Mega da Virada – adiar a expectativa muda tudo!
Pesquisas da Harvard Medical School mostram que o cérebro reage muito mais à antecipação do que ao resultado em si
Confesso, a decepção não veio nem pelo resultado de não ganhar na Mega da virada, veio antes, pelo adiamento do sorteio. Aquela expectativa organizada ao longo do dia, a conta mental feita, o “e se”, o corpo responde rápido a esse tipo de antecipação. O cortisol sobe, a atenção fica mais focada, o cérebro entra em modo de espera, é quase um pequeno estado de alerta. Quando o sorteio não acontece, a frustração vem. Mas no dia seguinte, algo curioso. O cortisol já não está lá da mesma forma. A excitação emocional despenca, a esperança também, e sabe qual é o curioso? A frustração também diminui.
Isso não é fraqueza emocional, é neurociência básica. A expectativa ativa sistemas de antecipação de recompensa mediados pela dopamina. Quando o evento é adiado ou não acontece, o cérebro entende que aquele estímulo perdeu valor. Não faz sentido manter o gasto energético. O organismo se ajusta rápido. Por isso a frustração intensa costuma durar menos do
que imaginamos. O corpo é econômico.
Pesquisas da Harvard Medical School mostram que o cérebro reage muito mais à antecipação do que ao resultado em si. A espera mobiliza mais emoção do que o desfecho. Quando algo não se concretiza, o sistema aprende. Na próxima vez, a ativação é menor. O cortisol não sobe do mesmo jeito porque o cérebro já tem memória daquele desfecho,e, portanto, ele poupa.
E assim, podemos utilizar uma técnica de terapia cognitiva para outras situações, a generalização:
- E qual seria o pior que poderia acontecer?
- Como você se sente em relação a isso?
Essas perguntas diminuem a ansiedade e contribuem para enfrentar uma situação de tensão.
Será que emoções mais leves não nascem justamente dessa capacidade de não sustentar expectativas infladas por muito tempo. A esperança que cai também protege. A decepção ensina limites emocionais. Talvez maturidade emocional não seja ser sempre otimista, mas saber reduzir o volume da expectativa.
Agora o ponto mais curioso. Conseguimos ser extremamente positivos com algo totalmente externo, aleatório, fora do nosso controle. Um sorteio, um número, um acaso. Mas, quando o assunto é interno, nossas competências, nossas qualidades, o que fazemos bem, a crença diminui. Duvidamos mais de nós do que de um bilhete premiado.
Estudos em psicologia cognitiva mostram que tendemos a subestimar nossas capacidades por viés de familiaridade. Aquilo que é nosso parece comum demais para ter valor. Já o externo…ah, esse ganha brilho. O cérebro se encanta com o improvável, não com o consistente.
Talvez esteja aí um ajuste simples, mas pouco praticado. Falar mais sobre o que fazemos bem. Não para convencer o mundo, mas para convencer o próprio sistema nervoso. A linguagem que escutamos molda estados emocionais. Quando verbalizamos qualidades, em voz audível, ativamos áreas pré-frontais ligadas à autoavaliação e à regulação emocional. O cérebro escuta. Literalmente.
Se somos capazes de projetar esperança em um sorteio, talvez possamos treinar o mesmo investimento emocional em quem somos. Com menos euforia, menos cortisol, menos fantasia. Mas com mais presença. Porque diferente da Mega-Sena, isso não depende do acaso. Depende da atitude falada para se ouvir e acreditar nas próprias capacidades. Uma boa meta pra 2026, né?
*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.