Carnaval
Bateria da Beija Flor no desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro em 2025. (Foto: Tomaz Silva / Arquivo / Agência Brasil)

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Filas de espera por atendimento médico, falta de vagas em creches e déficit habitacional são problemas crônicos de vários municípios do país – o que pode ser confirmado no Ranking das Cidades elaborado pela Gazeta do Povo. Ainda assim, uma parte significativa dos investimentos do poder público que poderia ser destinada à infraestrutura segue sendo destinada para o Carnaval. 

Vem sendo assim ao longo dos anos e não é diferente em 2026. Em uma apuração em portais oficiais de transparência, editais públicos e registros de execução orçamentária, a reportagem encontrou pelo menos R$ 700 milhões vindos dos cofres públicos para financiar o carnaval. 

O montante, uma mera estimativa parcial, leva em conta despesas de prefeituras, governos estaduais e do governo federal. Quando comparado a parâmetros médios de políticas públicas permanentes, o montante destinado à festa revela seu peso orçamentário. Com recursos dessa ordem, seria possível construir centenas de unidades básicas de saúde ou escolas públicas, além de milhares de moradias populares, segundo estimativas baseadas em custos praticados por programas federais e estaduais. 

As comparações não indicam redirecionamento automático de verbas, mas evidenciam o custo de oportunidade associado às escolhas feitas pelo poder público. A comparação não invalida a política cultural, mas permite ao cidadão avaliar as prioridades orçamentárias de governos pelo país. 

Volumes elevados em diferentes regiões 

O montante próximo aos R$ 700 milhões é menor que o valor total gasto pelo governo (em todas as esferas) para financiar Carnaval. O levantamento da Gazeta do Povo considera apenas os gastos de 16 estados, 14 municípios e, de forma incompleta, o governo federal. 

Na Região Norte, o Amazonas concentra R$ 23 milhões em investimentos públicos: R$ 13 milhões do Governo do Estado, R$ 8 milhões da Prefeitura de Manaus e R$ 2 milhões da Prefeitura de Parintins. No Pará, o investimento identificado soma R$ 3,8 milhões, com recursos do Governo Estadual e da Prefeitura de Belém. 

No Nordeste, os valores são mais expressivos. Em Pernambuco, os investimentos públicos anunciados para o Carnaval 2026 ultrapassam R$ 110 milhões, somando recursos do Governo do Estado, da Prefeitura do Recife e da Prefeitura de Olinda. Na Bahia, o Governo Estadual informou aportes de R$ 135 milhões, enquanto a Prefeitura de Feira de Santana anunciou R$ 20 milhões, elevando o total estadual para cerca de R$ 155 milhões. 

No Maranhão, os recursos chegam a R$ 42 milhões, combinando investimentos do Governo do Estado e da Prefeitura de São Luís. Além da festa popular, o dinheiro alimentou uma disputa entre os governos municipal e estadual pela Avenida Beira-Mar de São Luís, capital do estado. No local, as duas esferas de governo brigaram para ver quem poderia instalar as estruturas e – importante em um ano eleitoral – as placas de identificação sobre quem fez o quê. 

No Ceará, dados consolidados pelo Tribunal de Contas do Estado apontam R$ 82 milhões em gastos declarados por municípios, sobretudo com cachês artísticos e estrutura de eventos. Em Santa Catarina, o investimento do governo estadual no Carnaval em ligas e escolas de samba de sete municípios, incluindo a capital Florianópolis, foi de R$ 10,750 milhões.

No Sudeste, o Rio de Janeiro aparece entre os maiores volumes: R$ 12 milhões do Governo Federal, R$ 40 milhões do Governo Estadual, R$ 25,8 milhões da Prefeitura do Rio e R$ 8 milhões da Prefeitura de Maricá, totalizando R$ 85,8 milhões. Em São Paulo, a Prefeitura destinou R$ 70,5 milhões, sendo R$ 2,5 milhões para o Carnaval de rua e R$ 68 milhões em subsídios às escolas de samba. 

Em Minas Gerais, o Carnaval de Belo Horizonte conta com múltiplas fontes públicas, que somam R$ 53,9 milhões, incluindo recursos federais, estaduais, municipais e de empresa estatal. No Centro-Oeste, Goiás aparece com R$ 20,45 milhões, enquanto Mato Grosso e Mato Grosso do Sul somam pouco mais de R$ 4,7 milhões em investimentos estaduais. 

