Flores, batons e outros ativos de liquidez proporcional

Confissões no WhatsApp de Vorcaro: o papel do feminino que garante o sossego em tempos de crise. Afinal, o que seria de um grande esquema sem uma secretária emocional para chamar de sua?

  • Por Larissa Fonseca
  • 09/03/2026 12h37
HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO CONTEÚDO Ministro do STF Alexandre de Moraes, ao lado da esposa Viviane Barci, quando chegou para sabatina no Senado que assegurou seu cargo Ministro do STF Alexandre de Moraes, ao lado da esposa Viviane Barci

O Dia Internacional da Mulher costuma ser uma data de epifanias corporativas e políticas. De repente, o mundo descobre que as mulheres são “fortes, resilientes e líderes natas”. É uma percepção que brota nos departamentos de marketing com a mesma velocidade com que as flores de plástico decoram os balcões de recepção. As redes sociais são inundadas por tons de rosa e frases de efeito que, convenhamos, têm o prazo de validade de um buquê de posto de gasolina.

Mas, enquanto o andar de baixo celebra a autonomia com filtros de Instagram, o andar de cima, aquele onde o ar é rarefeito e o PIB circula sem crachá, opera em uma frequência bem mais arcaica.

Nos bastidores do Banco Master, sob o comando de Daniel Vorcaro, as mensagens que vieram a público recentemente não revelam apenas números. Revelam uma coreografia comportamental fascinante. Entre operadores e empresários, o elemento feminino aparece, mas raramente como a mão que assina o cheque ou a voz que define a taxa de juros. Ali, a mulher é um ativo relacional.

Tome-se como exemplo o nome “Vivi Barci”, que surge nos diálogos da imprensa com uma naturalidade quase protocolar. A referência, conforme os portais de notícias, é a advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes que negou contato com Vorcaro via mensagens. O escritório que ela dirige, composto também pelos filhos do magistrado, teria um contrato potencial de 129 milhões de reais com o banco. Um valor que daria para comprar muitas rosas, e talvez a floricultura inteira, mas que serve aqui para ilustrar um fenômeno da psicologia social: o capital social por associação.

As mensagens de WhatsApp de Vorcaro acrescentam uma camada ainda mais íntima a esse cenário. Ali, as mulheres não surgem apenas em contratos vultosos, elas aparecem no papel de apoio emocional. É a utilização da empatia feminina como ferramenta de gestão de crise. Enquanto os homens operam a lógica bruta do poder e do dinheiro, as mulheres são convocadas para serem o “ombro”, o elo que suaviza as tensões e humaniza o ambiente de negócios escusos. No WhatsApp, elas são as confidentes que garantem que o moral dos “guerreiros” não caia. É a terceirização do bem-estar masculino sob a roupagem de parceria.

É aqui que reside a tirania da resiliência. Enquanto o mercado vende o arquétipo da mulher “guerreira”, cria-se uma obrigação moral de suportar o insuportável. A tolerância ao sofrimento passa a ser usada como uma medalha de honra. Muitas permanecem em dinâmicas de violência emocional ou institucional porque o mundo as convenceu de que ser forte é sinônimo de ser resistente à dor. O “ser forte” virou o novo “ficar calada e acolher”. Em vez de autonomia real, entregamos a elas a responsabilidade de serem o spa emocional. No poder, essa doçura estratégica é exatamente o que mantém o sistema funcionando sem sobressaltos.

No entanto, há um ruído nesse sistema. A ciência dá o seu veredicto: embora a dor seja subjetiva, revisões publicadas na Nature Reviews e estudos conduzidos em Harvard revelam que as mulheres possuem sistemas de modulação de dor muito mais complexos. Não se trata de fragilidade, mas de uma neurobiologia distinta, onde a resiliência funcional feminina permite sustentar pressões e estresses crônicos que o sistema masculino processa de forma muito menos persistente.

Mas a jornalista Malu Gaspar subverte essa lógica. Ela utiliza essa resistência, esse fôlego biológico para lidar com a pressão, não para acolher o esquema, mas para sustentar o peso de uma investigação que faria muitos ombros largos fraquejarem. Malu prova que a mesma estrutura que o poder usa para o silêncio pode ser usada para o grito. Ela não foi convidada para ser o elo social ou a face resiliente que tolera os bastidores. Ela se fez o centro da investigação, transformando a tolerância feminina ao estresse em uma arma para arrombar a caixa-preta que o poder tentava manter lacrada.

O simbolismo deste 8 de março é duplo. Temos as mulheres que são usadas como extensão de redes masculinas e aquelas que, munidas de uma caneta e pouca paciência para protocolos de etiqueta, decidem expor o que está lá dentro. Enquanto umas servem para aproximar o poder de seus interesses, outras servem apenas para uma coisa: para denunciar que, por trás de cada grande homem, costuma haver um contrato jurídico que ninguém queria que fosse lido.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.