Mural da Direita

Confessa que matou, mas é suspeito? Não é culpado, não? Por quê?

24/02/2026 13:18 Pleno.News

Confessa que matou, mas é suspeito? Não é culpado, não? Por quê?

A língua portuguesa, veja só, é muito mais prudente do que nós

Verônica Bareicha - 24/02/2026 10h18

(Imagem ilustrativa) Foto: IA\Chat GPT

Escrevo este texto a pedidos. E já começo confessando: ele me deixa desconfortável. Muito. Porque sou a pessoa do português e hoje darei um passeio pelo juridiquês… aquele idioma que circula por processos, tribunais e afins.

Me pediram ajuda porque, vira e mexe, os leitores ficam com dúvidas sobre quem é o culpado, quem é o suspeito, ou por que o fulano ainda não foi condenado quando um crime é noticiado.

O que acontece é que o jornalismo informa com palavras técnicas: suspeito, investigado, suposto. Tudo muito cuidadoso. Muito contido.

Mas aí o sujeito confessa. Pronto.

A palavra “suspeito” some. Entra em cena o “culpado”, o “monstro”, o “já devia estar preso há anos”, até o “olho por olho, dente por dente”. Isso na nossa conversa, na nossa percepção. Na internet, então, vira tribunal com sessão permanente: juiz de perfil anônimo, promotor com foto de cachorro e sentença em caixa alta. Sempre.

Eu mesma já pensei: “Ué, confessou. O que mais precisa?”

Mas é aí que mora o perigo. Porque a língua portuguesa, veja só, é muito mais prudente do que nós.

Então anote aí:
— Suspeito é aquele que desperta suspeita, de quem se desconfia; é o indivíduo tido como possível autor de um crime.
— Confessar é admitir. É um ato de fala.
— Condenar é declarar culpa de forma definitiva.

E fique esperto: confessar e condenar não são sinônimos. Está bem?

Somado a tudo isso, você já deve ter ouvido aquela máxima: “Todos são inocentes até que se prove o contrário”, certo?

Ela não nasceu em conversa de boteco. Foi escrita lá, em 1789, na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão: “Todo acusado é considerado inocente até ser declarado culpado”. E atravessou séculos porque a humanidade aprendeu, do jeito mais doloroso possível, que a pressa para condenar cobra um preço alto.

No nosso país, a Constituição diz, no artigo 5º, que ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória.

Traduzindo para a vida real: até que a decisão seja definitiva. Até que não caiba mais recurso. Que passe por todos os tribunais possíveis. Ponto.

Então, o suspeito que confessou, juridicamente, até ser condenado, ainda percorre etapas. E há outros termos no caminho — indiciado, denunciado, acusado, réu — que não cabem a mim destrinchar nesta humilde coluna.

Mas acho que já deu para entender, não?

Eu sei. Dá uma irritaçãozinha… ai! Parece excesso de formalidade. Parece que estamos enrolando para chegar ao que já sabemos.

Mas pense comigo: se bastasse uma confissão para condenar alguém, estaríamos tranquilos? Confissões podem ser emocionais, precipitadas, pressionadas. Podem até ser verdadeiras; mas é preciso prova. E ainda assim, a Justiça erra.

Talvez por isso ela vá devagar. Porque, lembra? A pressa é inimiga da perfeição. E, sinceramente, já erramos o suficiente sem correr.

Um abraço e até a próxima!

Ah, em tempo… se tiver dúvidas sobre português, mande. A gente sempre dá um jeito de ajudar.

Verônica Bareicha ama palavras e letrinhas desde sempre. Há vinte e tantos anos atua como revisora, redatora e ghostwriter. É pós-graduanda em Jornalismo Digital pela FAAP; pós-graduada em Mercado Editorial pela PUC-Rio e graduada em Letras, pelo Unasp-EC. Deseja neste espaço compartilhar o amor e dicas da língua portuguesa de forma leve, bem-humorada e divertida.

* Este texto reflete a opinião do autor e não, necessariamente, a do Pleno.News.
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