Como o escândalo do Master abalou a República
Relação de Daniel Vorcaro com setores do Executivo e do Judiciário deixam Brasília sob tensão

O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), foi afastado da relatoria do inquérito sobre as fraudes no Banco Master. Isso ocorreu depois de a Polícia Federal (PF) identificar, no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, trocas de mensagens que citavam o magistrado. Como resultado, a investigação acabou redistribuída ao ministro André Mendonça, que começou a receber detalhes técnicos da investigação da PF em reunião com delegados nesta sexta-feira, 13.
O STF alegou que Toffoli não tinha impedimento legal para seguir no caso, mas a repercussão do escândalo, com acusações de proximidade a figuras ligadas ao banco, tornou a permanência insustentável.
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Sob a nova relatoria de Mendonça, a PF apresentou ao STF um quadro mais detalhado das apurações sobre fraudes financeiras, emissão de títulos sem lastro e movimentações suspeitas no banco controlado por Daniel Vorcaro. A PF quer aprofundar as linhas de apuração, inclusive sobre relações políticas e financeiras que cercaram as operações do Master.
No começo de fevereiro, o Senado instalou uma comissão especial no âmbito da Senado Federal para acompanhar a crise, presidida por Renan Calheiros. A crise ganhou contornos públicos em novembro de 2025, quando o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master por violações graves às regras financeiras, principalmente pela emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com juros extraordinariamente altos e sem lastro econômico confiável.
Naquele mesmo mês, Vorcaro acabou detido pela Polícia Federal no Aeroporto de Guarulhos, ao tentar embarcar para o exterior pouco depois que o banco foi impedido de vender carteiras fictícias de crédito a outra instituição pública, o Banco de Brasília.
A crise no Banco Master
O escândalo tem origem na expansão agressiva do banco pós-2018, quando carteiras de crédito passaram de R$ 1,4 bilhão para mais de R$ 40 bilhões em poucos anos com produtos financeiros que prometiam rendimentos acima do mercado. A estratégia levou a uma crise de liquidez e, segundo investigações da PF e do Banco Central, pode ter envolvido manipulação contábil e criação de ativos sem lastro.
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A Operação Compliance Zero, deflagrada em novembro de 2025 e com fases sucessivas em dezembro e janeiro, tornou-se a principal linha de investigação para apurar gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro e organização criminosa em torno da instituição.
O caso transbordou da esfera financeira para a política nacional. Reportagens revelaram que:
- O escritório de advocacia da mulher do ministro Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, recebeu cerca de R$ 130 milhões em consultoria do Banco Master, fato que alimentou críticas sobre possíveis conflitos de interesse;
- O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu com Vorcaro no Palácio do Planalto em dezembro de 2024 — encontro fora da agenda oficial, que adversários políticos dizem ter fragilizado o governo; e
- Figuras ligadas ao governo, como o ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski e o ex-ministro Guido Mantega, foram apontados por terem contratos ou relacionamentos com o banco antes da crise explodir.
Os números do escândalo
Quando foi liquidado, o Master tinha menos de 1% dos ativos do sistema financeiro brasileiro. Contudo, sua queda provocou um efeito de contágio importante. O Fundo Garantidor de Créditos foi acionado para ressarcir mais de 800 mil investidores, com estimativas de desembolso que podem superar R$ 40 bilhões — o maior valor pago na história do fundo.
O escândalo do Master se tornou um nó político porque reuniu:
- Acusações de fraudes bilionárias;
- Investigações da Polícia Federal;
- Liquidação ordenada pelo Banco Central;
- Pressões sobre o Supremo;
- Manobras no Congresso; e
- Ligação com nomes do Executivo.
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