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O presidente Donald Trump acompanhando a operação que capturou Maduro em Caracas. (Foto: Casa Branca/EFE/EPA)

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Os Estados Unidos capturaram neste sábado (3), em Caracas, na Venezuela, o ditador Nicolás Maduro durante uma operação militar histórica que altera o equilíbrio político da região e abre espaço para ganhos estratégicos de Washington em petróleo, segurança e pressão sobre regimes aliados à Rússia, China e Irã na América Latina.

Segundo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a ação deste sábado teve como objetivo retirar do poder um regime acusado de envolvimento com narcotráfico, terrorismo e corrupção sistemática. Trump afirmou que Washington irá conduzir a administração da Venezuela até que seja estabelecida uma “transição segura e adequada”. Ele também ameaçou iniciar uma ofensiva “muito maior” caso a vice de Maduro, Delcy Rodríguez, que neste momento comanda o país, não coopere com a Casa Branca.

O setor petrolífero da Venezuela aparece como um dos eixos estratégicos da operação americana contra Maduro. De acordo com dados do Oil & Gas Journal, a Venezuela concentra neste momento as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, estimadas em mais de 300 bilhões de barris. Conforme declarou Trump, empresas petrolíferas dos Estados Unidos devem entrar na Venezuela e, a partir de agora, investir bilhões de dólares para recuperar a infraestrutura energética do país, considerada degradada após anos de má gestão chavista. A ideia é, segundo disse o próprio Trump, recuperar todo o petróleo que a Venezuela “deve” aos EUA.

Apesar do potencial, a recuperação da produção venezuelana de petróleo não será imediata. Segundo análise do jornal The New York Times, atualmente a Venezuela produz cerca de 1 milhão de barris de petróleo por dia, volume muito inferior ao registrado no início da década passada. Ao Times, Richard Bronze, chefe de geopolítica da consultoria Energy Aspects, disse que a retomada do setor petrolífero venezuelano exigirá “estabilidade política, segurança no terreno e dezenas de bilhões de dólares em investimentos ao longo de vários anos” para que a indústria volte a “operar em níveis elevados”.

Além do fator econômico, a captura de Maduro representa um revés estratégico para a Rússia. Conforme análise do think tank Atlantic Council, Moscou perde um aliado-chave no hemisfério ocidental justamente em um momento em que depende das exportações de energia para financiar a guerra na Ucrânia. Um eventual aumento da oferta de petróleo sob influência americana, a partir da reorganização da indústria venezuelana, tende a ampliar a concorrência no mercado global e pressionar as receitas russas.

O controle dos EUA sobre o petróleo venezuelano também pode afetar a China. De acordo com análise do Atlantic Council, cerca de 80% das exportações de petróleo da Venezuela nos últimos anos tiveram como destino o mercado chinês. Com a mudança de poder em Caracas, a reorganização do setor energético passa a ser um instrumento de influência de Washington sobre fluxos de abastecimento e condições comerciais enfrentadas pelo regime de Pequim. Trump afirmou em seu discurso neste sábado que as vendas de petróleo para a China poderão continuar, mas sob novas condições, o que, segundo análise do think tank, amplia a capacidade dos Estados Unidos de moldar fluxos energéticos estratégicos.

Pressão sobre regimes enfraquecidos

No Oriente Médio, a queda de Maduro é vista como um alerta ao Irã. Conforme destacou o Atlantic Council, a operação em Caracas envia um sinal de que os Estados Unidos estão dispostos a empregar força militar contra regimes acusados de desestabilizar regiões inteiras e manter alianças com organizações criminosas.

Na América Latina, o efeito imediato recai sobre Cuba. Segundo autoridades americanas e análises publicadas na imprensa internacional, o regime cubano depende historicamente do fornecimento de petróleo venezuelano a preços subsidiados. A interrupção desse fluxo tende a aprofundar a crise econômica na ilha, que já enfrenta escassez de combustível e apagões frequentes. Em entrevista ao New York Post, o presidente Trump afirmou que não pretende realizar uma intervenção militar em Cuba e avaliou que o regime “vai cair por si só”, em razão da deterioração econômica e da perda do apoio venezuelano.

“Cuba está em uma situação muito ruim. Sempre dependeu muito da Venezuela”, disse o republicano.

Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram levados aos Estados Unidos e devem responder às acusações de narcoterrorismo, tráfico internacional de drogas e conspiração, conforme documentos do Tribunal Federal do Distrito Sul de Nova York. As acusações apontam que, por mais de duas décadas, o regime teria usado estruturas do Estado para facilitar o envio de cocaína aos Estados Unidos.

Em Caracas, a vice-presidente Delcy Rodríguez reivindicou a continuidade do governo chavista e exigiu a libertação imediata de Maduro, classificando a operação realizada pelos EUA neste sábado como “ilegal”.

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