Essa história de “passar pano”
A expressão não aparece na Bíblia, mas é usada com o sentido de acobertar ou minimizar o erro
Luiz Sayão - 16/02/2026 09h47

Eu já ouvi várias vezes que “passar pano” é complicado. A expressão não aparece na Bíblia, mas é usada com o sentido de acobertar ou minimizar o erro.
Preciso confessar que, em minha jornada de fé, por vezes fiquei em crise com o próprio Jesus, desconfiando que ele “gostava de passar pano” pra muita gente errada. Fiquei pensando na história de Zaqueu. Era um cobrador de impostos corrupto, traidor do próprio povo. Jesus foi “bonzinho demais” e até almoça na casa dele. Até vi que ele se arrependeu. Mas tinha que responder pelo que fez pras autoridades, pedir perdão pra todo mundo e entregar os parceiros, denunciando os outros. Achei que Jesus “passou pano”.
E a samaritana? Se fosse boa gente, não estava naquela situação. Cinco homens viveram com ela. Será que eram todos errados? Ela só podia ser problema! Pegou leve demais. E ela fazia parte da seita que negava a Palavra de Deus. Não dá. Jesus “passou pano”.
Por isso, o comentário da época: “Este homem recebe pecadores e come com eles” (Lucas 15:2). Jesus podia ser mais “sábio” e evitar a situação.
E a mulher adúltera então? Ela foi pega no ato. Lei é lei. Querer comparar com os erros dos outros? Foi demais! Fiquei chocado. Até com os discípulos era assim. Também eram do grupo dele. Tinha que “passar pano”.
Foi assim com o traidor Pedro, que Jesus “limpou a barra” (Jo 21). Também com Tiago e João (Mc 10:35) que queriam ter o poder total, e até com o pior incrédulo, um tal de Tomé (Jo 20). Esse tinha que ser posto pra fora. Haja pano!
Com tantos erros daquela gente comecei a pensar nos meus. Então, me veio uma vontade má: posso pegar “o pano de Jesus” e passar em mim. Vai ficar tudo certo. Se Ele era tão “de boa” iria ser perfeito. Pensei em achar um pano feito de vestes sacerdotais. Seria mais poderoso.
Peguei o pano de Jesus. Mas, quando vi, estava ensopado: pingava sangue. Todo ensanguentado. Aí, entendi tudo. Nas minhas mãos estavam “trapos imundos” (Is 64:6) que sempre passei em mim mesmo. Então, o pano ensanguentado foi passado sobre mim. Chorei muito. Fui perdoado.
Entendi tudo. Nunca mais duvidei de Jesus. Deixei de pegar pesado com os outros. Só sonhava em ver o pano do Salvador passar na vida de mais um.
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Luiz Sayão é hebraísta, teólogo, linguista, tradutor bíblico e pastor da Igreja Batista Nações Unidas. |














