Vinte e três novos partidos correm contra o tempo na busca por um registro no TSE para disputar as eleições deste ano
Vinte e três novos partidos correm contra o tempo na busca por um registro no TSE para disputar as eleições deste ano (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)

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No Brasil, a democracia não vive só nas urnas — ela se espalha por cartórios, gabinetes e repartições numa multiplicação burocrática descontrolada.

O eleitor já tem à disposição 30 partidos oficialmente registrados. Mas o sistema político, sempre criativo quando o assunto é dinheiro público, mantém outros 23 projetos na fila de análise do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Se todos forem aprovados, chegaremos ao impressionante número de 53 siglas. Para comparar, os EUA funcionam com dois partidos competitivos e dominantes. O Reino Unido tem três. A Alemanha, seis.

Essa pulverização brasileira não nasce de uma explosão de ideias inéditas ou de projetos de país realmente diferentes. O que move a fila é algo bem menos edificante: sobrevivência orçamentária.

Por aqui, fundar um partido se parece mais com abrir uma franquia política do que com liderar uma revolução. O prêmio não é a transformação nacional, mas um CNPJ próprio — que dá passaporte para o Fundo Partidário, tempo no horário eleitoral e uma estrutura sustentada pelo contribuinte.

O sistema diz querer reduzir a fragmentação, mas remunera generosamente quem decide fragmentar.

Como nasce um partido (e por que quase todos morrem)

No papel, fundar um partido no Brasil não é muito mais difícil do que abrir uma microempresa. Basta reunir 101 fundadores com domicílio eleitoral espalhado por ao menos nove estados, convocar uma assembleia, aprovar um estatuto, publicar a ata no Diário Oficial e registrar em cartório.

Mas ter um CNPJ não significa disputar voto. Para lançar candidatos, acessar o Fundo Partidário e garantir tempo no rádio e na TV, é preciso o registro definitivo no TSE.

E aí começa uma prova de resistência. Em até dois anos, a legenda precisa reunir cerca de 591 mil assinaturas de eleitores que não estejam filiados a nenhum outro partido.

Esses apoios devem estar distribuídos por pelo menos nove estados. Em cada um deles, é obrigatório atingir uma quantidade mínima de fichas, proporcional ao eleitorado local, para que o total nacional seja validado.

Essa é a etapa que transforma a empolgação em realidade concreta — e elimina quase todos pelo caminho.

E ainda há o relógio. Para participar das eleições de outubro de 2026, o registro precisa estar concluído até abril deste ano.

A maioria das 23 siglas sabe que dificilmente cruzará essa linha de chegada. Ainda assim, publica programas, elege presidentes, monta executivas provisórias e tenta fazer barulho nas redes — porque, no fim, um partido pode ser vendido, incorporado ou convertido em moeda de apoio antes mesmo de receber o primeiro voto.

Mas quais são, afinal, as novas legendas que insistem em entrar no jogo? E o que exatamente prometem entregar ao eleitor para justificar mais um lugar à mesa do Orçamento? Veja a seguir.

“Já temos um partido para isso”

Partido Democrático Afro-Brasileiro: Propõe colocar a agenda racial no centro da política, com foco no combate ao racismo e no estímulo ao empreendedorismo das minorias. É a lógica da representação identitária levada às últimas consequências: cada grupo com sua própria legenda.

Partido da Segurança Privada: Representa vigilantes, bombeiros civis e outros profissionais do setor. Uma legenda que nasceu de uniforme — mas ainda tem crachá de visitante no TSE.

Partido do Autista: Defende tratamentos gratuitos, capacitação de servidores e políticas específicas de acolhimento. A dúvida é se, ao virar partido, a causa não corre o risco de falar apenas para uma parcela muito restrita do eleitorado (quando o tema já atravessa legendas, classes e regiões).

Revolução e contradição

Partido Neossocialista: Aqui não há meias palavras: a meta é superar o capitalismo, taxar grandes fortunas e nacionalizar setores estratégicos. Para ilustrar seu projeto modelo, o manifesto cita dois exemplos considerados equivalentes — os países nórdicos e a China (o que eles têm em comum, a legenda não explica).

Partido Capitalista Popular: O nome confunde, mas a legenda se diz liberal. Defende voto facultativo, redução da maioridade penal, fim do serviço militar obrigatório e a criação de um novo estado no Centro-Oeste (traduzindo: mais estrutura, mais cargos e mais máquina pública — uma ironia para quem, pelo menos em tese, promete menos Estado).

Cinquenta tons de verde

Ambientalista Animal: Tenta unir preservação ecológica com liberalismo clássico e plebiscitos frequentes. Uma combinação tão rara quanto a onça-pintada.

