Quem era Ali Khamenei, líder supremo do Irã morto após ataques dos EUA e de Israel

Khamenei dominou o Irã desde que assumiu o poder em 1989, sucedendo o fundador da república islâmica, o aiatolá Ruhollah Khomeini

  • Por Jovem Pan*
  • 28/02/2026 22h49 - Atualizado em 28/02/2026 22h50
Foto por CARLOS JASSO / AFP Manifestantes queimam imagens do aiatolá Ali Khamenei durante um protesto em solidariedade à revolta iraniana, organizado pelo Conselho Nacional da Resistência do Irã, em Whitehall, no centro de Londres, em 11 de janeiro de 2026, para protestar contra a repressão do regime iraniano ao acesso à internet e "reconhecer seu direito à autodefesa contra as forças do regime". Pelo menos 192 pessoas foram mortas em duas semanas de protestos contra o governo e a crise econômica no Irã, disse um grupo de direitos humanos no domingo, um aumento acentuado em relação ao número anterior de 51 mortos. Manifestantes queimam imagens do aiatolá Ali Khamenei durante um protesto em solidariedade à revolta iraniana, organizado pelo Conselho Nacional da Resistência do Irã, em Whitehall, no centro de Londres, em 11 de janeiro de 2026

O líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, cuja morte foi anunciada neste sábado (28) pelo presidente americano, Donald Trump, foi um estrategista habilidoso que nunca hesitou em recorrer à repressão e que superou muitas crises à frente do sistema teocrático da república islâmica.

Até a publicação deste texto, o Irã não havia confirmado o falecimento do dirigente de 86 anos, mas Donald Trump publicou em sua rede Truth Social que “Khamenei, uma das pessoas mais perversas da história, está morto”.

Khamenei dominou o Irã desde que assumiu o poder em 1989, sucedendo o fundador da república islâmica, o aiatolá Ruhollah Khomeini.

Ao longo de décadas, reprimiu brutalmente uma série de protestos, como a mobilização estudantil de 1999, as manifestações em massa desencadeadas em 2009 por eleições presidenciais controversas e uma onda de contestação em 2019.

Sempre com turbante preto e uma espessa barba branca, Khamenei também sufocou duramente o movimento “Mulher, Vida, Liberdade” de 2022-2023, desencadeado pela morte de Mahsa Amini, detida por supostamente infringir o rígido código de vestimenta imposto às mulheres.

O líder supremo teve que se esconder durante a guerra de 12 dias em junho de 2025 provocada por um ataque sem precedentes de Israel, seu inimigo ferrenho, que evidenciou a profunda penetração dos serviços de inteligência israelenses nas estruturas iranianas.

Mas ele sobreviveu à guerra e, diante da nova onda de protestos que sacudiu o país no início deste ano e cuja repressão resultou em milhares de mortos, segundo várias ONGs, apareceu desafiador como nunca.

‘Descontentamento público’

Em um contexto de ameaça constante de ataques israelenses ou americanos, o líder supremo, conhecido por levar uma vida simples e sem luxos, esteve ultimamente sob alta proteção.

Suas aparições públicas, relativamente pouco frequentes, nunca eram anunciadas com antecedência nem transmitidas ao vivo.

Nunca saiu do país desde que assumiu o poder, assim como o aiatolá Khomeini, que retornou ao Irã vindo da França durante a revolução islâmica de 1979.

Sua última viagem conhecida ao exterior remonta a 1989, quando era presidente, para uma visita oficial à Coreia do Norte.

Durante muito tempo se especulou sobre sua saúde, dada sua idade. Tinha o braço direito paralisado desde que sobreviveu a uma tentativa de assassinato em 1981, que as autoridades sempre atribuíram a um grupo agora ilegalizado de antigos aliados da revolução.

Ativismo

Khamenei, filho de um imã, nasceu em uma família pobre. Seu ativismo político contra o xá Reza Pahlavi, apoiado pelos Estados Unidos, fez com que passasse grande parte das décadas de 1960 e 1970 na prisão.

Sua lealdade ao aiatolá Khomeini foi recompensada em 1980, quando lhe foi confiada a importante tarefa de dirigir as orações de sexta-feira em Teerã.

Eleito presidente um ano depois, após o assassinato de Mohammad Ali Rajai, inicialmente não era considerado o sucessor natural de seu mentor.

No entanto, pouco antes de sua morte, este último destituiu o favorito, o aiatolá Hossein Montazeri, que havia denunciado as execuções em massa de membros do grupo Mujahedin do Povo e outros dissidentes.

Os Mujahedin do Povo foram aliados da Revolução, mas atualmente estão proibidos no país. A essa organização é atribuído o assassinato de Rajai.

Após a morte de Khomeini, Khamenei inicialmente rejeitou, em um episódio que se tornou famoso, sua designação como líder pela Assembleia dos Peritos — o mais alto órgão clerical da República Islâmica — antes que os religiosos se levantassem para ratificar sua nomeação.

Desde então, seu controle sobre o poder nunca diminuiu e, pelo contrário, reforçou a ideologia radical do sistema, incluindo o confronto com o “Grande Satã” americano e a recusa em reconhecer a existência de Israel.

Khamenei trabalhou com seis presidentes eleitos, um cargo muito menos poderoso que o de líder supremo.

Embora em alguns casos lhes tenha sido permitido tentar realizar reformas cautelosas e uma aproximação com o Ocidente, no final Khamenei sempre se colocou ao lado dos partidários da linha dura.

Acredita-se que tenha seis filhos, embora apenas um, Mojtaba, tenha relevância pública. Ele foi sancionado pelos Estados Unidos em 2019 e é uma das figuras mais poderosas nos bastidores no Irã.

*AFP