Carnaval, palanque e escárnio
Um país que normaliza o deboche à fé arrisca corroer os fundamentos que sustentam sua coesão social
Marisa Lobo - 16/02/2026 15h39

O que diziam ser uma “manifestação cultural” transformou-se em palco de militância ideológica político-partidaria. O desfile carnavalesco, realizado sob financiamento público, apresentou homenagem explícita ao atual presidente Lula e, simultaneamente, encenou representações ridicularizando diretamente a família cristã e os evangélicos. O resultado não foi arte provocativa — foi um espetáculo percebido por milhões como afronta.
Carnaval é expressão cultural legítima? Não! E tem sido usado como instrumento de intolerância religiosa e ideológica. O pior é quando recursos públicos financiam enredos que promovem exaltação política personalizada e caricaturizam um segmento religioso específico; nesse ponto, a discussão deixa de ser estética e passa a ser ética e institucional.
O Brasil é uma nação majoritariamente cristã. A comunidade cristã evangélica representa dezenas de milhões de cidadãos que trabalham, pagam impostos, sustentam famílias e participam ativamente da vida social. Representá-los simbolicamente como algo descartável — como lixo cultural — não é crítica sofisticada. É desumanização simbólica.
A psicologia social demonstra que quando um grupo é exposto ao escárnio público, principalmente em rede nacional, o efeito não é esclarecimento — é radicalização. A humilhação coletiva ativa mecanismos de defesa identitária, reforça a sensação de perseguição e aprofunda divisões, e digo, vai ter troco.
Some-se a isso o fato de que o evento foi financiado com dinheiro público. Quando recursos do contribuinte sustentam manifestações que promovem vergonhosamente um liderança política específica em tom eleitoral, surgem questionamentos legítimos sobre o uso indevido da máquina cultural para fins ideológicos.
Cabe às instâncias competentes cobrar implicações jurídicas. Mas, do ponto de vista social, o dano simbólico já está feito.
Há ainda um ponto mais profundo: a tentativa — percebida por muitos — de desconstruir a imagem dos evangélicos no imaginário coletivo. Transformar fé em caricatura, família em motivo de deboche e valores religiosos em objeto de escárnio não é avanço cultural. É estratégia de estigmatização.
Crítica é legítima. Zombaria sistemática não é
A família, independentemente de ideologia, é o núcleo formador da identidade psíquica. Atacá-la publicamente em um espetáculo transmitido e celebrado amplia o sentimento de desprezo institucional. E quando a população sente que sua fé está sendo tratada como algo inferior, a resposta não é silêncio — é reação.
É preciso afirmar com clareza: de Deus não há sombra nesse tipo de manifestação. O Deus que estrutura dignidade, responsabilidade e respeito não se associa ao escárnio coletivo. O que se viu foi arrogância cultural, não elevação moral.
Transformaram o carnaval; como sempre fazem; em instrumento de provocação religiosa e exaltação política, um gesto imprudente, inconcebível. Fragilizaram ainda mais a democracia. O carnaval escolhe sempre humilhar milhões de famílias, e isso tem sido ferramenta de divisão.
Um país que normaliza o deboche à fé arrisca corroer os próprios fundamentos que sustentam sua coesão social.
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Marisa Lobo atua como psicóloga e psicanalista, é pós-graduada em Psicanálise; Gestão e Mediação de Conflitos; Educação de Gênero e Sexualidade; Filosofia de Direitos Humanos e Saúde Mental; tem também habilitação para magistério superior. |
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