Sob o rótulo da soberania, o nacionalismo vira desculpa para mediocridade acadêmica, protecionismo cultural e empobrecimento intelectual. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

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Outrora, em priscas eras, havia uma propaganda na televisão portuguesa que dizia: “o que é nacional é bom”. A frase, a princípio dedicada a levar ao público o bom nome de uma marca de bolachas – as bolachas Nacional –, cedo perdeu seus vínculos com a guloseima, ganhou o mundo de língua portuguesa e desembarcou no Brasil.

Por aqui, encontrou terreno fértil e passou, parafraseando Samuel Johnson, a ser presença constante na boca de todos os velhacos que, sob a capa do amor à pátria, do orgulho nacional e da tal valorização do que é brasileiro, defendem interesses pessoais (ou de grupos) inconfessáveis e, na maioria das vezes, ocultam a própria mediocridade – que sempre se sente mais confortável em ambientes protegidos.

Recentemente, a ideia passou por uma mutação, ou melhor, por uma mudança de guarda-roupa, e entrou em cena a tal “soberania” – ou “soberaninha”, como dizem os cínicos.

A soberania, que veio se juntar ao “olhar do colonizado”, à “voz do oprimido”, ao “lugar de fala do sul global”, à “perspectiva decolonial” e a outros clichês do gênero que circulam por aí, tem servido para quase tudo: desde rechaçar as críticas internacionais à COP 30, que pareceu aos esnobes convidados estrangeiros uma quermesse de paróquia do interior, com direito a muitos cachorros caramelos, chinelos de dedo, botecos de esquina, esgotos a céu aberto e outros tantos símbolos nacionais de que, estranhamente, não gostaram; até oferecer uma justificativa simpática para taxar o cidadão antinacionalista que insiste em comprar, pela internet, uma blusa, um fone de ouvido ou um parafuso importados.

A bem da verdade, ultimamente, neste Brasil em que tudo supostamente se resume a uma narrativa, a soberania, em suas mais variadas formas, tem sido convocada em toda e qualquer situação da vida nacional que demande a defesa orgulhosa do indefensável e a proteção incondicional da pequenez local, sempre agigantada.

Um lugar onde sua presença tem sido discreta, sutil, mas insidiosa é a universidade, sobretudo no setor de humanidades. Aí, entre essas ciências que Foucault qualificou de “duvidosas”, em nome do decolonial, da diversidade, da inclusão ou, de modo mais rudimentar, da autonomia intelectual brasileira, da valorização das mentes cultivadas nas estufas tropicais, tem-se feito o diabo, como dizia uma ex-mandatária do país.

Os mais idosos lembrar-se-ão, certamente, daquela cruzada que se moveu outrora, lá pelos idos de 1976, em prol da MPB, cruzada que culminou na aprovação de uma singela lei que exigia das rádios e televisões do país que tocassem 60% de música brasileira no horário das 6h às 24h, das quais dois terços deveriam ser de música brasileira “de raiz” (?) ou de compositores brasileiros vivos. O leitor curioso, com tempo e pachorra para percorrer programas de disciplinas e bibliografias de concursos de universidades, rapidamente verá que, em tais domínios, estamos quase lá, na cota MPB.

Logo de saída, o curioso notará que os outrora respeitados “estudos clássicos” ou mesmo os ditos “estudos contemporâneos consolidados” sobre determinado tema – aqueles com reconhecido impacto internacional, publicados por editoras renomadas e com circulação para além dos parentes, alunos e amigos – estão gradativamente dando lugar a autores nacionais de um livro só – geralmente a tese ou a dissertação de mestrado – ou a autores de artigos inexpressivos, que só não são completos desconhecidos por obra e graça dos amigos que os resgataram do esquecimento e os meteram ali naquela bibliografia.

E tais amigos não o fazem por amor genuíno; ao contrário, esperam, num futuro não muito distante, ser agraciados com a mesma gentileza, quando o resgatado elaborar a bibliografia do seu próprio curso ou, o que é mais estimulante, a lista de “obras” recomendadas para um concurso qualquer de sua universidade.

Fecha-se, então, o círculo vicioso da boçalidade intelectual: o inexpressivo nacional respalda o sem expressão nacional, para que, mais adiante, o sem expressão respalde o inexpressivo.

O produto final é um universo intelectual com o tamanho e a profundidade de um prato

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Há, é claro, em meio a essa galeria de referências pátrias, uma meia dúzia de escolhidos estrangeiros, “autoridades” a quem os nativos devotam um respeito quase totêmico. A adoração é tanta e tão ruidosa que esses escolhidos, por mais medíocres que sejam em seus países – e, quanto mais medíocres, mais levam a sério o culto local –, quando respiram os ares quentes e afetuosos das universidades brasileiras não podem evitar ser tomados por aquele sentimento tão bem ilustrado pelo poeta Blaise Cendrars que, depois de passar uma temporada com os modernistas brasileiros e ser tratado como um “gênio universal”, escreveu: “Fui recebido como Proust…, mas Proust no Rio de Janeiro!”.

O problema é que quem paga a conta dessa festa de exaltação do gênio nacional, com pitadas de deslumbre por certos estrangeiros, é o pobre e esfolado contribuinte e sua prole, se esta porventura alcançar a universidade. O contribuinte – melhor, o pagador de impostos – gasta mal o seu dinheiro, e o universitário das humanidades, a tal prole, o seu precioso tempo.

Ambos só perdem, mas a soberania ganha; ganha e já alcançou tamanha proporção nas universidades do país que, daqui a uma ou duas gerações, um egresso qualquer de um curso de humanas terá o universo intelectual e linguístico tão limitado, tão anódino e, sobretudo, tão deslocado do mundo lá fora, do mundo além das fronteiras nacionais, que irá fácil e naturalmente tomar por clássico da sociologia e grande escritor não Tocqueville, Marx ou Weber, mas o José das Couves, da Universidade de Capitinga da Serra; ou por referência contemporânea incontornável a doutora Maria das Flores – ex-orientanda de um semideus francês qualquer –, da igualmente renomada Universidade de Capitinga do Pé da Serra. Eis o ápice da soberania intelectual.

Fica, porém, a pergunta: num mundo de inteligências artificiais, o que exatamente esse Jeca Tatu das ciências humanas vai fazer com esse seu diploma e conhecimentos soberanos?

Jean Marcel Carvalho França é professor titular de História do Brasil da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho e autor, entre outros, dos seguintes livros: “Literatura e sociedade no Rio de Janeiro Oitocentista, “Visões do Rio de Janeiro Colonial”, “Mulheres Viajantes no Brasil”, “Andanças pelo Brasil colonial”, “A Construção do Brasil na Literatura de Viagem dos séculos XVI, XVII e XVIII”, “Piratas no Brasil“ e “Ilustres Ordinários do Brasil”.