Indígenas do Tapajós encerram protesto depois de governo revogar decreto sobre hidrovias
Segundo a gestão federal, a medida buscava viabilizar análises técnicas para a ampliação do transporte por vias navegáveis, apontado por autoridades como uma alternativa de menor impacto ambiental e reduzida emissão de carbono

Depois de mais de um mês de protestos e da invasão de área próxima ao terminal portuário da Cargill, indígenas da região do Tapajós, no oeste do Pará, deixaram a área externa da companhia em Santarém nesta quarta-feira, 25.
O grupo protestava contra o plano do governo Lula (PT) de implementar hidrovias nos rios amazônicos, bloqueando o acesso à empresa do setor do agronegócio desde 22 de janeiro. No sábado 21, eles entraram na área interna do terminal portuário e espalharam cartazes.
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O protesto chegou a ter 1,2 mil participantes, conforme dados da organização. Eles exigiam a revogação do Decreto 12.600/2025, que incluía os rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização (PND) para construção de hidrovias. O governo federal, diante da pressão, anunciou na segunda-feira 23, a revogação da medida, oficializada no Diário Oficial da União na terça-feira 24, o que levou ao fim do acampamento.
Debate sobre impactos ambientais e participação indígena
De acordo com o governo, o decreto tinha como objetivo autorizar estudos para o transporte hidroviário, considerado por autoridades como alternativa de baixo impacto ambiental e menor emissão de carbono. A gestão Lula também ressaltou que o impacto ambiental seria avaliado nas etapas de dragagem. Os indígenas, no entanto, criticaram a ausência de consulta prévia prevista em lei.
Em nota, a Cargill caracterizou como “duas ações violentas” tanto o protesto em frente ao escritório em São Paulo, na sexta-feira 20, quanto a entrada na sede em Santarém. Segundo a empresa, houve vandalismo nesses dois locais, com prejuízos operacionais e paralisação total das atividades no terminal portuário. A companhia informou que tintas foram jogadas em portas e vidraças do escritório paulista, mas não detalhou danos em Santarém.
Histórico de protestos e reivindicações
Alessandra Korap Munduruku, uma das líderes indígenas, lembra que as manifestações começaram logo depois da publicação do decreto em agosto de 2025. Ela afirma que o plano de hidrovias se somou ao protesto contra a ferrovia Ferrogrão, ambos defendidos pelo governo Lula, para facilitar o escoamento do agronegócio. “Quando saiu o decreto 12.600, a gente sabia que tinha que fazer algo antes que saísse o leilão das hidrovias”, explicou ao jornal Folha de S.Paulo.
Alessandra disse que, sem consultas aos povos afetados, as medidas do governo também motivaram protestos durante a COP30, em novembro, em Belém. Na ocasião, indígenas munduruku bloquearam a entrada da zona azul, área diplomática do evento. “Mesmo com a demarcação do nosso território, ainda corremos riscos”, tratou.
Para ela, a resposta do governo demorou, o que justificou, em sua visão, a intensificação das ações, com a interceptação de balsas no Tapajós e a invasão da Cargill, mesmo depois de uma ordem judicial de desocupação pedida pela empresa. “A gente não veio para cá para ficar com medo de governo, de juiz e de empresas”, afirmou.
Dragagem e riscos ambientais no Tapajós
Antes da revogação do decreto, em 6 de fevereiro, o governo suspendeu a licitação para dragagem do Tapajós, depois de manifestações. Segundo apuração da Folha, uma empresa havia sido selecionada para realizar dragagem no valor de R$ 61,8 milhões em sete pontos do rio, entre Itaituba e Santarém, sem licença ambiental ou protocolo de pedido para tal atividade.
Laudos da Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade do Pará, do ICMBio e do Ibama apontam impactos “significativos” decorrentes da dragagem no Tapajós. Entre os problemas identificados estão alterações na qualidade da água, assoreamento do leito, prejuízos à pesca, mudanças em rotas de transporte de comunidades ribeirinhas e indígenas, riscos à segurança alimentar e impactos nos ciclos reprodutivos da tartaruga-da-amazônia, espécie que encontra na região a segunda maior área de reprodução.
Leia também: “Togas fora da lei”, artigo de Augusto Nunes publicado na Edição 245 da Revista Oeste

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