ET de Varginha carimba passaporte e bate à porta do Congresso dos EUA
O evento ocorrerá no National Press Club, espaço tradicionalmente associado a pronunciamentos oficiais e a debates relevantes
Faz 30 anos que surgiu a notícia do aparecimento de um suposto extraterrestre em Varginha (MG). Desde então, ufologistas recorrem ao episódio como um dos pilares de sua tese de que seres de outros planetas visitam a Terra. Não é difícil imaginar o tamanho do desafio: convencer o público de algo que, para a maioria, pertence mais ao campo do imaginário do que ao da evidência. A pergunta insiste: onde estão as provas?
Aproveitando o simbolismo das três décadas do episódio, os organizadores do movimento encontraram uma forma engenhosa de reposicionar o debate. No dia 20 de janeiro, está prevista uma coletiva de imprensa em Washington para discutir o caso. Não se trata apenas de falar novamente do ET de Varginha, mas de revestir o tema com traços de respeitabilidade capazes de reduzir resistências iniciais.
A comunicação persuasiva
Nada ali parece casual. O evento ocorrerá no National Press Club, espaço tradicionalmente associado a pronunciamentos oficiais e a debates relevantes. O organizador é o documentarista James Fox, figura conhecida no meio ufológico. Esses dois elementos, local e mediador, funcionam como selos simbólicos de credibilidade. Antes mesmo de qualquer argumento, o cenário já sugere seriedade.
A comunicação persuasiva ensina que, quando os argumentos centrais são frágeis ou controversos, a estratégia costuma ser reforçá-los por acumulação. Não se apresenta uma prova decisiva; apresentam-se várias peças simultaneamente. É o efeito do aluvião. Por isso, além de relatos antigos, o evento reúne o depoimento de um neurocirurgião brasileiro e de três jovens que afirmam ter visto a criatura: Liliane Silva, Kátia Xavier e Valquíria Silva. O título profissional, somado à multiplicidade de testemunhos, busca compensar a ausência de comprovação objetiva.
Detalhes que se transformam em argumentos
O roteiro segue com a evocação de fatos que emprestam gravidade ao episódio: a mobilização do Corpo de Bombeiros, a atuação da polícia, o isolamento da área. Soma-se a isso a morte do policial Marco Eli Chereze, que participou das investigações e faleceu dias depois, supostamente em decorrência de uma infecção causada pelo contato com o ser. Mesmo sem provas conclusivas, a simples menção cria um campo emocional difícil de ignorar.
Outro ponto revelador aparece na intenção declarada de pressionar o Congresso dos Estados Unidos para que avalie as “provas” apresentadas. Aqui, a linguagem opera um deslizamento sutil. Pressionar não é participar. O Congresso surge como alvo simbólico da ação, não como ator confirmado. Ainda assim, para o leitor apressado, e quase sempre é dessa forma que se lê, a associação pode sugerir envolvimento institucional, como se parlamentares já estivessem no centro da discussão.
A ciência explica
Esse tipo de construção narrativa encontra respaldo em estudos consolidados sobre crença e racionalização. O historiador americano da ciência Michael Shermer, em Cérebro e crença, observa que “pessoas inteligentes acreditam em coisas estranhas porque têm mais talento para racionalizar suas crenças por motivos nada inteligentes”. A inteligência, nesse caso, não funciona como antídoto contra o erro, mas como instrumento de defesa da própria convicção.
Por necessidade de proteção intelectual, o indivíduo passa a buscar argumentos que reforcem sua tese, ainda que frágeis ou improváveis. Não se trata de avaliar evidências de forma neutra, mas de preservar uma narrativa que já foi aceita internamente. A comunicação eficaz explora exatamente esse ponto: oferece elementos suficientes para que cada pessoa construa, sozinha, a justificativa de que precisa para continuar acreditando.
Um debate curioso
Independentemente de se acreditar ou não no ET de Varginha, a organização do evento oferece um estudo claro de como a comunicação pode moldar percepções mesmo em temas altamente controversos. O cuidado com o cenário, a escolha das vozes, a construção narrativa e o uso calculado da ambiguidade mostram que, mesmo diante da incredulidade, a forma pode preceder o conteúdo.
Os pronunciamentos serão cuidadosamente preparados. As respostas às perguntas da imprensa, previsíveis. O objetivo não é encerrar o debate, mas mantê-lo vivo, ampliar a adesão e deslocar, pouco a pouco, o tema do campo do improvável para o da dúvida razoável.
Não é sobre extraterrestres. É sobre como a linguagem, quando bem usada, consegue abrir espaço até para aquilo que parecia impossível de ser levado a sério. A questão não é se existe vida fora da Terra, mas em que momento passamos a levar a sério qualquer narrativa quando ela vem embalada com os símbolos certos.
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*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.