Irã à beira do caos
Entenda a profunda insatisfação popular
Lawrence Maximus - 09/01/2026 12h51

Apesar das ondas sucessivas de protestos — em 2009, 2019, 2022 e agora em 2026 — o regime do aiatolá continua resistindo. A razão não está apenas na repressão violenta, mas na arquitetura institucional e teológica que sustenta a ditadura desde a Revolução de 1979.
O Irã não é uma simples ditadura clerical disfarçada com símbolos religiosos. O regime transformou a doutrina xiita em um sistema governamental totalitário.
Originalmente limitado a questões religiosas, o conceito foi expandido por Khomeini para justificar a autoridade política absoluta de um único jurista islâmico — hoje encarnado no cargo de Líder Supremo.
Enquanto a sociedade iraniana avança nos protestos — rejeitando cada vez mais o véu obrigatório, clamando por liberdade e reformas políticas e até saudando a monarquia pré-revolucionária —, o regime permanece até agora intacto.
O estopim imediato da onda de protestos que irrompeu no final de 2025 radica na implosão estrutural da economia iraniana. Com uma inflação oficial ultrapassando a marca de 40% e o rial atingindo níveis históricos de desvalorização — cotado a 1,45 milhão por dólar americano —, o poder de compra da população foi drasticamente corroído.
Enquanto protestos anteriores permaneceram enraizados na demanda por reformas dentro dos limites do sistema republicano-teocrático, a atual onda expressa uma rejeição ontológica à própria arquitetura do regime.
Slogans como “Morte ao Ditador” e “Javid Shah” (Longa vida ao Rei), outrora marginalizados ou silenciados pelo medo, emergem agora com força simbólica renovada, indicando não apenas o esgotamento da legitimidade clerical, mas também a busca por alternativas políticas radicais — inclusive, em certos contextos, o retorno à monarquia pré-revolucionária.
Essa radicalização é alimentada por um sentimento de desesperança acumulado desde os protestos de 2022, desencadeados pela morte de Mahsa Amini, cujas reivindicações por dignidade, liberdade corporal e justiça permaneceram sistematicamente ignoradas pelo aparato estatal.
Esse quadro interno é ainda agravado por pressões geopolíticas intensificadas. O Irã opera sob crescente isolamento diplomático e econômico, resultado tanto das sanções internacionais renovadas quanto de confrontos militares recentes — particularmente o breve, porém devastador, conflito com Israel em junho de 2025.
Tal contexto externo reduziu drasticamente a margem de manobra fiscal do governo, exacerbando a crise de governabilidade.
A pergunta que se coloca, portanto, não é se o regime pode reformar-se, mas se sua arquitetura coercitivo-teológica ainda é capaz de sustentar a ordem diante de uma ruptura moral tão profunda…
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Lawrence Maximus é cientista político, analista internacional de Israel e Oriente Médio, professor e escritor. Mestre em Ciência Política: Cooperação Internacional (ESP), Pós-Graduado em Ciência Política: Cidadania e Governação, Pós-Graduado em Antropologia da Religião e Teólogo. Formado no Programa de Complementação Acadêmica Mastership da StandWithUs Brasil: história, sociedade, cultura e geopolítica do Oriente Médio, com ênfase no conflito israelo-palestino e nas dinâmicas geopolíticas de Israel. |
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