Lançado há quase 100 anos, filme "Metropolis" tentou prever o futuro como seria o mundo em 2026.
Lançado há quase 100 anos, filme "Metropolis" tentou prever o futuro como seria o mundo em 2026. (Foto: Reprodução/Domínio Público)

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Há quase 100 anos, um filme tentou antecipar como seria a vida em 2026. Metrópolis, do diretor austríaco Fritz Lang, nasceu de um romance da esposa do cineasta, a alemã Thea von Harbou. O longa-metragem mais caro já realizado até então, a obra do casal foi considerada controversa e acabou fracassando nas bilheterias.

Com o tempo, Metrópolis ganhou o status de clássico do cinema e é considerado uma das principais peças do movimento que ficou conhecido como Expressionismo Alemão. E um século após a sua criação, o filme aparece como um alerta disfarçado de ficção.

O impacto da obra do cinema mudo não está em “acertar” detalhes da atualidade. Não há, por exemplo, smartphones nem internet no enredo da distopia. A genialidade do casal reside em mapear, ao longo do filme lançado nos cinemas em 1927, o que pode ser descrito como uma engenharia de dominação.  

O longa-metragem fez uma série de advertências sobre temas absolutamente contemporâneos. Metrópolis discute em duas horas e meia de duração questões como controle, manipulação, mecanização do trabalho e inteligência artificial.

O enredo de Metrópolis

O filme se passa em uma cidade futurista dividida entre duas classes. Na superfície, a elite vive em luxo. No subsolo, operários trabalham exaustivamente.  

Nesse cenário, Freder (Gustav Fröhlich), filho de Joh Fredersen (Alfred Abel), o poderoso líder da cidade, descobre a realidade dos trabalhadores ao se apaixonar por Maria (Brigitte Helm), uma figura carismática que prega a conciliação entre as classes. 

O conflito se intensifica quando o cientista Rotwang (Rudolf Klein-Rogge) cria uma  androide com a aparência de Maria para incitar a revolta dos operários. Enquanto a falsa Maria promove a desordem, a verdadeira Maria e Freder tentam evitar a destruição da cidade.  

A “profecia” sobre o controle das massas

O filme acerta ao mostrar que a dominação moderna não se faz apenas com cercas. A estratégia de Fredersen de usar um robô com a aparência de uma líder confiável para manipular e semear o caos é o rascunho exato das campanhas de desinformação atuais. 

Em 2026, o controle não emana de uma torre física, como em Metrópolis. São os algoritmos que monitoram o “crédito social” e moldam o comportamento das massas através de telas. A manipulação da verdade para manter o status quo é, talvez, a previsão mais assustadora de Harbou e Lang.

Os acertos sobre comunicação, arquitetura e controle

Muito antes do telefone celular, do Skype ou Zoom, Lang previu a comunicação instantânea por vídeo. O filme mostra Joh Fredersen em seu escritório operando um aparelho fixado na parede com uma tela circular e um fone de ouvido. Ele gira botões para sintonizar a imagem e falar com seus subordinados em tempo real. 

Antes do telefone celular, Lang previu em Metropolis a comunicação instantânea por vídeo.Antes do telefone celular, Lang previu em Metrópolis a comunicação instantânea por vídeo. (Foto: Divulgação)

A arquitetura de Metrópolis é composta por desfiladeiros de prédios onde aviões e carros circulam entre as janelas dos escritórios em passarelas que cortam o céu. Embora ainda não existam carros voadores, o filme acerta ao sugerir a construção de megalópoles hiperconectadas.

Hoje, com o desenvolvimento de drones de entrega e táxis aéreos (eVTOLs) previstos para os próximos anos, a rua deve deixar o chão e passar para o espaço aéreo entre os edifícios. 

O escritório do vilão tem luzes, botões e indicadores. É um centro de comando que centraliza toda a cidade em um único lugar. Exatamente como os centros de comando digitais de hoje. 

O escritório do vilão de Metropolis tem luzes, botões e indicadores para comandar as pessoas.O escritório do vilão de Metropolis tem luzes, botões e indicadores para comandar as pessoas. (Foto: Reprodução/Domínio Público)

A mecanização do trabalho, mais um acerto de Metrópolis

Harbou também descreveu com precisão o sentimento de que o homem deixaria de ser o mestre da ferramenta para ser um apêndice descartável dela. No filme, os operários se movem como peças de um relógio, sem individualidade.  

Hoje, os tempos são de trabalho informal e instável graças à tecnologia: do entregador de aplicativo ao analista de dados, o ritmo é ditado pela “eficiência do sistema”. O conservadorismo clássico sempre defendeu que o trabalho deve elevar a alma e Metrópolis previu o momento em que o trabalho se tornaria apenas uma engrenagem desconectada de qualquer propósito.

A hiper-industrialização não se confirmou

A hiper-industrialização imaginada em Metrópolis refletia o horizonte tecnológico dos anos 1920: fábricas monumentais, engrenagens gigantescas e trabalho físico extremo. Era uma distopia moldada pela lógica da linha de montagem e pela memória da Revolução Industrial. 

Em 2026, esse cenário não se confirmou da forma prevista. O controle não depende mais de alavancas colossais nem de turnos extenuantes. A eficiência e a dominação operam em algoritmos, bancos de dados e plataformas digitais.  

O ser humano não é mais esmagado pela máquina. Hoje, os trabalhadores estão sendo, progressivamente, substituídos por automações, métricas e sistemas que decidem o futuro da vida cotidiana.

Metrópolis errou ao sugerir conciliação

Ao sugerir que o conflito estrutural entre capital e trabalho poderia ser resolvido por um gesto de conciliação, Metrópolis apostou numa saída que hoje soa ingênua. Era uma solução coerente com o espírito reformista da época.

Em 2026, o abismo se tornou ainda mais difuso. A elite tecnocrata não se apresenta mais como um patrão visível. As decisões são tomadas por sistemas automatizados, acionistas e plataformas globais. O conflito é informacional, político e cultural.

Como toda grande obra artística, Metrópolis comporta múltiplas interpretações. Mas uma lição é clara: sem um retorno aos valores fundamentais que colocam o ser humano acima da métrica de produtividade, corremos o risco de nos tornarmos os operários anônimos a serviço da tecnologia.

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