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“Alcançar, por meios pacíficos, o pleno restabelecimento da ordem democrática e do respeito irrestrito aos direitos humanos na Venezuela”: foi este o pedido de alguns dos países-membros do Mercosul e Estados associados, ao fim da cúpula realizada dias atrás em Foz do Iguaçu (PR). “Alguns” porque, por mais sensato que seja o clamor por democracia e direitos humanos, o Brasil de Lula e outros países governados pela esquerda se recusaram a assinar o documento, que ainda denuncia “a persistência de prisões arbitrárias e desaparecimentos forçados” e pede pela libertação de todos os prisioneiros políticos mantidos pelo regime bolivariano.
O texto levou a assinatura dos presidentes da Argentina, Javier Milei; do Paraguai, Santiago Peña; e do Panamá, José Raúl Mulino. Além deles, o novo chanceler boliviano e ministros e autoridades do Peru e do Equador também endossaram o comunicado. Por outro lado, o Brasil foi acompanhado pelo Uruguai, presidido pelo esquerdista Yamandú Orsi, e pelo Chile, país associado ao Mercosul e ainda governado por Gabriel Boric, que em 2026 será substituído pelo direitista José Antonio Kast. A Venezuela, que entrou no Mercosul em 2012 graças a uma manobra rasteira de Dilma Rousseff, Cristina Kirchner e Pepe Mujica, está suspensa do bloco desde 2016 por violações da cláusula democrática.
Trump ofereceu o pretexto perfeito para Lula fazer o que sempre faz: manifestar solidariedade aos camaradas ideológicos que espalham a tirania pelo continente
O pretexto invocado pelos brasileiros foi a ausência, no texto, de uma crítica às últimas movimentações militares dos Estados Unidos na Venezuela – Donald Trump iniciou o deslocamento de tropas para o Mar do Caribe alegado o combate ao narcotráfico, mas é difícil estimar neste momento até onde o norte-americano pode chegar em suas ações, pois ele também tem interceptado navios petroleiros e já disse que os dias de Nicolás Maduro “estavam contados”. Milei tem apoiado os Estados Unidos e, durante a reunião de cúpula, pediu que os colegas se juntassem a ele, mas o texto assinado pelos presidentes não chega a esse ponto; em vez disso, fala em “meios pacíficos” para a restauração da democracia na Venezuela.
Ambos têm sua dose de razão neste imbróglio. É fato que a Venezuela é governada há muitos anos por um regime ditatorial, cruel, violador de direitos humanos, que reduz seu povo à miséria em nome do “socialismo do século 21”. Também é fato que o país tem hoje um presidente legítimo, mas que não exerce o poder: Edmundo González, vencedor do pleito de julho de 2024, cuja apuração o chavismo fraudou, e que está exilado na Espanha. Por outro lado, deve-se observar com muita preocupação qualquer tentativa de uso unilateral da força por parte dos EUA, sem nenhum respaldo da comunidade internacional, e cujas consequências são imprevisíveis não apenas na América Latina, mas em qualquer região onde haja potências acreditando que há “bons motivos” para intervenções semelhantes.
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De qualquer maneira, Trump ofereceu o pretexto perfeito para Lula fazer o que sempre faz: manifestar solidariedade aos camaradas ideológicos que espalham a tirania pelo continente. Em 2023, Lula recebeu Maduro com tapete vermelho em Brasília e disse que ele era vítima de uma “narrativa”. Quando líderes oposicionistas como María Corina Machado foram arbitrariamente impedidos de concorrer em 2024, Lula minimizou suas queixas como “choro de perdedor”. Após a eleição, enquanto quase todo o Ocidente democrático (incluindo o Chile de Boric) condenava a farsa de Maduro e se recusava a reconhecer o ditador como governante legítimo da Venezuela, Lula se calou sobre o autogolpe bolivariano, escondendo-se em uma pueril exigência de apresentação dos boletins de urna (ignorando que a oposição apresentou boletins suficientes para atestar a vitória de González). Quando chegou o dia da “posse” de Maduro, em janeiro deste ano, o petista enviou a embaixadora brasileira em Caracas, em um reconhecimento tácito de que o socialista havia sido o vencedor do pleito. Qualquer estremecimento entre os dois não passa de uma briga entre amigos.
Alegar a falta de uma crítica à presença militar norte-americana no Mar do Caribe para se esquivar da assinatura de um documento defendendo a normalidade democrática e o respeito aos direitos humanos na Venezuela é um golpe baixo que sacrifica o povo venezuelano no altar da cumplicidade ideológica. Mas não havia como esperar nada diferente de Lula, que sempre foi condescendente com as ditaduras de esquerda latino-americanas – a começar pela mais cruel de todas elas, a cubana –, adotando uma distância prudente (mas nunca uma postura de condenação aberta) apenas em casos isolados, como o da Nicarágua de Daniel Ortega, que expulsou o embaixador brasileiro, provocando medida semelhante por parte do Brasil. É este amigo de ditaduras que tentará se vender como um grande democrata em 2026, e contará com muita ajuda para convencer os brasileiros desta mentira.