País que produz petróleo costuma atrair invasores

Trump já declarou que pretende usar o petróleo da Venezuela para cobrir os gastos da operação e afirmou que abrirá a exploração do produto às grandes empresas do setor

  • 07/01/2026 06h00
DOUG MILLS / POOL / AFP donald trump Presidente dos EUA, Donald Trump, discursa para a nação a partir da Sala de Recepção Diplomática da Casa Branca, em Washington, D.C.

Os Estados Unidos invadiram a Venezuela na madrugada de sexta-feira, dia 2. A operação resultou na prisão do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. Planejada com precisão cirúrgica, a ação transcorreu sem baixas entre as tropas americanas nem perdas de equipamento.

Poucas horas depois, o casal já se encontrava em Nova York, onde aguarda julgamento pelos crimes que lhes são atribuídos. Donald Trump afirmou que os Estados Unidos irão administrar a Venezuela por um período determinado, até que seja possível conduzir uma transição política considerada segura. Disse também que o país “vai consertar” a indústria petrolífera venezuelana.

Qual o verdadeiro objetivo?

Foi aí que surgiu a pergunta inevitável. O objetivo da invasão foi apenas remover um ditador do poder ou o verdadeiro interesse estava nas reservas de petróleo do país? Trump já declarou que pretende usar o petróleo para cobrir os gastos da operação e afirmou que abrirá a exploração do produto às grandes empresas petrolíferas. Fora esses pronunciamentos, não há, até o momento, nenhuma declaração oficial que permita afirmar que o petróleo tenha sido a motivação central da ação americana. Ainda assim, a dúvida se impõe e dificilmente será dissipada.

A Venezuela detém a maior reserva de petróleo do mundo, cerca de 303 bilhões de barris, algo próximo de 18% das reservas globais. O simples peso desses números ajuda a explicar por que episódios como esse costumam gerar suspeitas que vão além das versões oficiais.

O petróleo sempre cobiçado

Venezuela, Iraque, Líbia, Kuwait e Irã formam uma lista expressiva. Em comum, todos são países com produção estratégica de petróleo e, ao mesmo tempo, vulneráveis do ponto de vista militar, econômico ou institucional. Uns foram invadidos, outros sofreram intervenções diretas, ataques a instalações, mudanças forçadas de regime ou sanções devastadoras.

Fora desse grupo, poucos grandes produtores conseguiram permanecer ilesos, e não foi por acaso. Estão fora da lista justamente aqueles cujo poder dissuasório torna qualquer aventura militar cara demais ou politicamente inviável. Estados Unidos, Canadá e Noruega não escaparam por virtude moral do sistema internacional, mas por força, alianças estratégicas e posição geopolítica. O Brasil aparece nesse grupo não como potência energética consolidada, mas como produtor ainda emergente, distante dos grandes conflitos globais em torno do petróleo.

As terras raras na equação

Enquanto nossa produção não se tornar central no tabuleiro energético mundial, nossas preocupações nessa área são relativamente modestas. O risco, paradoxalmente, cresce à medida que o recurso se torna estratégico. Petróleo não é proteção. É convite. Convite à cobiça, à pressão diplomática, às sanções e, em última instância, ao uso da força.

O problema é que o Brasil possui outros bens que caminham para se tornar ainda mais vitais do que o petróleo. Um deles já está no radar das grandes potências: as terras raras. Somos o segundo maior detentor dessas reservas no mundo, atrás apenas da China. Esses minerais são indispensáveis para a indústria de alta tecnologia, a transição energética, a defesa e os sistemas de comunicação.

A água também atrai

Outro recurso sensível é a água. Já escassa em diversas regiões do planeta, ela se tornou elemento estratégico em negociações internacionais e disputas silenciosas. O Brasil concentra uma das maiores reservas de água doce do mundo, o que inevitavelmente desperta interesse externo.

Não é por acaso que, há muito tempo, a Amazônia aparece em discursos e até em mapas como “patrimônio da humanidade”. A retórica é conhecida. A floresta seria tão essencial ao equilíbrio climático do planeta que não poderia pertencer a um único país. O argumento soa nobre, mas carrega uma implicação incômoda. Se algo não pertence a ninguém, passa a ser disputado por todos.

Atributos que enfraqueceram

Nesse ponto, a lógica que historicamente nos ofereceu proteção, distância dos grandes conflitos, ausência de inimigos declarados e vocação diplomática começa a perder força. Quando recursos se tornam vitais, o discurso ambiental, humanitário ou civilizatório pode servir de verniz para interesses estratégicos muito concretos.

A experiência dos países ricos em petróleo ensina uma lição desconfortável. Soberania, no mundo real, não é um princípio absoluto. Ela resiste enquanto o custo de violá-la for maior do que o benefício. Quando essa equação se inverte, o direito internacional costuma ceder espaço ao pragmatismo das grandes potências.
Talvez ainda seja cedo para alarmismo. Mas não para ingenuidade. A história mostra que riquezas estratégicas raramente permanecem à margem por muito tempo. E quase nunca passam despercebidas. Siga pelo Instagram: @polito

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.