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Véspera de Natal, por volta de 9 horas da manhã. Calor carioca em Curitiba, vontade de tomar uma nos botecos que preguiçosamente já começavam a abrir. Céu de azul desenhado por criança, com duas nuvens pequenas idênticas.
Gosto de caminhar mirando o alto, o céu vazando pelos cantos dos prédios, o topo das árvores acarinhadas pela brisa que não se sente ao rés do chão. Passava por uma das ruas do Centro, das poucas só residenciais. As calçadas vazias, até de cachorros.
Meu olhar de repente é capturado por uma bandeira que esvoaçava de uma janela enorme, inteiramente aberta, coisa rara em Curitiba. Noto que há outra na janela vizinha, também escancarada, certamente do mesmo apartamento. Eram da Palestina e a outra colorida, símbolo do movimento que parece possuir todas as letras do alfabeto, menos a “h”.
Dois andares abaixo, outras duas janelas, com bandeiras de igual tamanho, ambas do Brasil. Sorri, imaginando. Teria havido treta em reunião de condomínio, confusão no hall, no elevador? Ou, curitibanamente, nada aconteceu, com os moradores agindo e reagindo de forma silente, resiliente e inútil?
No Natal me dou de presente livros comprados em livrarias de rua. Em Curitiba, nenhuma se compara à do Chaim
Inútil, porque do outro lado da rua estão casas antigas, térreas ou baixas, invisíveis para as bandeiras. Só quem caminha pela rua, e teima em olhar para o alto, consegue ver. E olhe lá, pois a rua tem várias árvores razoavelmente altas, repletas de folhas na maior parte do ano, como agora.
Segui em direção ao meu destino imaginando uma espécie de anti-Dalton Trevisan escrevendo um conto sobre os vizinhos. Ele costumava dizer que “o escritor é irmão de Caim e primo distante de Abel”. Tentei imaginar, então, um irmão de Abel, mas sem muito sucesso.
(Dias depois, li em uma rede social o ocorrido entre Rob Schneider e Robert de Niro na festa de 50 anos do programa de tevê Saturday Night Live. De Niro, que demonstra ter ódio visceral por Trump, confrontou Schneider: “Como você pode apoiar aquele idiota?” Schneider apenas respondeu: “Te amo. Eu realmente te amo”. De Niro ficou desarmado, espero que com vergonha. Imaginei aqueles vizinhos tendo um encontro assim. Mas aqui é Brasil, mais provável algo assim armar o outro do que o contrário: “enfia esse amor no...”. A verdade é que somos irmãos desbocados de Caim, tanto faz se escritores ou não.)
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Chegando à Catedral, meu destino, mendigos dormiam largados por todo canto da Praça Tiradentes. O cheiro de urina era forte, impregnado no ar. Era possível ver à distância que a igreja estava cheia de turistas. Lá dentro, alguns incomodados com o que viram do lado de fora. Na propaganda que a cidade faz de si por aí não se mostra isso. E tem piorado.
Fiquei diante do Santíssimo, praticamente sozinho por 15 minutos. Quase no fim, um senhor me cutuca o ombro: “Deixa eu rezar por você?” Agradeci, surpreso. Perguntou quais eram meus pedidos. Mas não havia, queria apenas agradecer. Foi a vez de ele ser surpreendido, talvez como um anti-De Niro. Rezou, rezamos. Na saída, assistentes sociais recolhiam alguns dos mendigos. Nem todos somos tão próximos de Caim.
Dali retornei passando na Livraria do Chaim. No Natal me dou de presente livros comprados em livrarias de rua. Em Curitiba, nenhuma se compara à do Chaim. Que estava lá, como sempre. Recomendou-me um que ele próprio editou, A Carteira de Meu Tio, de Joaquim Manuel de Macedo, dizendo: “Para você entender como desde sempre nossos políticos são pilantras”.
Levei este e, já que estava com Dalton na cabeça, também sua última antologia de contos e outro sobre sua persona, um “retrato falado” de Dante Mendonça. Antes de ir embora, seu Chaim me presenteou com duas paçoquinhas. Se o escritor é irmão de Caim, o livreiro é irmão de Abel.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos
