“É tudo herege… tudo pagão…”
É importante saber que nossas palavras têm poder e efeito sobre quem nos ouve; e que é são pessoas feitas à imagem de Deus
Luiz Sayão - 11/02/2026 09h31

Já faz algum tempo. Alguns anos. Naquela manhã, no interior de São Paulo, eu estava num congresso teológico. Era um clima de academia, erudição e teologia profunda. Óculos de lentes grossas e olhares concentrados marcavam o evento de gente estudiosa. O ar de “nerds da fé” estava muito presente. Eu iria dar uma palestra.
Mas, naquele dia, passei a ouvir a preleção da manhã. Num tom incisivo e quase que apologético, o preletor tido como bastante tolerante fez uma afirmação muito forte e inesperada: “Os neopentecostais são hereges, são de fato pagãos”.
É claro que o forte do movimento não é doutrina nem teologia, mas há outros elementos nesse cenário.
A coisa azedou.
Logo no fim da palestra, saí meio que rapidamente do salão. Ouvi um burburinho, um sinal de problema. Havia um grupo de pessoas num canto, com sinais de desconforto e aborrecimento. Então alguém me disse: “Acho que ‘deu ruim’ aqui”.
Preocupado, eu me aproximei e logo vi as lágrimas de uma mulher do grupo. Quis saber mais e logo a verdade veio à tona. Era um grupo neopentecostal que estava num congresso teológico pela primeira vez. Eles me pediram ajuda. Falaram que me conheciam.
Então, eles abriram o coração: “A gente tem pouco estudo, a gente não sabe teologia, por isso é que viemos aqui pra aprender. Mas, ouvir o que ouvimos foi demais. Vamos embora”.
Senti fundo a dor e entendi a situação. Eu conheço de perto esse cenário. Essas pessoas receberam o Evangelho nesse ambiente menos amadurecido teologicamente, mas são sérios e sinceros. Chorei com eles. Eu entendi perfeitamente. Conversei e pedi que ficassem. Abracei os “irmãos do fogo” e pedi pra orar com eles. Que desafio pra mim. Na oração, a coisa “foi mais forte e intensa” pra um “teólogo histórico”. Mas, eu fiquei bem feliz.
Foi um bálsamo ver aquela gente de grande coração ter o semblante aliviado e o olhar suave. Eles voltaram para o congresso e aproveitaram os ensinos ministrados.
Como é importante entender que nossas palavras têm poder e efeito e saber que quem nos ouve não é “estrutura abstrata”; é gente, feita à imagem de Deus, que precisa ser olhada nos olhos, abraçada e ensinada com as palavras de Deus e com o coração do Senhor.
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Luiz Sayão é hebraísta, teólogo, linguista, tradutor bíblico e pastor da Igreja Batista Nações Unidas. |














