Dois caixões pequenos e uma horda de abutres digitais
Meu coração está com essa mãe; com o silêncio da casa, com os brinquedos que não serão tocados, com a ausência que não se resolve
Juliana Moreira Leite - 16/02/2026 14h10

Uma mãe teve dois filhos assassinados por um doente mental. Dois filhos. Assassinados. E a turba digital resolveu abrir uma assembleia para discutir se ela traiu, se já estava separada, se “provocou” o próprio destino. Como se a fidelidade conjugal fosse escudo antibalas. Como se a vida íntima de uma mulher fosse atenuante ou agravante para a morte de duas crianças. Nada disso vem ao caso. Uma mãe enterrou dois filhos. O resto é sadismo disfarçado de opinião.
E então aparecem os coaches de boné e barba de barango, os paquitos de Vorcaro, cheios de certezas plastificadas e frases prontas, distribuindo sermão como quem vende milagre em PDF. Abutres. Farejam tragédia e pousam com a autoridade de quem nunca carregou dor nenhuma além do próprio ego. A internet deu megafone a esses falsos moralistas — homens que confundem algoritmo com caráter e curtida com virtude. Transformam luto em palco e a desgraça alheia em conteúdo.
Eu não quero saber da vida amorosa dela. Quero saber como alguém sobrevive depois de dois caixões pequenos. Meu coração está com essa mãe. Com o silêncio da casa, com os brinquedos que não serão tocados, com a ausência que não se resolve em thread. O resto é covardia mascarada de moral. E a covardia, diante de uma mãe devastada, é simplesmente obscena.
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Juliana Moreira Leite é jornalista especialista em cultura, escritora e curiosa. Nesse espaço vai falar sobre assuntos da atualidades sob a sua visão. |














