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As garantias dadas pelo presidente Donald Trump de que os Estados Unidos controlarão provisoriamente a Venezuela e podem adotar novas ações militares no país reduzem o risco de conflito interno e derramamento de sangue na Venezuela após a queda do ditador Nicolás Maduro, segundo analistas ouvidos pela Gazeta do Povo. A possibilidade de que uma luta entre milícias e facções das Forças Armadas pelo poder levaria o país a uma guerra civil vinha sendo usada como principal argumento de críticos a uma ação militar de Trump no país.
Os cenários mais graves foram traçados por membros do partido Democrata e analistas políticos americanos ligados a alas à esquerda. O temor era que grupos rivais nas Forças Armadas Bolivarianas e milícias dissidentes das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e do ELN (Exército de Libertação Nacional) que operam na Venezuela entrassem em luta armada pelo poder após a remoção de Maduro — que exercia controle rígido sobre todas essas facções.
Além disso há o risco de que forças leais a Maduro tentem resistir ao controle americano do país. O pesquisador em segurança pública e responsável pelo Centro de Pesquisa em Direito e Segurança (CEPEDES), Fabrício Rebelo, afirma que é sempre muito difícil prever exatamente quais serão as consequências da derrubada de um regime, por mais ilegítimo que ele seja.
Ele avalia que os exemplos históricos demonstram que os momentos subsequentes são propensos ao caos, com instabilidade social, ondas de saques e justiçamentos ancorados em um vácuo de poder. No caso da Venezuela, ele avalia que tudo dependerá do efetivo poder remanescente das forças fiéis a Maduro e de quanto a população e a oposição estão dispostas a enfrentá-las.
“Nessa equação, o fiel da balança acabará sendo os próprios EUA, que, inclusive, já anunciaram que assumirão provisoriamente o controle do país até a transição de poder. Se isso se implementar, é pouco provável que vejamos uma resistência efetiva das forças bolivarianas, pois as milícias não têm poderio minimamente suficiente para fazer frente às forças americanas", afirmou.
Por outro lado, não há garantias de que os EUA promoverão uma transição democrática completa Venezuela, com a realização de eleições fiscalizadas por auditores internacionais. Em seu Plano de Segurança Nacional divulgado em dezembro, os Estados Unidos afirmaram desejar a instalação de governos estáveis no continente americano, mas não necessariamente democracias.
o presidente Donald Trump disse neste sábado (3) que não sairá do país deixando-o no caos, mas que conduzirá uma transição adequada e segura.
“Nós vamos administrar isso por meio de um grupo e garantir que seja feito corretamente", disse Trump. O presidente dos EUA ainda afirmou que assegurará que “o povo da Venezuela seja amparado; vamos garantir que as pessoas que foram forçadas a sair da Venezuela também sejam amparadas”, complementou. Questionado se enviaria tropas à Venezuela, Trump reafirmou que haverá um time para conduzir o país após a captura de Maduro. “Se simplesmente deixarmos [a Venezuela], quem irá assumir? Realmente não há ninguém que possa assumir", disse.
Possíveis candidatos
Apesar das declarações de confiança feitas por Trump, especialistas passaram a avaliar os riscos e os limites de uma transição conduzida pelos Estados Unidos. Nomes de políticos da oposição eram avaliados como possíveis candidatos a assumir o poder. No entanto, a realização de eleições livres ainda deve estar em um horizonte mais longínquo.
Uma das possibilidades é que Edmundo González, presidente eleito da Venezuela, mas cujo mandato foi usurpado após fraudes na apuração em favor de Maduro assumisse a Presidência. No entanto, essa opção não parece ser viável — Trump nem sequer mencionou o nome de González, que se encontra exilado na Espanha, durante entrevista à imprensa. Sobre María Corina Machado, ganhadora do Nobel da Paz, Trump disse que não teria apoio interno.
Leonardo Paz Neves, pesquisador do Núcleo de Inteligência Internacional da FGV, entende que seria até mesmo arriscado para o governo americano realizar eleições neste momento. Ele diz não saber se a população vai apoiar prontamente ou não, ou se há a possibilidade de que uma transição coloque outra pessoa do partido de Maduro no poder. “Parece-me que o governo americano não vai querer arriscar isso. Acredito que eles vão fazer uma transição, colocar um governo de transição que fará uma eleição só daqui a algum tempo", afirma.
Na avaliação de Gunther Rudzit, professor de Relações Internacionais da ESPM, é muito difícil acreditar que poderá haver eleições na Venezuela em um curto espaço de tempo. “Ainda mais eleições livres, efetivamente democráticas", afirmou. Segundo o docente, ainda assim, mesmo com as declarações de Trump, o destino da Venezuela segue incerto, especialmente pelos diferentes grupos internos, militares e políticos, que compunham o regime de Nicolás Maduro.
Principal empecilho para transição venezuelana foi retirado
Rudzit ainda considera que as falas de Trump podem criar divisões no regime chavista. “O anúncio efetivamente parece um pouco fora de contexto, porque é muito difícil acreditar que os membros do regime venezuelano aceitarão seguir as linhas propostas pelos Estados Unidos. Talvez seja até mais uma forma de criar divisões internas e desconfianças para que haja a queda do regime por conta própria", avaliou.
