiro: a defesa da soberania nacional. Além disso, o processo de enfraquecimento da esquerda na América do Sul isola o Brasil no continente.
Lula optou por criticar o ataque: “Os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional”, escreveu o petista. Ele não citou diretamente Donald Trump e nem mesmo os Estados Unidos em seu comunicado. Também evitou fazer qualquer comentário, positivo ou negativo, sobre Maduro ou seu regime. Alguns integrantes do PT e aliados do partido, por outro lado, defenderam o chavista de forma mais clara.
Em coletiva de imprensa neste sábado, Trump mencionou o crescimento da direita na América Latina, citando que os candidatos apoiados por ele venceram na Argentina (Javier Milei) e no Chile (José Antonio Kast). Também subiu o tom contra países da região governados pela esquerda ao dizer que o presidente colombiano, Gustavo Petro, deveria “tomar cuidado” e que “algo precisaria ser feito” para conter o narcotráfico no México, liderado por Claudia Sheinbaum.
Lula não foi citado, em um sinal de que o petista, apesar de não ser considerado um aliado, também deixou lista daqueles que incomodam Trump. Mesmo assim, é de interesse do governo Trump a vitória de um candidato de direita na maior potência sul-americana. Com a queda de Maduro e a esquerda mais enfraquecida no continente, os republicanos mais alinhados com a família Bolsonaro, devem tentar convencer Trump a fazer uma nova ofensiva contra o governo brasileiro.
A menos de um ano das eleições, Lula tem a melhora da relação com os EUA como um de seus maiores trunfos eleitorais: além de fomentar a imagem de bom negociador do petista, a queda de grande parte das tarifas foi uma das grandes vitórias do atual governo e ainda se tornou combustível para criticar a oposição. A queda do regime Maduro se apresenta como o próximo desafio diplomático do atual governo.
Ataque e prisão de Maduro
Trump confirmou neste sábado que forças do país realizaram “com sucesso um ataque em grande escala contra a Venezuela e Maduro, que foi, junto com a primeira-dama, Cilia Flores, capturado e retirado do país”.
“Os Estados Unidos da América realizaram com sucesso um ataque de grande escala contra a Venezuela e seu líder, o presidente Nicolás Maduro, que foi capturado, juntamente com sua esposa, e retirado do país por via aérea”, disse Trump em sua rede Truth Social.
Mais tarde, em coletiva de imprensa, o republicano afirmou que os EUA vão controlar o governo venezuelano até uma transição pacifica de poder.
“Nós vamos comandar o país até que possamos fazer uma transição segura, criteriosa e legítima”, disse. “Não queremos que outra pessoa [como Maduro] tome o poder e tenhamos que ter uma situação semelhante. Nós queremos, paz, justiça e liberdade para o povo da Venezuela”, afirmou. Ainda de acordo o norte-americano, a vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, disse a ele que está disposta a trabalhar com os EUA na transição.
O republicano também afirmou que empresas norte-americanas vão extrair petróleo em território venezuelano para “fazer dinheiro para o país”.
“Como todos sabem, o setor do petróleo na Venezuela tem sido uma ‘porcaria’ por um grande período de tempo. Eles não estão extraindo quase nada comparado com o que poderiam estar extraindo. Nós mandaremos as maiores empresas do setor de petróleo dos EUA irem até lá para gastar bilhões de dólares e consertar a infraestrutura. Eles vão começar a fazer dinheiro para o país”, falou. Ele prometeu uma Venezuela feliz, rica e segura.
O anúncio foi feito após uma madrugada de explosões em Caracas e em estados como Miranda, Aragua e La Guaira. Relatos locais indicam ataques contra infraestruturas estratégicas, incluindo o Forte Tiuna (complexo militar onde fica a sede do Ministério da Defesa) e a base aérea de La Carlota.
A Venezuela disse que os bombardeios dos Estados Unidos ocorridos em várias regiões do país, incluindo a capital, atingiram civis.
“Forças invasoras (…) profanaram nosso solo sagrado nas localidades de Fuerte Tiuna, Caracas, nos estados Miranda, Aragua e La Guaira, chegando a atingir, com seus mísseis e foguetes disparados de helicópteros de combate, áreas urbanas de população civil”, disse o ministro da Defesa da Venezuela, Vladimir Padrino López.