Meio Ambiente e Integração Socia: Inspirado nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, defende telemedicina universal, internet gratuita e erradicação da pobreza extrema. Sustentabilidade com forte presença estatal — e a certeza de que escritórios em Nova York e Genebra sabem o que é melhor para o Nordeste brasileiro.

Partido Brasileiro: Combina proteção da Amazônia, reforma tributária progressiva e forte presença do Estado. É a velha promessa de que intervenção vem acompanhada de mais prosperidade para quem paga a conta.

Direita organizada (e fragmentada)

Partido Direita Brasil: Patriotismo, valores cristãos, endurecimento penal, privatizações e legítima defesa para quem cumprir a lei. Um cardápio clássico da direita brasileira, agora na esperança de que, com CNPJ próprio, consiga fazer mais do que lives e montagens para o “zap”.

Partido Voz no Brasil: Estado mínimo, família tradicional, agronegócio forte e incentivo a famílias numerosas. Com um detalhe curioso: o programa defende a cláusula de barreira, mecanismo que elimina partidos sem voto suficiente — regra que pode testar a autoconfiança da legenda já na sua eventual estreia.

Partido Esperança: Evoca “bases indestrutíveis da família brasileira” com um vocabulário vindo direto do túnel do tempo. O nome, inevitavelmente, remete a um trauma para o conservadorismo: o slogan “A esperança venceu o medo”, da campanha vitoriosa de Lula em 2002.

Movimento Consciência Brasil: Cristão de centro-direita, mistura liberdade religiosa, combate à corrupção e desenvolvimento com justiça social. A data de fundação — 7 de setembro de 2022, quando conservadores de todo o Brasil promoveram o maior ato de apoio ao então presidente Jair Bolsonaro — não é mera coincidência.

Partido Conservador Brasileiro: Propõe colégios militares, ensino técnico reforçado e fiscalização cidadã da gestão pública. Conservador nos valores, mas disposto a criar conselhos e associações para ampliar o controle social sobre a gestão pública (com o risco de que a vigilância da máquina acabe exigindo uma máquina ainda maior).

A turma do “agora vai!”

Evolução Democrática: Fala em fortalecer a democracia, ampliar a participação popular e investir pesado em educação, ciência, saúde e economia verde. Quer tudo ao mesmo tempo e com tecnologia: é a promessa de um Brasil 2.0 para o sistema destravar.

Juntos pela República: Propõe o parlamentarismo e promete um debate nacional “sem barreiras ideológicas”. Mas não diz como pretende criar esse ambiente num país viciado em polarização.

Partido Brasil Novo (PBN): Quer liberdade econômica, revisão ampla da Constituição, reforma tributária e um capitalismo de alta tecnologia. O desafio será convencer o eleitor de que há espaço no mercado para mais uma legenda com a palavra “novo” no rótulo.

Igual: Prega corte de despesas, redução de tributos e maior autonomia a estados e municípios, com conselhos nas cidades para fiscalizar receitas. O nome aposta na ideia de igualdade, mas corre o risco de soar como mais uma sigla idêntica às outras no cardápio eleitoral brasileiro.

Consciência Democrática: Afirma que o Estado deve sair de onde atrapalha e entrar onde faz falta. A fronteira entre uma coisa e outra, claro, será definida depois.

Ação Democrática: Defende a Constituição de 1988, a participação popular e a preservação dos sistemas públicos de saúde e educação, com ênfase em jovens e mulheres na política. Um partido fundado em 2025, mas com um programa que parece ter sido lançado 37 anos antes.

“Grifes” clássicas com novos CNPJs

União Democrática Nacional (UDN): Retoma uma das siglas mais emblemáticas da política brasileira, agora com um programa que fala em justiça social, sustentabilidade, inovação e combate à corrupção. O nome pode ser histórico, mas o tom é bem mais light do que os discursos inflamados de Carlos Lacerda — principal líder da antiga UDN, também conhecido como “O Corvo” e “Destruidor de Presidentes”.

União Trabalhista Brasileira (UTB): Apresenta-se como guardiã do verdadeiro trabalhismo, com direito a Getúlio Vargas como patrono e referências constantes a Leonel Brizola. Seu manifesto é uma espécie de manual de instruções para o uso legítimo da tradição.

Partido Trabalhista Brasileiro (PTB): Busca recuperar, inclusive na Justiça, a sigla fundada por Vargas em 1945 — e que foi comandada por Roberto Jefferson durante quase duas décadas. A pergunta é se o eleitor ainda consegue ouvir esse nome sem lembrar do mensalão.

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