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O ano de 2026 se anuncia como um marco simbólico. Teremos Copa do Mundo, eleições presidenciais e um país atravessado por um cansaço profundo. Não se trata apenas de fadiga econômica ou política, mas de um esgotamento mais amplo, que atravessa instituições, linguagem e expectativas. O Brasil entra nesse novo ciclo sem ter resolvido as tensões acumuladas na última década e sem demonstrar maturidade para enfrentá-las de forma honesta.
O ambiente institucional já vinha fragilizado, mas o episódio envolvendo o Banco Master representou uma inflexão qualitativa. Não foi apenas mais um conflito jurídico ou uma disputa de interpretações legais.
O que se tornou visível foi algo mais grave: a sensação de que determinadas estruturas passaram a operar em circuito fechado, com mecanismos de autoproteção que escapam ao controle público. A questão deixou de ser técnica e passou a ser simbólica. Quando decisões relevantes parecem blindadas contra questionamentos, a confiança na institucionalidade se rompe.
Esse deslocamento altera profundamente a relação da sociedade com o Estado. Durante anos, as críticas ao Supremo Tribunal Federal se concentraram em excessos pontuais ou em leituras jurídicas consideradas expansivas.
Agora, a percepção mudou de patamar. A crítica passou a atingir a própria ideia de imparcialidade. Não se discute apenas se uma decisão foi correta, mas se o sistema ainda é capaz de se autorregular. Quando essa dúvida se instala, a legitimidade sofre um abalo que não se resolve com notas técnicas ou discursos institucionais.
É nesse contexto que se revela um traço recorrente da vida pública brasileira: a dificuldade de lidar com a responsabilidade. Diante de situações complexas, uma parte significativa da sociedade prefere reagir emocionalmente a compreender. Em vez de enfrentar o desconforto de uma análise mais profunda, opta por narrativas que confirmem certezas prévias. O gesto do “eu avisei” substitui o esforço de compreender o que, de fato, está acontecendo.
A pesquisa Datafolha de dezembro escancara uma contradição que já não pode mais ser tratada como ruído estatístico. Segundo o levantamento, 47 por cento dos brasileiros se declaram de direita ou centro-direita, enquanto 28 por cento se dizem de esquerda ou centro-esquerda.
Ao mesmo tempo, 40 por cento afirmam ser petistas, e 34 por cento se dizem bolsonaristas. Isso significa, de forma objetiva, que há brasileiros que se dizem de direita e, ao mesmo tempo, se identificam como petistas, assim como há pessoas que se dizem de esquerda e se reconhecem como bolsonaristas. Não se trata de incoerência pontual, mas de um padrão.
Esse dado revela algo mais profundo do que confusão ideológica. Ele mostra que, para uma parcela significativa da população, as categorias políticas deixaram de ser referências de pensamento e passaram a funcionar como identidades emocionais.
As pessoas não escolhem posições com base em princípios, mas em pertencimento, afinidade afetiva ou rejeição simbólica ao outro grupo
A identidade política deixa de ser um conjunto de ideias e passa a ser uma marca de grupo, quase um rótulo social. Nesse cenário, dizer-se de direita ou de esquerda não significa defender projetos distintos de país, mas apenas sinalizar de que lado se está.
O resultado é uma política cada vez menos racional e mais performática. Em vez de discutir propostas, discute-se pertencimento. Em vez de analisar consequências, escolhe-se um lado. O debate se transforma em espetáculo, e a participação política, em afirmação de identidade. A lógica não é mais convencer, mas sinalizar. Não se busca compreender, mas marcar posição.
Nesse ambiente, a figura do salvador da pátria retorna com força. Diante da frustração e da sensação de impotência, cresce a expectativa de que alguém resolva tudo em nome de todos. A responsabilidade individual é terceirizada. O pensamento crítico cede espaço à esperança de que uma liderança carismática faça o trabalho que a sociedade não quer fazer. É uma forma de infantilização coletiva, em que a política passa a ser vivida como promessa de alívio emocional.
O problema é que essa dinâmica não produz maturidade democrática. Pelo contrário, aprofunda a dependência e reduz a capacidade de ação consciente. Quanto mais se espera por um salvador, menos se constrói cidadania. Quanto mais se delega o pensamento, mais fácil se torna manipular afetos e conduzir massas.
O Brasil entra em 2026 diante dessa encruzilhada. Ou enfrenta o desconforto de pensar com autonomia, reconhecer limites e assumir responsabilidades, ou seguirá preso ao ciclo de frustração, indignação e expectativa messiânica. A questão central não é quem vencerá a eleição, mas se a sociedade está disposta a amadurecer.
Sem esse movimento, qualquer mudança será apenas cosmética. O país continuará oscilando entre euforia e decepção, sem nunca enfrentar o núcleo do problema. O verdadeiro desafio não é escolher um novo salvador, mas aprender, finalmente, a viver sem um.
