Trump e a arte da manipulação: como a 'loucura' encobre a estratégia geopolítica
Presidente dos EUA não está jogando para ser aprovado pela banca examinadora da moralidade contemporânea, mas para vencer a Segunda Guerra Fria contra o eixo autocrático

Por Yuri Quadros e Kleberson Amaral
Há pouco mais de uma semana, em 6 de fevereiro, o ciclo de notícias global foi sequestrado por mais uma “bomba” vinda de Mar-a-Lago: um vídeo postado na rede social de Donald Trump retratava, entre outros deboches, Barack e Michelle Obama como macacos. A reação foi instantânea, visceral e, acima de tudo, previsível. Do New York Times aos liberais do Brasil, o coro foi uníssono em denunciar o racismo abjeto, a clara quebra do decoro litúrgico da presidência e a decadência moral do líder do mundo livre. Eles não estão errados sobre o conteúdo — é grotesco e não cabe a um presidente. Mas, ao focarem obsessivamente na ofensa moral, eles cometem um erro fatal de análise estratégica: morderam a isca. De novo.
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Enquanto a inteligentzia ocidental gastava suas energias redigindo notas de repúdio e dissecando a psique “instável” de Trump, a máquina do Estado americano operava livre de escrutínio em teatros muito mais perigosos. Pouco se perguntou para onde o grupo de ataque do porta-aviões USS Abraham Lincoln — uma armada com poder de fogo superior a maioria das nações — estava se deslocando naquele exato momento para fechar o cerco ao Irã.
Mais importante: a cobertura da assinatura, no mesmíssimo dia 6 de fevereiro, da ordem executiva que estabelece a “Estratégia de Transferência de Armas América Primeiro” foi pequena. Enquanto o mundo discutia memes, Washington impunha silenciosamente uma nova doutrina de “alinhamento forçado”: aliados que querem defesa americana agora terão que integrar suas cadeias industriais à base de produção dos EUA, criando uma dependência tecnológica irreversível.
O que os analistas de etiqueta chamam de loucura, senilidade ou puro preconceito, a doutrina militar russa chama de Maskirovka: a arte da decepção e da camuflagem militar. Na era da informação, a camuflagem não vem do silêncio, ou do ficar escondido perfeitamente; é o ruído que distrai, o objeto brilhante que chama atenção numa mão enquanto a outra age. Trump não tuíta barbaridades apenas porque perdeu o controle, ele parece o fazer para saturar a largura de banda cognitiva de seus adversários, inundando todo panorama com informações.
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Há uma cegueira peculiar que aflige a elite liberal, especialmente no Brasil. Viciados na forma, eles são incapazes de enxergar a substância. O historiador Niall Ferguson tem descrito esse fenômeno com precisão — em diversos podcasts e artigos — ao analisar o episódio em que Trump sugeriu comprar a Groenlândia.
Na época, a reação foi de riso e escárnio. “Ele não sabe que países não estão à venda no século 21?”, zombaram os especialistas reunidos em Davos. O que eles não viram foi o Big Picture. A “loucura” da Groenlândia serviu como uma enorme operação de distração. Enquanto o mundo olhava para o Ártico, a administração americana movia ativos navais estratégicos para o Golfo Pérsico para pressionar o Irã e enviava emissários para negociar estruturas de paz com a Rússia, longe dos holofotes. Durante toda a semana em Davos, Trump e sua equipe não foram questionados uma única vez sobre o Irã. A Groenlândia cumpriu seu papel.

Trump aplica o conceito soviético de controle reflexivo: ele transmite uma informação (o post racista, a compra da Groenlândia, a anexação do Canadá) sabendo exatamente como o oponente e a grande mídia reagirão. Ele encontrou a brecha no sistema operacional das elites: elas não resistem a um escândalo estético. Ao oferecer o absurdo, ele garante que a oposição perca tempo e capital político debatendo símbolos e moralidade, enquanto ele move as peças de aço e pólvora no tabuleiro real.
Essa abordagem fria se estende à sua doutrina de uso da força, que rompe radicalmente com o passado recente. É crucial entender a distinção que Ferguson faz entre “mudança de regime” (regime change) e “alteração de regime” (regime alteration). O modelo neoconservador da era Bush — o da “mudança de regime” — era idealista e messiânico. Pressupunha invadir países, derrubar ditadores e gastar trilhões em nation-building para tentar transformar o Iraque ou o Afeganistão em democracias liberais. Trump e sua base desprezam essa abordagem.
A doutrina Trump é a “alteração de regime”. Ela é transacional, limitada e de uma brutalidade que quebra a cabeça de ideólogos irrealistas. A captura de Nicolás Maduro em janeiro de 2026 ilustra isso perfeitamente. Não houve interesse em engenharia social ou em instalar urnas eletrônicas auditáveis em Caracas. A lógica foi simples: remove-se o chefe hostil não para “libertar o povo”, mas para neutralizar uma ameaça no quintal. Ao sucessor ou ao “número dois” do regime, a oferta é binária e despida de moralismo: “Você pode ir para a cadeia também, ou pode cooperar conosco… mas você se reporta a nós agora, não aos chineses”. É uma transação de proteção. O objetivo é a reorientação geopolítica, não a demagogia democrática (embora, como observado, há também alinhamento nessa área, ainda que discreto, como a anistia).

Para que essa engrenagem de coerção funcione sem iniciar uma guerra, a reputação de “louco” é um ativo estratégico vital. Richard Nixon tentou usar a “teoria do louco” (Madman theory) para assustar soviéticos e vietnamitas, mas falhou porque seus adversários sabiam que, por trás da retórica, havia um político racional e calculista. Com Trump, a imprevisibilidade é genuína. Trump cumpre cerca de metade das ameaças que faz, mas ninguém sabe quando isso acontecerá. Maduro certamente não acreditou na ameaça vinda da Casa Branca, mas no mês passado ganhou uma passagem só de ida para os EUA. Estatisticamente, isso cria um dilema insolúvel para os planejadores em Pequim, Moscou, Teerã e até Havana.
Se Trump ameaça tarifas de 100% sobre o México ou “fogo e fúria” contra um adversário, o outro lado sabe que há 50% de chance de ser apenas bravata de campanha. Mas há 50% de chance de ser real. E, diante do poderio militar e econômico americano, pagar para ver se a moeda cai do lado errado carrega um risco existencial inaceitável. A “loucura” restaura a dissuasão. Para o Brasil, resta a urgência de amadurecer a análise. A imprensa nacional e os analistas de política externa precisam abandonar a adolescência intelectual. Ficar preso ao “ele é racista”, “ele é grosso” ou “ele elogiou o Lula” é demonstrar uma incapacidade profunda de compreender o jogo do poder global (do qual o Brasil tem potencial real de ser grande um player).
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O mundo voltou a ser um lugar onde a força dita o direito e onde a etiqueta diplomática é apenas uma cortina para a realpolitik. Trump não está jogando para ser aprovado pela banca examinadora da moralidade contemporânea ou para ganhar aplausos em jantares em Davos. Ele está jogando para vencer a Segunda Guerra Fria contra o eixo autocrático. E enquanto continuarmos rindo dos seus memes e nos escandalizando com sua falta de modos, continuaremos sendo atropelados pela sua estratégia.
Yuri Quadros e Kleberson Amaral são diretores do Instituto Aliança.

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