Um Supremo fora da lei: mas quem não sabia?
Decisões sem devido processo, censura e prisões preventivas não começaram ontem — só mudaram de destinatário

Na Globonews, o sociólogo Demétrio Magnoli comentava o flagrante conflito de interesses de Alexandre de Moraes no caso Master, quando soltou a frase: “Vou acabar achando que o Supremo está fora da lei”. Na CNN, uma jornalista parecia espantada ao receber do presidente da Unafisco, Kléber Cabral, a seguinte resposta à pergunta sobre se os auditores iriam recorrer após terem se tornado alvo do Estado policial alexandrino: “Recorrer a quem? O que a gente faz? Não temos acesso ao processo. Os caras estão andando de tornozeleira eletrônica sem nunca ter respondido a um processo, nada”. No Estadão, um colunista publicou matéria com o título: “Moraes cria teoria da conspiração para desviar foco de que STF tem explicações a dar sobre o Master”.
Por que estão surpresos? Tudo isso — as decisões fora da lei, a ausência de devido processo, as operações de pesca probatória, a tornozeleira eletrônica e as prisões sem julgamento, a censura, a intimidação, a espionagem, o abuso de poder político, a polícia de pensamento, o terrorismo judicial etc. — já não fora amplamente praticado, tintim por tintim, contra os bolsonaristas?
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Kléber Cabral, presidente da Unafisco (o mesmo que respondeu com brutal franqueza à pergunta da CNN), acaba de ser intimado por Moraes a prestar esclarecimentos à Polícia Federal por conta de sua crítica às diligências contra os auditores fiscais. Mas não foi essa mesma entidade, da qual Cabral era então vice-presidente, que assinou a famigerada “Carta às brasileiras e aos brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito”, o documento organizado pela noblesse de robe uspiana que chancelava toda a lawfare praticada por Moraes e camaradas contra os assim chamados “bolsonaristas”?
O Supremo já estava sem controle
O Estadão agora fala em “teoria da conspiração” de Alexandre de Moraes. Mas quando é que o ultrarradical Moraes não recorreu a grosseiras teorias conspiratórias — como a da existência de uma grande cabala de “extrema direita nacional-populista” orquestrando a desinformação global — para justificar o seu adelismo judicial? Sempre recorreu. O ex-assessor Eduardo Tagliaferro entregou todo o funcionamento do gabinete do ódio do suposto magistrado. E, no entanto, essa mesma imprensa que ora se escandaliza celebrou o tirano com risinhos e memes — como quando, em 23 de novembro de 2022, a jornalista Vera Magalhães postou um desenho retratando Moraes, de Constituição e martelo em punho, com a legenda “vigiar e punir é gostoso demais”.
O Estado policial não nasceu ontem. Ele foi erguido tijolo por tijolo desde 2019, sob aplausos de uma elite que confundiu exceção com virtude e arbítrio com heroísmo. A censura prévia era “defesa da democracia”. A prisão preventiva sem denúncia era “combate ao golpismo”. O bloqueio de contas e perfis era “higienização informacional”. Tudo muito civilizado — desde que o alvo fosse o estigmatizado da vez.
A pergunta que agora ecoa nos estúdios deveria ter sido feita há seis anos: quem vai frear os juristocratas? O problema nunca foi a identidade ideológica das vítimas. O problema foi o método. Quem aceita o estado de exceção contra o adversário prepara o próprio cadafalso. Hoje, alguns descobrem, atônitos, que o Leviatã faminto já não distingue entre bolsonaristas e não-bolsonarista. Para ele, é tudo carne.
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