Política

Os taxistas e a honra dos desonrados

'Quem diria que o povo não gosta de censores, tiranos e lobistas fantasiados de magistrados'

Ministros Gilmar Mendes, Cármen Lúcia, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, no STF, em sessão realizada em 11/02/2025 | Foto: Antonio Augusto/STF
Ministros Gilmar Mendes, Cármen Lúcia, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, no STF, em sessão realizada em 11/02/2025 | Foto: Antonio Augusto/STF

Há algo de romântico na cena retratada pelo Poder360: ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) recolhidos em conclave para deliberar o destino de Dias Toffoli no caso Master, pesando custos políticos como se discutissem a administração de um espólio familiar.

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Como tem sido comum naquela edificação cuja função já não se sabe qual é — a ponto de manifestantes já a terem confundido com um sanitário —, o direito passou longe da reunião secreta. Nada de autos, provas ou teses jurídicas: tratava-se de avaliar danos, medir desgaste e decidir se valeria a pena oferecer um colega em holocausto simbólico para salvar a fachada do templo.

No meio da conversa, deu-se a revelação sociológica do século. Cármen Lúcia teria observado que “todo taxista” fala mal do Supremo e que a população está contra a Corte. A descoberta é comovente. Depois de anos discursando sobre pedagogia democrática, combate à desinformação e defesa das instituições, a ministra constatou — pela via empírica do banco traseiro — que o prestígio do tribunal evaporou. Quem diria que o povo não gosta de censores, tiranos e lobistas fantasiados de magistrados.

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A surpresa beira o sublime. Em 2023, o ex-desembargador Sebastião Coelho afirmou, da tribuna do próprio Supremo, que os ministros eram “as pessoas mais odiadas do país”. A resposta veio com a húbris quase lisérgica de Alexandre de Moraes: isso era coisa de “uma minoria extremista”. A imprensa cortesã, sempre pronta a oferecer flores ao poder, garantiu que o amor popular permanecia intacto — bastava não ouvir os taxistas.

Carmem Lúcia — a eterna musa do “Estado excepcionalíssimo de direito” — lembra Anna Karenina, no instante em que percebe que a chama de Vronski vacila e que o mundo, antes rendido ao seu encanto (ao menos foi isso que prometeu a GloboNews), agora a observa com frieza. A diferença é que, no drama russo, havia ao menos grandeza trágica; aqui, há apenas autocomiseração institucional.

Resta que o espelho, esse personagem implacável dos contos de fada, não costuma mentir por muito tempo. A erosão da confiança pública já estava registrada em pesquisas e, sobretudo, no senso comum. O brasileiro comum — taxistas, motoristas de aplicativo, feirantes, caixas de supermercado, cabeleireiros e manicures — há muito percebera que ali já não havia juízes, mas atores políticos, administradores de narrativas, estrategistas de ocasião.

Flávio Dino, em sessão no STF - 11/02/2026 | Foto: Victor Piemonte/STF
Flávio Dino, em sessão no STF – 11/02/2026 | Foto: Victor Piemonte/STF

Como confessou o comunista Flávio Dino em seu discurso pró-blindagem de Toffoli, o que era Corte virou, na melhor das hipóteses, um clube: “Eu sou STF Futebol Clube”, disse o “Rocambole do Inferno” (mais um apelido que revela o carinho do povo por seus magistrados).

Agora, cogita-se sacrificar o Barão de Tayayá para restaurar a estima perdida — como se o problema fosse o amante errado, não a relação inteira. A omertá vacila, e a Suprema Corte descobre, como a Rainha Má, que o encanto acabou. Os taxistas têm razão. Espera-se apenas que também eles não sejam presos por “atentar contra o Estado democrático de dinheiro” ou afrontar a pretensa honra dos desonrados.

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