Jejum intermitente: quando ajuda de verdade e quando pode fazer mal

A prática pode trazer benefícios para algumas pessoas, mas não serve para todos e exige avaliação individualizada e criteriosa.

  • Por Brazil Health
  • 03/01/2026 07h00
v Apesar da popularidade, o jejum intermitente não é indicado para todos

O jejum intermitente ganhou popularidade como estratégia para emagrecimento e melhora da saúde metabólica. A proposta parece simples e quase milagrosa: alternar períodos de alimentação com períodos prolongados sem comer pode ser perigoso e não uma solução. No entanto, apesar dos potenciais benefícios divulgados, a prática não é universalmente segura nem eficaz para todos; em algumas pessoas, pode sim ajudar. Entender quando o jejum funciona – e quando pode ser prejudicial – é essencial para evitar frustrações e riscos à saúde.

O que acontece no corpo durante o jejum

Durante o período de jejum, o organismo passa por mudanças hormonais e metabólicas importantes. A redução da ingestão calórica leva à queda dos níveis de insulina, favorecendo o uso de gordura como fonte de energia. Em algumas pessoas, isso pode melhorar a sensibilidade à insulina, auxiliar no controle do peso e reduzir marcadores inflamatórios.

Além disso, o jejum estimula processos celulares de adaptação, como a autofagia – mecanismo relacionado à renovação celular. Esses efeitos, no entanto, dependem de fatores como duração do jejum, qualidade da alimentação nas janelas alimentares, rotina de sono, nível de atividade física e estado hormonal do indivíduo. Jejuar não é apenas ‘ficar sem comer’ – é provocar uma resposta fisiológica que pode ser benéfica ou estressante, dependendo do contexto.

Para quem o jejum pode funcionar bem

O jejum intermitente tende a funcionar melhor em pessoas com resistência à insulina, sobrepeso leve a moderado e rotina alimentar desorganizada, desde que seja feito com acompanhamento. Para esses perfis, a estratégia pode ajudar a reduzir beliscos constantes, melhorar a percepção de fome e facilitar a adesão a um padrão alimentar mais equilibrado.

Homens adultos metabolicamente saudáveis costumam tolerar melhor períodos de jejum do que mulheres, especialmente as em idade fértil. Quando bem conduzido, o jejum pode ser uma ferramenta útil, mas não substitui a qualidade da alimentação nem dispensa planejamento nutricional adequado.
Quando o jejum pode ser prejudicial

Apesar da popularidade, o jejum intermitente não é indicado para todos. Pessoas com histórico de transtornos alimentares, gestantes, lactantes, indivíduos com baixo peso, distúrbios hormonais, anemia ou uso de determinados medicamentos podem apresentar piora do quadro ao adotar a prática.

Em mulheres, o jejum prolongado pode interferir no eixo hormonal, levando a alterações do ciclo menstrual, queda de energia, irritabilidade e dificuldade para emagrecer. Em pessoas fisicamente ativas ou atletas, o jejum mal planejado pode comprometer o desempenho, favorecer a perda de massa muscular e aumentar o risco de lesões.

Existe uma forma correta de iniciar um jejum e de fazer sua finalização. Sempre se deve procurar um médico com habilidades para entender a vida do paciente e seu estágio metabólico atual. Uma boa análise é iniciar o jejum como um pensamento de autolimpeza – mudança do estilo de vida ruim para melhor.

Outro erro comum é acreditar que o jejum ‘compensa’ uma alimentação desorganizada. Comer em excesso, com baixa qualidade nutricional, durante as janelas alimentares anula possíveis benefícios e pode agravar a inflamação e a desregulação metabólica. De fato, o famoso desjejum deve ser feito com qualidade alimentar e não com a ideia de compensação.

Jejum intermitente não é atalho nem solução mágica. É uma estratégia que pode ser útil e antiga, criada para contextos específicos, mas que exige avaliação médica clínica e acompanhamento multiprofissional. Em nutrologia, o melhor plano alimentar é aquele que respeita a individualidade, promove saúde metabólica e pode ser mantido a longo prazo – com ou sem jejum.

Dr. Ordânio Almeida – CRM-SP 210.631
Médico com atuação em Nutrologia, focado em nutrição clínica e estudo de qualidade de vida.
Membro da Brazil Health.