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Nas primeiras horas após o ataque dos Estados Unidos à Venezuela para capturar o ditador Nicolás Maduro, políticos, militantes e intelectuais de esquerda se mobilizaram nas redes para condenar a ação do presidente Donald Trump. Em uníssono, acusaram o governo americano de reavivar o imperialismo na região e, com isso, violar princípios do direito internacional, como a soberania e autodeterminação dos povos.
A reação contrasta com a recente celebração, pelo governo e pela esquerda, da recente aproximação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com Trump, que resultou na redução significativa das tarifas adicionais impostas no ano passado sobre produtos brasileiros e na retirada da sanção Magnitsky sobre o ministro Alexandre de Moraes e sua esposa.
A declaração mais importante veio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, aliado histórico de Maduro. “Os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela”, postou, defendendo uma resposta da ONU. A publicação foi compartilhada por PT e Fundação Perseu Abramo, ligada ao partido.
Em nota, o PT condenou “veementemente a agressão militar dos Estados Unidos da América contra a República Bolivariana da Venezuela e seu povo” e classificou de “sequestro” a captura de Maduro e sua esposa, Cilia Flores. Reafirmou que o conflito tem “motivações políticas e econômicas” e traz “graves riscos à estabilidade regional”.
As ações deste sábado (3), acrescentou o partido, “configuram a mais grave agressão internacional registrada na América do Sul no século XXI”. “O conflito representa uma séria preocupação para o Brasil – que compartilha cerca de dois mil quilômetros de fronteira com a Venezuela – e para a região como um todo”, afirmou ainda o PT.
Ministro da Secretaria Geral do Governo Lula, Guilherme Boulos, do PSOL, publicou nas redes que o ataque dos EUA à Venezuela “é a ação imperialista mais grave que já vivenciamos”.
“Alguém acha que Trump está preocupado com democracia? Ele quer petróleo. E mais: usa a Venezuela como precedente para uma nova Doutrina Monroe que ameaça toda a América Latina. Nem na Guerra Fria houve uma ação militar direta dos EUA em nosso continente. Ainda mais com sequestro de um chefe de Estado. É momento de unidade latino-americana em apoio total ao povo da Venezuela e em rechaço ao governo criminoso de Donald Trump”, escreveu na rede X.
A ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, afirmou que a ONG Fundo para o Desenvolvimento dos Povos Indígenas da América Latina e do Caribe (Filac) condena os ataques e o “sequestro” de Maduro e sua esposa, Cilia Flores. “A escalada de ações militares e coercitivas representa uma grave ameaça à paz e à estabilidade da América Latina e do Caribe, assim como à instabilidade em todo o mundo, colocando em risco a vida de milhões de pessoas”, publicou a ministra.
Líder do PT na Câmara, o deputado Lindbergh Farias (RJ), manifestou repúdio da bancada do partido. “A igualdade entre os Estados soberanos precisa ser respeitada e a melhor solução sempre passa pela via pacífica, pelo diálogo, sem o uso da força, sem violência e guerra. Defendemos uma solução mediada, negociada, pelos organismos internacionais, como ONU, OEA, para que se busque a paz na Venezuela, preservando vidas de civis, e evitando que o conflito não ganhe dimensões continentais”, postou.
Vice-líder do governo Lula na Câmara, o deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) afirmou não defender Maduro, mas postou que a intervenção americana “fere a soberania de um povo e abre um precedente perigosíssimo para toda a América Latina, inclusive para o Brasil”. “Quem diz defender a democracia não pode aceitar a lógica do ‘vale tudo’ quando é conveniente. O caminho responsável é desescalar, respeitar a Carta da ONU, fortalecer a diplomacia e buscar uma saída política, negociada e com acompanhamento internacional. Intervenção militar não traz paz. Espalha instabilidade, sofrimento e mais autoritarismo”, publicou o deputado.
O deputado federal Rogério Correia (PT-MG) criticou de forma mais dura a ação. “É mais um capítulo da política imperialista que exporta guerra e violência. A América do Sul não pode se calar diante dessa violação do direito internacional”, escreveu no X.
O senador Humberto Costa (PT-PE), vice-presidente do Senado, afirmou que “a América Latina e o Caribe não são extensões dos interesses de quaisquer países”. Postou que os ataques à Venezuela “violam a soberania de uma nação e as convenções que mantém a ordem mundial. É um atentado contra a comunidade internacional e a própria paz porque nos lança em novas instabilidades políticas”.
Ex-deputado federal e presidente da Embratur, Marcelo Freixo, do PT, questionou: “quando o mundo decidiu que os EUA deixaram de ser um país para virar um tribunal militar internacional?” “Não se trata de um debate sobre quem gosta ou não do governo da Venezuela. Quanto essa medida vai custar para o mundo? Para onde vão os mecanismos internacionais de relações diplomáticas? Que precedente o mundo está abrindo?”, alertou.
A deputada Jandira Feghali (PC do B-RJ) escreveu que “o autoritarismo desconhece limites, fronteiras e a soberania das nações. Não é movido pela justiça, mas pela cobiça e a necessidade constante de subjugar”. “A América Latina tem história. Tem a memória da luta enfrentada contra os que viam o território apenas como fonte de lucro. Saqueadores. Toda solidariedade ao povo venezuelano”, publicou no X.
O ex-ministro da Defesa e ex-deputado Aldo Rebelo, ex-PC do B, publicou entrevista de outubro na qual dizia que “o que está em jogo na Venezuela não é a democracia, é a maior reserva de petróleo do mundo”. “Você imagina qual seria a onda migratória da Venezuela para o Brasil no caso de conflito”, afirmou o político.
Entre intelectuais de esquerda, a reação foi semelhante. O professor de filosofia da USP Vladimir Safatle considera que “a invasão da Venezuela sem nenhuma reação internacional é o fim completo da ordem internacional como criada após a Segunda Guerra”. “Esse é outro mundo completamente distinto do que conhecemos. O imperialismo mais descarado com dominação militar aberta. Esse é um mundo de guerra”, publicou no X.
O cientista político Christian Lynch condenou a política externa de Trump sobre a região. “A América Latina é vista pela extrema-direita dos EUA como parte do seu império. É esse o sentido do corolário Trump da doutrina de Monroe. Os recursos estratégicos dos países da América Central e do Sul são considerados reservas deles. E se seus governos quiserem sobreviver, devem se curvar aos interesses deles. O nome técnico desse tipo de relação se chama imperialismo”, publicou.