O que poderia ser construído com o dinheiro do Carnaval 

A Gazeta do Povo estimou – com base no custo médio estimado praticado no país – o que seria possível construir em infraestrutura permanente com os mesmos R$ 700 milhões direcionados para o Carnaval. As cifras não incluem o custeio com pessoal nem com manutenção. 

Investidos na Saúde, os recursos para o Carnaval seriam suficientes para construir e equipar cerca de 200 Unidades Básicas de Saúde (UBS). Essas instalações têm uma capacidade potencial de atendimento básico para uma população próxima de 1,4 milhão de pessoas, a depender da estrutura da unidade. 

Outra possibilidade seria a construção de Unidades de Pronto Atendimento (UPA). Nesta modalidade, os cerca de R$ 700 milhões seriam suficientes para, no mínimo, 58 estruturas. No caso de unidades mais simples, o número de upas poderia passar das 85, o que é suficiente para criar uma rede regional de urgência e emergência em vários estados brasileiros. 

Na área da Educação, o dinheiro do Carnaval poderia erguer quase 140 escolas públicas para atender estudantes do Ensino Fundamental. Dependendo do porte dos colégios, o potencial de atendimento chega a 110 mil alunos. 

Para as crianças em fase pré-escolar, a mesma verba ajudaria a reduzir as filas por vagas em creches, já que os R$ 700 milhões poderiam ser utilizados na construção de até 230 centros de Educação Infantil. 

Famílias que querem ou precisam sair do aluguel e dependem de programas habitacionais como o Minha Casa Minha Vida poderiam ter à disposição algo entre 3,8 mil e 4,9 mil casas dentro da Faixa 1 do programa. Isso seria suficiente para atender até 20 mil pessoas, levando em conta uma média de 4 pessoas por família. 

O volume de recursos chama atenção não apenas pela magnitude, mas também pelo contexto. Os gastos ocorrem em ano eleitoral, período em que governadores e prefeitos enfrentam restrições legais para ampliar despesas ou promover ações institucionais que possam gerar vantagem política. Ainda assim, os investimentos no Carnaval avançaram em diferentes estados e municípios, concentrando-se principalmente nos maiores polos da festa, como Rio de Janeiro, Bahia, Ceará e São Paulo. 

Os valores públicos destinados ao Carnaval 2026 incluem repasses diretos a escolas de samba e blocos, contratos para montagem de estruturas temporárias, reforço na segurança pública, serviços de limpeza urbana e programas de fomento cultural. Parte significativa dessas despesas foi empenhada e paga nos meses que antecederam a folia, conforme os registros oficiais. 

O peso do calendário eleitoral 

Embora não haja vedação legal explícita ao financiamento de eventos culturais em ano eleitoral, o contexto dos investimentos públicos no Carnaval amplia o escrutínio sobre a finalidade e os critérios de distribuição dos recursos. A legislação eleitoral proíbe a promoção pessoal de agentes públicos e impõe limites à publicidade institucional, o que faz com que grandes eventos financiados pelo poder público passem a ser observados sob a ótica do possível impacto político. 

Tribunais de Contas e Ministérios Públicos costumam intensificar fiscalizações em anos eleitorais, sobretudo quando há crescimento expressivo de despesas em relação a anos anteriores ou quando os investimentos se concentram em regiões estratégicas do ponto de vista político. 

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Carnaval pode trazer retorno bilionário em gastos no turismo 

Quem defende os investimentos públicos no Carnaval geralmente aposta todas as fichas na movimentação econômica que o turismo proporciona. E as cifras são astronômicas. É o caso da previsão da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), que estima um crescimento recorde nas receitas geradas pela festa popular. 

Apostando em um crescimento de 3,8% em relação ao Carnaval de 2025, a entidade contabilizou um retorno potencial de quase R$ 14,5 bilhões em todo o país. 

“Se isso se confirmar, representa, na prática, a criação de quase 40 mil vagas de emprego temporárias no país”, estimou o professor de Economia da PUC-PR e doutor em Desenvolvimento Econômico Lucas Dezordi. 

O otimismo do setor é impulsionado pelo fluxo recorde de turistas estrangeiros principalmente nos grandes centros da folia. Só no Rio de Janeiro, o desfile das Escolas de Samba atraiu estrangeiros de mais de 160 países. Hospedagem, alimentação e lazer movimentaram quase R$ 9 bilhões em 2025 na capital fluminense. 

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