Ainda que o cenário permaneça marcado por incertezas, na visão de Paz Neves, o principal empecilho para que os EUA e sua estratégia de transição tenham apoio, Nicolás Maduro, já foi removido. O pesquisador avalia que ainda é cedo para ver se haverá pressão interna da elite da Venezuela, incluindo as Forças Armadas, os congressistas e outros setores do capital privado.
“É preciso ver o quanto eles estão dentro do barco de Trump, no sentido de aceitar que é hora de mudar o governo, hora de mudar a direção na Venezuela. Afinal, Maduro, que em tese era um dos principais empecilhos, já saiu da equação, ao que tudo indica", disse.
Autoridades venezuelanas não teriam outra saída senão aceitar os termos dos EUA
Trump usou o sucesso no ataque militar que resultou na prisão de Maduro e de sua mulher a seu favor. Durante entrevista coletiva, a operação foi amplamente detalhada e uma afirmação foi repetida de forma enfática: somente os EUA poderiam ter operado aquela estratégia de modo tão bem-sucedido quanto ocorreu. Trump ainda afirmou que quaisquer autoridades venezuelanas estão sujeitas ao mesmo destino de Maduro. Ou seja, quem se opor à Washington pode ter o mesmo destino de Maduro.
O presidente americano disse ainda que a vice-presidente venezuelana havia conversado longamente com Marco Rubio, tendo aceitado todos os termos propostos pelos EUA. Segundo Trump, Delcy Rodríguez, que agiu de forma colaborativa durante a ligação, não teria outra saída. Atualmente em viagem à Rússia, a vice-presidente venezuelana divulgou uma mensagem na manhã deste sábado que contrasta amplamente com essas afirmações. Ela chegou até mesmo a convocar as milícias para pegar em armas.
Falas de Trump demonstram progressão da ação dos EUA
Antes da coletiva, na manhã deste sábado, em entrevista à Fox News, o presidente disse que ainda estava decidindo o que seria feito na Venezuela. Em um recado antecipado para as autoridades venezuelanas, ele também afirmou que, em sua última conversa telefônica com Maduro, o ditador havia se mostrado aberto a negociar, mas que os EUA já não aceitaram ir adiante.
Por sua vez, o secretário Marco Rubio afirmou que o ditador teve múltiplas oportunidades de evitar a captura e que lhe foram oferecidas “muitas ofertas generosas". “E, em vez disso, [Nicolás Maduro] escolheu agir como um selvagem e escolheu brincar", disse.
Ou seja, com suas afirmações e anúncios, Trump demonstra claramente que qualquer autoridade ligada ao regime venezuelano não tem outra saída senão colaborar com os EUA — a não ser que queira enfrentar o poderio americano. A mensagem também vale para grupos paramilitares, militares e milícias venezuelanas. O mandatário, ao falar sobre o ataque, disse que os EUA estão prontos para um segundo ataque, massivo e muito maior do que o primeiro, caso seja necessário.
Em seguida, acrescentou que não acredita que será preciso atacar o país novamente. A fala pode ser entendida como a ideia do presidente americano de que uma transição de poder pode ocorrer sem uma invasão de larga escala no país.
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Maduro teria assinado decreto para que milícias pegassem em armas
É certo que, mesmo em desvantagem, algumas forças venezuelanas possam tentar se opor aos EUA e à sua estratégia. Em sua mensagem na manhã deste sábado, a vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, afirmou que Maduro havia sido muito claro sobre os riscos de o país ser atacado pelos Estados Unidos, em razão da “voracidade energética” americana — referência à intenção de Trump de retomar controle americano de empresas que produziam petróleo no país após uma onda de estatização da ditadura de Hugo Chávez.
Segundo Delcy Rodríguez, Maduro teria deixado um decreto assinado, instando o povo a ir às ruas. “Ativadas as milícias, ativados todos os planos. Deu ordens muito claras à Força Armada Nacional Bolivariana para que, em perfeita fusão militar, popular e policial, sejam ativados todos os planos de defesa integral da nação", afirmou a vice-presidente, ao mencionar a ativação do decreto.
É possível haver transição menos traumática, dizem analistas
Apesar do tom de força adotado por Trump, na visão de Fabrício Rebelo, os próximos dias serão cruciais para entender os desdobramentos do episódio, inclusive quanto à existência de eventuais acordos entre Washington e grupos chavistas. A execução cirúrgica da operação bem como a falta de registros de que haja qualquer movimentação em resposta ao ataque dos EUA podem indicar a existência de informações e negociações não reveladas.
Leonardo Paz, da FGV, também vislumbra essa possibilidade. O pesquisador acredita que seria muito difícil que a operação ocorresse dessa forma, sem que houvesse pessoas do regime de Maduro envolvidas, sejam militares ou não, para tornar o ditador vulnerável, sendo removido do país com essa facilidade ou, ao menos, com essa velocidade. Diante desse cenário, ele afirma que é possível haver uma negociação para uma transição pacífica de poder no país.