Carnaval e futebol: por que o samba evita a seleção em anos de Copa do Mundo?
É uma mistura perfeita, quase inseparável. Menos em anos de Copa do Mundo
Carnaval e futebol são duas paixões nacionais que andam de mãos dadas o ano inteiro.
As torcidas se transformam em escolas de samba, os sambas-enredo celebram ídolos da bola, os estádios ganham alas carnavalescas e os jogadores frequentemente desfilam como padrinhos ou musas inspiradoras.
É uma mistura perfeita, quase inseparável. Menos em anos de Copa do Mundo.
Você já reparou nisso? No Carnaval de 2026, por exemplo — bem no meio da preparação para o Mundial —, nenhuma das 12 grandes escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro escolheu futebol ou a Seleção Brasileira como enredo principal.
O mesmo aconteceu com as principais agremiações de São Paulo. O tema simplesmente não apareceu entre os destaques.
Por que isso se repete com tanta frequência em anos de Mundial?
Os próprios sambistas, compositores e carnavalescos explicam vários motivos — e eu ouvi muitos deles ao longo de décadas cobrindo carnavais pela Jovem Pan e em outras coberturas.
A Copa do Mundo é um evento gigantesco que monopoliza a mídia, as conversas e o imaginário coletivo por meses a fio.
Um enredo sobre futebol poderia soar apenas como “mais um discurso” sobre o tema, perdendo força e originalidade no meio de tanta cobertura.
Medo de oportunismo, “modinha” ou falta de criatividade.
Há um receio grande de parecer oportunista — escolher o futebol só porque é ano de Copa, como se fosse uma tendência de última hora.
As escolas preferem enredos mais autênticos, que venham de dentro da comunidade ou de uma conexão genuína…ou até para enaltecer relações políticas.
O maior risco: envelhecer mal.
E o principal: o pavor de o enredo “envelhecer mal” caso a Seleção seja eliminada cedo ou faça uma campanha ruim.
Imagine desfilar com um samba exaltando a conquista iminente… e o Brasil cair nas oitavas ou na fase de grupos. Isso assusta — e muito — as agremiações, que investem tempo, dinheiro e emoção no projeto inteiro.
Quando o futebol aparece em carnavais “normais”, geralmente é após conquistas marcantes (como em 1994 ou 2002) ou em homenagens eternas a ídolos imortais: Pelé, Garrincha, Zico, Romário, ou até figuras como o Dr. Paulo Machado de Carvalho, o Marechal da Vitória.
Neste ano, o Rio viveu o “ano das biografias”: Rita Lee (“A Padroeira da Liberdade” na Mocidade), Carolina Maria de Jesus (na Unidos da Tijuca), Ney Matogrosso (“Camaleônico” na Imperatriz Leopoldinense), Lula (na Acadêmicos de Niterói, estreante no Especial), entre outros.
São Paulo seguiu linha parecida, com temas afro, meio ambiente, mitologia, cosmos, Chico Xavier e narrativas mais introspectivas ou ancestrais.
Futebol, em ano de Copa? Realmente ninguém quis arriscar.
É uma cautela compreensível. O samba é arte, mas também é estratégia.
E, em 2026, as escolas optaram por caminhos mais seguros e pessoais.
*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.