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Medicamentos criados originalmente para tratar o diabetes tipo 2 e a obesidade vêm mostrando benefícios que vão além do controle do açúcar no sangue e da perda de peso. Novas pesquisas científicas mostram que remédios como a tirzepatida e a semaglutida também ajudam a proteger o coração, reduzindo o risco de infarto, AVC e morte cardiovascular em pessoas com maior risco metabólico.
Essas medicações atuam em hormônios ligados à saciedade, ao metabolismo e à inflamação, o que reflete diretamente na saúde dos vasos sanguíneos e do sistema cardiovascular.
A doença cardiovascular segue como a principal causa de morte entre pessoas com diabetes tipo 2 e obesidade. Por isso, foram realizados estudos clínicos para investigar se essas medicações seriam capazes de atuar diretamente sobre o coração e os vasos sanguíneos, e não apenas de forma indireta, como pelo emagrecimento.
Os resultados mais recentes reforçam que essa proteção existe e ocorre de maneira consistente.
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Estudo com tirzepatida confirma benefício cardiovascular
Os dados mais recentes sobre a tirzepatida vêm do estudo internacional SURPASS-CVOT, que acompanhou mais de 13 mil pacientes com diabetes tipo 2 e doença cardiovascular aterosclerótica estabelecida, como histórico de infarto, AVC ou doença arterial periférica.
Os participantes foram aleatoriamente divididos em grupos para receber tirzepatida ou dulaglutida, uma medicação da mesma classe que já possuía benefício cardiovascular comprovado.
O estudo mostrou que a tirzepatida foi não inferior à dulaglutida na prevenção de eventos cardiovasculares maiores, como morte cardiovascular, infarto do miocárdio e AVC. Esses problemas ocorreram em 12,2% dos pacientes do grupo da tirzepatida, contra 13,1% no grupo da dulaglutida.
Além de atingir o principal objetivo do estudo, no quesito de segurança cardiovascular, a tirzepatida apresentou resultados adicionais relevantes. Houve uma redução de 16% na mortalidade por todas as causas – além de maior perda de peso, melhor controle glicêmico e benefícios renais em comparação com a dulaglutida.
Para a médica endocrinologista e pesquisadora Denise Franco, que participou do estudo promovido pela Eli Lilly no Brasil, o desenho da pesquisa torna os achados especialmente robustos. “A tirzepatida foi comparada com uma medicação ativa que já tinha benefício cardiovascular comprovado. Isso torna os resultados ainda mais relevantes, porque não se trata de uma comparação com placebo”, explica.
Segundo a médica, os efeitos protetores observados não podem ser explicados apenas pela perda de peso. “Logo nas primeiras semanas do estudo, quando ainda não havia uma redução expressiva de peso, já se observava melhora em marcadores inflamatórios e cardiovasculares. Isso mostra que existe um efeito metabólico e vascular direto dessas medicações”, afirma.
Proteção do coração vai além do emagrecimento
Embora a perda de peso seja um dos efeitos mais conhecidos da tirzepatida e da semaglutida, os estudos mostram que o impacto cardiovascular ocorre também por outros mecanismos, como melhora da função do endotélio – a camada interna dos vasos sanguíneos –, redução da inflamação sistêmica e controle mais eficiente da glicemia e da pressão arterial.
No estudo SURPASS-CVOT, a perda média de peso foi de cerca de 12 kg no grupo da tirzepatida, contra aproximadamente 5 kg no grupo da dulaglutida. Ainda assim, os pesquisadores observaram que os benefícios cardiovasculares começaram antes que essa diferença se consolidasse.
“Isso reforça a ideia de que não é apenas o peso que explica a proteção do coração”, afirma Denise. “Essas medicações atuam no processo inflamatório, no metabolismo e na saúde dos vasos, o que é fundamental para pacientes que já têm risco cardiovascular elevado.”
Semaglutida também apresenta evidências de proteção ao coração
No caso da semaglutida, os dados de proteção cardiovascular são sustentados por uma série de estudos clínicos de grande porte. O principal deles é o estudo SELECT, que acompanhou mais de 17 mil adultos com sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular estabelecida, mas sem diabetes, por um período médio de cinco anos.
Os resultados mostraram que o uso de semaglutida na dose de 2,4 mg reduziu em 20% o risco de eventos cardiovasculares graves, como infarto, AVC e morte cardiovascular. O estudo também apontou uma redução de 19% na mortalidade por todas as causas.
Outras pesquisas reforçam esses dados em pacientes com diabetes tipo 2. O estudo SUSTAIN-6, por exemplo, demonstrou redução de 26% nos eventos cardiovasculares maiores.
De acordo com Marília Fonseca, diretora médica da Novo Nordisk, os resultados mostram que a proteção do coração ocorre de forma relativamente precoce. “Os estudos indicam que o benefício cardiovascular aparece antes mesmo de uma perda de peso mais expressiva, o que sugere mecanismos diretos, como a redução da inflamação sistêmica e a melhora da função vascular”, afirma.
Não há comparação direta entre as duas medicações
Apesar dos resultados positivos observados tanto com a tirzepatida quanto com a semaglutida, as especialistas consultadas pela Gazeta do Povo reforçam que não existem estudos clínicos que comparem diretamente as duas medicações entre si sobre problemas cardiovasculares.
“Não temos um estudo ‘cabeça a cabeça’ entre tirzepatida e semaglutida para risco cardiovascular”, explica Denise. “Cada uma foi estudada em populações diferentes e com desenhos distintos. Por isso, não é possível afirmar que uma seja superior à outra com base em evidência científica.”
Marília concorda e destaca que o ponto central é o avanço da classe terapêutica como um todo. “O que a ciência já mostra com clareza é que tratar obesidade e diabetes com essas medicações reduz fatores diretamente ligados ao infarto e ao AVC. São terapias modernas que ampliam a proteção cardiovascular dos pacientes”, diz.
Quem mais se beneficia dessas terapias?
Os estudos mostram que os maiores benefícios cardiovasculares são observados em pacientes com alto risco, como pessoas com diabetes tipo 2 de longa duração, obesidade, histórico de infarto, AVC ou outras formas de doença cardiovascular.
Além da proteção do coração, essas medicações também demonstraram benefícios adicionais, tais quais:
melhora da função renal, redução da progressão de doença renal crônica e impacto positivo em condições associadas à obesidade, como apneia do sono e doença hepática gordurosa.
- melhora da função renal;
- redução da progressão de doença renal crônica;
- impacto positivo em condições associadas à obesidade, como apneia do sono e doença hepática gordurosa.
Segundo Denise, esse conjunto de efeitos amplia o potencial dessas terapias. “Hoje, não estamos falando apenas de controle glicêmico ou perda de peso, mas de redução de múltiplos fatores de risco que afetam diretamente a longevidade e a qualidade de vida.”
Uso exige prescrição e acompanhamento médico
Apesar dos resultados promissores, especialistas reforçam que tanto a tirzepatida quanto a semaglutida devem ser usadas exclusivamente com prescrição médica. Entre as principais contraindicações estão o histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide, a síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 e quadros graves de gastroparesia.

Os efeitos adversos mais comuns são gastrointestinais, como náusea, vômito e diarreia, que geralmente duram poucos dias ou semanas e são facilmente controlados com ajuste gradual das doses.
Para Marília, os dados mais recentes consolidam uma mudança no tratamento de doenças metabólicas. “Hoje, quando falamos em semaglutida, falamos também em proteção cardiovascular e em envelhecer com mais saúde. Não é apenas sobre emagrecer ou baixar a glicemia, mas sobre reduzir o risco das doenças que mais matam”, afirma.