Política

Um perigoso faz-de-conta para adultos

Judicialização do debate de gênero e perseguição a dissidentes expõem a imposição estatal de uma fantasia ideológica

Flávio Gordon é crítico do transativismo | Foto: Divulgação/Oeste | Imagem criada com o auxílio de inteligência artificial
Flávio Gordon é crítico do transativismo | Foto: Divulgação/Oeste | Imagem criada com o auxílio de inteligência artificial

Diante de uma criança que o convide para brincar de tomar chá com as bonecas, todo adulto normal o fará de boa vontade, com um sorriso no rosto, mesmo sabendo que as xícaras são de plástico, que ali dentro não há chá, que as comidinhas são feitas de massinha ou papel picado e que os outros comensais não são pessoas, mas brinquedos. Na criança, o faz-de-conta afigura-se como algo simpático e, mais ainda, salutar.

O faz-de-conta não é simpático nem salutar em se tratando de adultos. De modo que, excetuando-se o contexto erótico, se um adulto convida outro para participar de sua fantasia, o segundo o fará apenas muito constrangido, com condescendência, ou coagido pelo uso da força. Se, ainda por cima, o primeiro adulto leva sua fantasia mais a sério do que até mesmo uma criança o faria, o segundo começará a ficar com medo.

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Há adultos que têm levado a sério demais suas fantasias — tão a sério que, uma vez frustrado o desejo de que todos os demais nelas participem, reagem, não raro, com extrema violência. É o caso, notadamente, de certos adeptos da ideologia transgenderista e do movimento transativista. Mal eu havia acabado de publicar o artigo “O atentado no Canadá é um fato social”, quando mais um transativista cometeu um crime de ódio. Dessa vez foi nos EUA, no Estado de Rhode Island, onde Roberto Dorgan, um homem que se acreditava mulher, matou duas pessoas a tiros numa pista de hóquei no gelo.

Mas o ressentimento com a não-aceitação da fantasia trans não se manifesta apenas sob essa modalidade extrema de violência. Por vezes, nos ambientes em que o transgenderismo passa a ser oficialmente chancelado pelo poder político, o ressentimento contra os refratários se manifesta como coação estatal e assédio judicial.

O autoritarismo dos grupos trans

É o caso da perseguição em série movida pelo deputado transativista Erika Hilton — um homem que se identifica como mulher — contra cidadãos que manifestaram a decisão de não participar do faz-de-conta para adultos. O caso brasileiro é tão extremo que ganhou atenção internacional.

No início do mês, por exemplo, o The Wall Street Journal reportou o caso de Isadora Borges, a estudante de veterinária processada pelo Estado brasileiro por reconhecer que o sexo biológico existe. Há alguns dias, Isabela compareceu ao tribunal para enfrentar acusações de “transfobia”. Se for considerada culpada, poderá enfrentar até dez anos de prisão, além de uma pesada multa e custas judiciais. A distópica perseguição — que lembra a cena de 1984 em que Winston Smith, após ser torturado pelos capangas do partido totalitário Ingsoc, acaba admitindo que 2+2=5 — fez com que a jornalista do WSJ desse à matéria o título certeiro: “O Brasil criminaliza a dissidência em relação ao transgenderismo”.

Há alguns dias, também a revista digital britânica Spiked comentou o caso, afirmando categoricamente que “A tirania trans impera no Brasil”. A reportagem, assinada por Raquel del Rosario Sanchez, destaca que a denúncia original foi feita por Erika Hilton, identificada como “mulher trans”, que já havia incentivado uma investigação semelhante em 2022 contra outra mulher que desafiou a ortodoxia trans, a feminista Isabella Cêpa, que chamou Erika de “homem” nas redes sociais. Ameaçada de pegar 25 anos de prisão por falar a verdade, Isabella conseguiu asilo político na Europa, que a reconheceu oficialmente como uma perseguida política dessa tirania trans.

Segundo a matéria da Spiked, esses casos refletem um padrão mais amplo na América Latina de governos que tentam usar as leis sobre identidade de gênero para criminalizar a dissidência ou debate científico sobre sexo e gênero. O texto afirma ainda que essas políticas são frequentemente importadas de modelos jurídicos estrangeiros, normalmente promovidas por instituições e governos que pressionam países do chamado “Sul Global” como condição para acordos ou ajuda.

As palavras conclusivas de Sanchez são tão precisas quanto vergonhosas para o Brasil, país em que órgãos estatais como o Ministério Público e parlamentares pagos com o dinheiro de todos (e não de “todes”) instituíram um faz-de-conta compulsório. Quando Stefan Zweig anunciou o Brasil como país do futuro — trágica e sintomaticamente, apenas algum tempo antes de abreviar o seu próprio futuro com uma overdose de barbitúricos –, decerto não era esse cenário distópico que tinha em mente.

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