Quais disputas entre EUA e Venezuela levaram ao ataque anunciado por Trump

Eleições contestadas, embargo ao petróleo, acusações de narcotráfico e crise migratória estão entre os principais pontos de tensão entre os dois países desde 2013

  • Por Jovem Pan
  • 03/01/2026 09h42
ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP e Juan Barreto / AFP O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro e Trump O presidente Donald Trump afirmou neste sábado (3) que forças dos Estados Unidos capturaram o presidente venezuelano, Nicolás Maduro

Eleições, embargo petrolífero, narcotráfico ou migrantes. Numerosas questões opõem desde 2013 a Venezuela e os Estados Unidos, cujo presidente, Donald Trump, anunciou neste sábado (3) um “ataque em grande escala” e a captura de Nicolás Maduro.

Repassamos as principais disputas:

Democracia

Washington, assim como parte da comunidade internacional, não reconhece a legitimidade do socialista Nicolás Maduro para presidir a Venezuela. Após a violenta repressão às manifestações que se seguiram à sua primeira eleição, em 2013, os Estados Unidos sancionaram vários altos funcionários do país por violações de direitos humanos.

Washington também qualificou como “ilegítima” sua reeleição em 2018 e, posteriormente, a de 2024, que a oposição afirma ter vencido.

Entre 2019 e 2023, os Estados Unidos, seguidos por cerca de sessenta países, chegaram inclusive a reconhecer o opositor Juan Guaidó como “presidente interino”, o que provocou o rompimento das relações diplomáticas por parte de Caracas.

Acusações de ingerência

A Venezuela acusou em várias ocasiões os Estados Unidos de ingerência. Em 2019, após uma tentativa de insurreição militar, Maduro afirmou que Washington havia ordenado “um golpe de Estado fascista”.

No ano seguinte, o presidente venezuelano acusou seu par americano, Donald Trump, de ter “dirigido diretamente” uma tentativa de “incursão armada” pelo mar, da qual participaram dois ex-soldados americanos.

Washington negou qualquer envolvimento. “Não aos golpes de Estado fomentados pela CIA”, declarou Maduro em outubro, depois que Trump afirmou ter autorizado ações clandestinas da agência de inteligência contra a Venezuela.

Embargo petrolífero dos EUA

Com o objetivo de asfixiar economicamente o país e retirar Maduro do poder, Washington impôs em 2019 um embargo ao petróleo venezuelano, que atingiu o pilar da frágil economia do país.

Antes de sua entrada em vigor, o petróleo representava 96% das receitas nacionais, e três quartos das receitas petrolíferas provinham de clientes americanos. Agora, a Venezuela vende sua produção de petróleo no mercado negro a preços muito mais baixos, especialmente para a China.

Nas últimas semanas, Washington anunciou um “bloqueio total” contra os “petroleiros sancionados” que se dirigem à Venezuela ou dela saem e confiscou vários navios. Caracas classificou o anúncio como uma “ameaça grotesca”.

Trump encerrou neste ano as licenças de exploração que permitiam às multinacionais operar apesar das sanções. A americana Chevron desfruta desde julho de uma licença especial.

Segundo a Opep, a produção caiu de 3,5 milhões de barris por dia em 2008 para menos de um milhão atualmente, devido às sanções americanas e ao colapso do sistema de extração, minado pela corrupção e pela má gestão.

A Venezuela, que sofreu uma grave crise econômica entre 2014 e 2021, continua em situação precária, e Maduro atribui isso às sanções impostas por Washington.

Acusações de narcotráfico

Em março de 2020, Nicolás Maduro foi acusado nos Estados Unidos de “narcoterrorismo”, e Washington ofereceu 15 milhões de dólares por qualquer informação que permitisse sua detenção.

Essa recompensa foi elevada para 25 milhões no início de 2025, após a posse do presidente venezuelano para um terceiro mandato, e depois para 50 milhões (R$ 272 milhões) em agosto, antes de os Estados Unidos mobilizarem um importante dispositivo militar no mar do Caribe e lançarem ataques contra supostos narcotraficantes.

Washington acusa Maduro de comandar o “Cartel dos Sóis”, cuja existência ainda não foi comprovada segundo numerosos especialistas. Maduro nega e acusa Washington de querer se apoderar do petróleo do país.

Imagem capturada do vídeo postada pelo Comando Sul do Exército dos EUA mostra suposta lancha do narcotráfico sendo abatida

Imagem capturada do vídeo postada pelo Comando Sul do Exército dos EUA mostra suposta lancha do narcotráfico sendo abatida

Migrantes

Trump, que fez do combate à imigração uma prioridade de seu segundo mandato, reprova Caracas pela chegada de um grande número de migrantes venezuelanos. O republicano acusa a Venezuela de ter “empurrado” para os Estados Unidos “centenas de milhares de pessoas provenientes das prisões”, assim como “internos de hospitais psiquiátricos”.

Segundo a ONU, cerca de oito milhões de venezuelanos — aproximadamente um quarto da população — fugiram da crise econômica e política desde 2014, a maioria para países da América Latina e outros para os Estados Unidos.

Trump retirou o status de proteção temporária de que desfrutavam centenas de milhares de venezuelanos devido à crise em seu país e expulsou, em 2025, vários milhares deles.

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Em meados de 2025, os Estados Unidos enviaram para uma prisão em El Salvador 252 venezuelanos acusados, sem provas nem julgamento, de pertencer a uma quadrilha. Eles permaneceram ali por quatro meses antes de serem repatriados para Caracas, que, assim como várias ONGs, denunciou as “torturas” sofridas durante a detenção.

*Com AFP