Entre tempestades e perdas, a dor encontra sentido na fé: o sofrimento não é o fim, mas passagem para esperança, restauração e recomeço. (Foto: Imagem criada utilizando OpenAI/Gazeta do Povo)

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Há 14 anos, minha mãe estava internada no quarto 700. Naquela tarde, fui até a pequena capela do hospital, ajoelhei-me diante do crucifixo e fiz uma prece sem palavras.

Ao lado da capela ficava a ala das crianças. Os pequenos pacientes, acompanhados de suas mães e pais — havia avós e irmãos também —, aguardavam sessões de quimioterapia. Nas paredes da ala infantil, vi desenhos de anjos e fadas; e uma moça baixinha, de cabelos curtos, que conversava com as crianças e sorria.

De repente, a moça se virou para mim:
— Paulo!

Então eu a reconheci.
— Ana!

Sete anos antes, Ana e eu havíamos trabalhado juntos. Numa manhã de sábado, seus dois filhos, uma menina de 10 e um menino de 7 anos, saíram para comprar balas na mercearia e foram atropelados na faixa de pedestres por um motorista que avançou o sinal vermelho.

Agora, Ana estava ali. Sorrindo. Conversando com as crianças. Confortando pais e mães. Minorando o sofrimento dos outros.

A visão de Ana foi a resposta à minha prece silenciosa e tornou meu coração mais forte para suportar a dor daquele momento. Imediatamente, lembrei-me de outra Ana, a profetisa de 84 anos que recebeu Maria e José no dia da apresentação no Templo. Dois mil anos depois, uma nova Ana acolhia as crianças no hospital.

Despedi-me afetuosamente de Ana e voltei ao quarto 700. Minha mãe dormia, sob o efeito da morfina. Ao seu lado, Rosângela fez-me um gesto de silêncio e apontou para a janela do quarto. Naquele exato momento, desabou uma tempestade.

Minha mãe morreu um dia depois dessa tempestade.

Aqui, meus sete leitores podem perguntar por que estou me lembrando dessa história justamente no último dia do ano. A explicação que lhes dou, queridos amigos, é que tenho visto muita gente angustiada, ansiosa e desesperançada com as tempestades, tanto as da vida pessoal quanto as do país e do mundo.

Acabo de ler o mais recente livro, ainda inédito, do meu amigo Rodrigo Constantino, cujo título é um conselho precioso: Não Tema a Tempestade. Nessa obra, Consta narra sua luta vitoriosa contra um câncer raro ao longo de 2025. Não bastassem as perseguições políticas que sofreu, meu amigo teve de passar por essa tempestade pessoal — e obteve êxito.

Ao ler a história de Consta, pensei nas tempestades que sempre aparecem em algum momento nas tragédias de Shakespeare. Na obra do Bardo, a tempestade não é um simples fenômeno meteorológico, mas um poderoso dispositivo dramático e simbólico que reflete momentos de caos, desordem ou sofrimento na vida dos personagens ou da sociedade.

Em Rei Lear, Macbeth, Júlio César e Otelo, a tempestade representa alguma perturbação séria na Grande Cadeia do Ser, que interliga o Céu, a Terra e o Espírito.

Ao mesmo tempo que simboliza esse trauma, essa dor lancinante, a tempestade traz em si o anúncio da mudança e da restauração da ordem desejada por Deus

Não por acaso, a última peça de Shakespeare se chama A Tempestade e fala sobre a lei do perdão.

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Vivemos um tempo de tempestades. Tempo de injustiças, escândalos e perseguições. Tempo de traições e mentiras pérfidas. Tempo de inocentes presos e bandidos impunes. Tempo de inversão ontológica da realidade. O Ano Novo, porém, nos fala da possibilidade de recomeço, de um segundo nascimento, de uma vida nova, em que o Ser seja restituído.

Depois da visão de Ana, a mãe ferida que cuidava das crianças doentes, uma amiga procurou-me durante o velório de minha mãe e disse:
— Paulo, fique tranquilo. Sua mãe está cuidando das crianças lá no Céu, junto com Nossa Senhora, os anjos e os santos.

Primeiro de janeiro é o Dia da Mãe de Deus. Comece 2026 lembrando que essa Mãe está viva, que esse Filho é a ressurreição e a vida, e que, acima da tempestade, há um Céu esperando por você.

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