Fictor usou mansão para atrair petistas e tentar sabotar CPMI do INSS
Local abrigou encontro com ministros de Lula e articulação para desmoralizar testemunha de fraude no órgão previdenciário

Investigada pela Polícia Federal (PF) e afundada em dívidas que somam R$ 4 bilhões, a empresa de investimentos Fictor alugou uma mansão no Lago Sul, em Brasília, que passou a ser usada como reduto político. O jornal O Estado de S. Paulo divulgou as informações nesta terça-feira, 10.
O local serviu de cenário tanto para encontros com membros do governo Lula quanto para uma reunião com objetivo de fabricar um dossiê contra o advogado Eli Cohen, testemunha da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
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Antes de ganhar notoriedade ao anunciar, em novembro de 2025, a tentativa de compra do Banco Master, a Fictor ainda era uma empresa pouco conhecida fora do mercado financeiro. Na época, seus representantes buscavam influência política em Brasília e tentavam articular contratos com estatais.
Entre os episódios revelados pelo jornal Estadão, um consultor da Fictor chamado Felipe Alcântara promoveu um encontro entre o deputado Paulo Pimenta (PT-RS), que liderava a bancada governista na CPMI, e o ex-policial civil Rogério Giglio. Este último já havia gravado ilegalmente uma conversa com Cohen e, durante a comissão, acusou o advogado de pedir dinheiro para depor contra o governo federal.
Mais tarde, porém, Giglio se retratou em cartório e afirmou que a acusação era falsa. Ele disse ter sido pago por representantes da Fictor para mentir, prejudicar Cohen e abastecer a bancada petista com material contra o advogado.
Pimenta alegou desconhecer que a casa pertencia à Fictor. Além disso, argumentou ter desconfiado sobre o conteúdo apresentado por Giglio. Ele confirmou o encontro, disse ter sido convidado por um advogado de sua confiança e declarou que só consideraria relevantes as informações que fossem formalizadas à PF.
Fictor tentou emplacar proposta bilionária com Itaipu
Em outra frente, a Fictor também tentou se aproximar da Usina Hidrelétrica de Itaipu com o objetivo de administrar um fundo de reserva de até R$ 1 bilhão.
Alcântara fez o contato e chegou a tratar tecnicamente da proposta com o setor jurídico da estatal. A investida fracassou, já que a legislação permite a aplicação dos recursos apenas em bancos públicos, como Caixa e Banco do Brasil.
Apesar disso, a mansão alugada pela empresa recebeu pelo menos um evento político. Participaram figuras do alto escalão do PT, como a então presidente do partido, Gleisi Hoffmann, e o então ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha.
O diretor-geral de Itaipu, Ênio Verri, também esteve no local. Gleisi disse ter participado do encontro, mas negou ter ouvido ou discutido qualquer proposta. Padilha afirmou que jamais participou de reuniões com esse conteúdo. Verri não quis comentar.
Mansão em Brasília virou reduto de articulações políticas
Localizada na Quadra 22 do Lago Sul, a casa tem 497 metros quadrados e foi alugada por Luis Phillippi Rubini, ex-sócio da Fictor, até dezembro de 2025. Ele alega ter deixado a empresa um ano antes, em dezembro de 2024, e nega envolvimento com qualquer uma das ações citadas.
Hoje, ele figura como credor da própria Fictor, com R$ 35 milhões registrados em contratos de mútuo. A mansão chegou a ostentar elementos visuais da marca, como o portão pintado de verde e o sinal de wi-fi nomeado “Piscina Fictor”.
Alcântara admitiu ter usado o imóvel como espaço de articulação política e disse que recebia R$ 2,5 mil por mês, com promessa de comissão proporcional por contratos fechados. Segundo ele, Rubini propôs a parceria com base em sua rede de contatos.
“O Rubini me falou: ‘Pô, olha, você conhece bastante gente, pode trazer captação e você ganha aqui, acho que é 0,20% ou 0,30% sobre rendimento, pode ser uma boa para você’”, declarou Alcântara ao Estadão.
Consultor ofereceu R$ 50 mil por acusações contra Cohen
Já a relação com Giglio surgiu por meio de um advogado próximo a Rubini. Giglio afirmou ter sido contratado para produzir um dossiê contra Cohen, a quem deveria acusar de envolvimento com a oposição e de supostamente solicitar propina para depor na CPMI.
Ele disse que assinou um depoimento falso e chegou a receber passagens para ir a Brasília. “Foi totalmente direcionado”, justificou. “Eu assinei um depoimento com a versão que eles queriam. Ditaram, falaram para eu dizer que o Eli pediu dinheiro. Ele nunca pediu.”
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Durante a reunião com Pimenta, em setembro de 2025, Giglio apresentou a gravação feita com Cohen. O deputado teria considerado o conteúdo insuficiente para gerar consequências jurídicas, mas utilizou o material para pressionar por uma nova convocação do advogado à CPMI, o que de fato ocorreu em outubro.
Giglio relatou que Alcântara lhe prometeu pagamentos mensais de até R$ 50 mil, caso apresentasse provas de que Cohen forjava denúncias a serviço da direita. Alcântara confirmou a abordagem e disse ter “blefado” na tentativa de obter material contra o advogado.
O advogado Renato de Matteo Reginatto, citado como responsável por contratar Giglio, negou a versão e afirmou atuar como defensor tanto de Rubini quanto do ex-policial. Disse não poder comentar o caso por razões éticas, mas rejeitou a acusação de ter oferecido emprego.
Reginatto já teve atritos antigos com Cohen, que o denunciou à Polícia Federal na Operação Encilhamento. Ele chegou a ter mandado de prisão expedido em 2019, mas recebeu absolvição por falta de provas em novembro de 2025.
“Se forem confirmadas essas narrativas, os fatos revelam um quadro de extrema gravidade institucional, envolvendo fabricação de versões e provas, indevida provocação da Polícia Federal contra um advogado no exercício regular da advocacia, coação de depoentes, obstrução da Justiça e uso de estruturas políticas e econômicas para promover o linchamento reputacional de quem teve a coragem de denunciar o esquema de fraude contra os aposentados”, disse Cohen ao Estadão. “Devemos exigir apuração rigorosa e a responsabilização de todos os envolvidos.”

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