Flores, batons e outros ativos de liquidez proporcional
Confissões no WhatsApp de Vorcaro: o papel do feminino que garante o sossego em tempos de crise. Afinal, o que seria de um grande esquema sem uma secretária emocional para chamar de sua?
O Dia Internacional da Mulher costuma ser uma data de epifanias corporativas e políticas. De repente, o mundo descobre que as mulheres são “fortes, resilientes e líderes natas”. É uma percepção que brota nos departamentos de marketing com a mesma velocidade com que as flores de plástico decoram os balcões de recepção. As redes sociais são inundadas por tons de rosa e frases de efeito que, convenhamos, têm o prazo de validade de um buquê de posto de gasolina.
Mas, enquanto o andar de baixo celebra a autonomia com filtros de Instagram, o andar de cima, aquele onde o ar é rarefeito e o PIB circula sem crachá, opera em uma frequência bem mais arcaica.
Nos bastidores do Banco Master, sob o comando de Daniel Vorcaro, as mensagens que vieram a público recentemente não revelam apenas números. Revelam uma coreografia comportamental fascinante. Entre operadores e empresários, o elemento feminino aparece, mas raramente como a mão que assina o cheque ou a voz que define a taxa de juros. Ali, a mulher é um ativo relacional.
Tome-se como exemplo o nome “Vivi Barci”, que surge nos diálogos da imprensa com uma naturalidade quase protocolar. A referência, conforme os portais de notícias, é a advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes que negou contato com Vorcaro via mensagens. O escritório que ela dirige, composto também pelos filhos do magistrado, teria um contrato potencial de 129 milhões de reais com o banco. Um valor que daria para comprar muitas rosas, e talvez a floricultura inteira, mas que serve aqui para ilustrar um fenômeno da psicologia social: o capital social por associação.
As mensagens de WhatsApp de Vorcaro acrescentam uma camada ainda mais íntima a esse cenário. Ali, as mulheres não surgem apenas em contratos vultosos, elas aparecem no papel de apoio emocional. É a utilização da empatia feminina como ferramenta de gestão de crise. Enquanto os homens operam a lógica bruta do poder e do dinheiro, as mulheres são convocadas para serem o “ombro”, o elo que suaviza as tensões e humaniza o ambiente de negócios escusos. No WhatsApp, elas são as confidentes que garantem que o moral dos “guerreiros” não caia. É a terceirização do bem-estar masculino sob a roupagem de parceria.
É aqui que reside a tirania da resiliência. Enquanto o mercado vende o arquétipo da mulher “guerreira”, cria-se uma obrigação moral de suportar o insuportável. A tolerância ao sofrimento passa a ser usada como uma medalha de honra. Muitas permanecem em dinâmicas de violência emocional ou institucional porque o mundo as convenceu de que ser forte é sinônimo de ser resistente à dor. O “ser forte” virou o novo “ficar calada e acolher”. Em vez de autonomia real, entregamos a elas a responsabilidade de serem o spa emocional. No poder, essa doçura estratégica é exatamente o que mantém o sistema funcionando sem sobressaltos.
No entanto, há um ruído nesse sistema. A ciência dá o seu veredicto: embora a dor seja subjetiva, revisões publicadas na Nature Reviews e estudos conduzidos em Harvard revelam que as mulheres possuem sistemas de modulação de dor muito mais complexos. Não se trata de fragilidade, mas de uma neurobiologia distinta, onde a resiliência funcional feminina permite sustentar pressões e estresses crônicos que o sistema masculino processa de forma muito menos persistente.
Mas a jornalista Malu Gaspar subverte essa lógica. Ela utiliza essa resistência, esse fôlego biológico para lidar com a pressão, não para acolher o esquema, mas para sustentar o peso de uma investigação que faria muitos ombros largos fraquejarem. Malu prova que a mesma estrutura que o poder usa para o silêncio pode ser usada para o grito. Ela não foi convidada para ser o elo social ou a face resiliente que tolera os bastidores. Ela se fez o centro da investigação, transformando a tolerância feminina ao estresse em uma arma para arrombar a caixa-preta que o poder tentava manter lacrada.
O simbolismo deste 8 de março é duplo. Temos as mulheres que são usadas como extensão de redes masculinas e aquelas que, munidas de uma caneta e pouca paciência para protocolos de etiqueta, decidem expor o que está lá dentro. Enquanto umas servem para aproximar o poder de seus interesses, outras servem apenas para uma coisa: para denunciar que, por trás de cada grande homem, costuma haver um contrato jurídico que ninguém queria que fosse lido.
*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.