O aumento da busca por fé, espiritualidade e reflexões sobre propósito no fim do ano não é apenas uma percepção subjetiva.
Fé e espiritualidade no fim de ano. (Foto: Dan Kiefer | Unsplash)

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O aumento da busca por fé, espiritualidade e reflexões sobre propósito no fim e começo do ano não é apenas uma percepção subjetiva. Especialistas e dados ajudam a explicar por que dezembro costuma intensificar esse movimento junto a janeiro, especialmente no Brasil, um dos países mais religiosos do mundo.

Um levantamento da Universidade de São Paulo (USP) aponta que 83% dos brasileiros afirmam que a religião é muito importante em suas vidas, e 37% dizem frequentar templos religiosos ao menos uma vez por semana. Estudos do Pew Research Center reforçam esse cenário: 87% dos cristãos brasileiros consideram a religião “muito importante”, um dos percentuais mais altos registrados globalmente.

No Brasil, mesmo entre pessoas que se declaram sem religião, uma parcela significativa relata manter algum tipo de espiritualidade pessoal. Os dados do Censo 2022 mostram que o país segue majoritariamente cristão, com 56,7% de católicos e 26,9% de evangélicos. Pessoas sem religião representam cerca de 9,3% da população, enquanto espíritas (1,8%), religiões afro-brasileiras (1%) e outros grupos religiosos – como budistas, muçulmanos, judeus e religiões indígenas – somam aproximadamente 4%.

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Para especialistas, o fim e começo do ano funciona como um gatilho psicológico, cultural e espiritual que favorece esse tipo de busca. Segundo a psicóloga Larissa Lima, que tem pós-graduação em espiritualidade e em teologia bíblica, dezembro opera como um “marcador simbólico de tempo”, capaz de ativar processos profundos de avaliação pessoal.

“Psicologicamente, o encerramento do ano ativa processos de avaliação existencial: o que foi vivido, o que falhou, o que permaneceu. Culturalmente, é um período mais desacelerado para muitas pessoas, o que favorece a introspecção”, explica.

Esse movimento de balanço costuma vir acompanhado de revisões de metas, frustrações e tentativas de reorganização para o ano seguinte. “Para falar de metas, precisamos falar de objetivo e propósito. Por isso, é um momento propício para pensamentos mais profundos”, afirma Larissa.

Fim de ano e a busca por sentido para o recomeço

O fim do ano também concentra emoções contraditórias. Há gratidão por conquistas, mas também frustração pelo que não foi alcançado. Esperança pelo futuro, mas luto por perdas acumuladas ao longo do ano.

“Existe uma combinação de emoções ambivalentes: gratidão e frustração, esperança e luto, expectativa e ansiedade. O aumento da consciência sobre perdas, limites e finitude frequentemente impulsiona a busca por algo que transcenda o imediato”, explica Larissa.

Nesse contexto, a fé surge como uma forma de organizar essas experiências internas. Isso oferece linguagem, narrativa e sentido para emoções complexas – algo que a psicologia reconhece como fundamental para a saúde mental. Larissa cita o psiquiatra Viktor Frankl, sobrevivente do Holocausto e autor de Em busca de sentido, para explicar esse movimento.

“A vida nunca se torna insuportável pelas circunstâncias, mas apenas pela falta de sentido e propósito”, escreveu Frankl.

O Natal como narrativa de renovação

Para os cristãos, o Natal ocupa um papel central nesse processo. Mais do que uma celebração cultural, ele carrega uma narrativa teológica que dialoga diretamente com sentimentos comuns ao fim e começo do ano.

“O Natal anuncia um Deus que entra na história humana pela via da fragilidade. A encarnação escancara a nossa necessidade de alguém que supra a perfeição que não há em nós, algo que se conecta muito com as metas que não conseguimos cumprir com perfeição”, explica Larissa.

O espírito natalino é uma maneira de se conectar com a fé, com esperança de renovação.O espírito natalino é uma maneira de se conectar com a fé, com esperança de renovação. (Foto: GERMAN SUAREZ | Pexels)

Segundo ela, para a fé cristã, o nascimento de Jesus não é apenas comemorativo, mas formativo, pois sustenta processos internos de renovação da fé, especialmente em momentos de cansaço espiritual.

“Para a fé cristã, esse evento não é apenas comemorativo, mas formativo: recorda que Deus é pessoal e age em direção a um relacionamento com a humanidade”, afirmou Larissa. “Relembrar é algo que nos fortalece.”

Memória coletiva: a união de laços familiares e espírito natalino

Além da dimensão individual, a transição entre anos é marcada por rituais compartilhados, como ceias, músicas, celebrações religiosas e encontros familiares, que reforçam vínculos e o senso de pertencimento.

“Rituais compartilhados constroem memória coletiva. Eles fortalecem valores que transcendem o indivíduo, como cuidado, generosidade e continuidade, especialmente importantes em um mundo cada vez mais fragmentado e individualista”, afirma a psicóloga.

Esse aspecto ajuda a explicar por que, mesmo entre pessoas menos religiosas ao longo do ano, dezembro e janeiro costumam despertar maior abertura para práticas espirituais ou reflexões existenciais.

Espiritualidade como regulação emocional

Quando vivida de forma saudável, a fé também pode atuar como um recurso de regulação emocional. Segundo Larissa Lima, ela ajuda a reduzir a sobrecarga associada à sensação de controle absoluto sobre a própria vida. Algo comum em momentos de reflexão no fim e começo do ano.

Práticas como oração, leitura bíblica, participação em cultos comunitários e momentos de silêncio favorecem a integração emocional e a ampliação de perspectiva.

“A espiritualidade oferece esperança realista e senso de direção. Ela ajuda a deslocar o controle absoluto do indivíduo para uma confiança maior, o que reduz a ansiedade”, diz.

A experiência de encarar os próprios limites aparece de forma recorrente nesse período, inclusive na produção cultural associada ao Natal. Larissa cita a música Moldura, de Stênio Marcius, que começa reconhecendo os fracassos do ano e termina com uma mensagem de esperança.

“Para o cristão, a história não termina nos fracassos. Ela termina no reconhecimento de que somos limitados e insuficientes, mas que não precisamos parar nisso. Esse reconhecimento aponta para a esperança”, afirma.

Por que o Ano Novo reforça a ideia de propósito?

O Ano Novo carrega simbolicamente a ideia de possibilidade e recomeço. Para Larissa, a fé cristã sustenta que esse recomeço não depende apenas de força de vontade individual.

“A esperança cristã não é negação da realidade, mas confiança de que o futuro pode ser vivido com sentido, mesmo em meio a limites”, afirma Larissa. “Essa combinação dá profundidade ao desejo de recomeçar.”

Ainda assim, ela ressalta que a espiritualidade não deve ficar restrita a datas simbólicas.

“O propósito se fortalece quando há integração entre valores, escolhas e ações ao longo do ano. Existe a dimensão individual da espiritualidade, mas também a coletiva. Estar em comunidade é uma forma de pertencimento e encorajamento”, finaliza.