Tumulto no Carnaval não é azar, é falha na gestão de segurança do cidadão

Se a ambulância não passa, não é festa e mostra falha de gestão pública de segurança do cidadão

  • Por Helena Degreas
  • 19/02/2026 15h25
ROBERTO SUNGI/ATO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO Bloco Acadêmicos do Baixo Augusta SP - PRÉ-CARNAVAL 2026/SP/BLOCO ACADÊMICOS DO BAIXO AUGUSTA - GERAL - Milhares de foliões acompanham o desfile do bloco Acadêmicos do Baixo Augusta, que arrasta foliões na Rua da Consolação, na região central da Cidade, na tarde deste domingo, 8 de fevereiro de 2026, pré-carnaval 2026. 08/02/2025 - Foto: ROBERTO SUNGI/ATO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Um vídeo publicado pela Jovem Pan News mostrou que não havia corredor de emergência na Rua da Consolação no domingo, 8 de fevereiro de 2026. Sem circulação para socorro, o evento já havia ultrapassado o limite seguro antes da primeira música começar. Garanto ao leitor que isso não é azar e mostra que o planejamento da prefeitura falhou de cara.

Discussões sobre eventos em espaços públicos resumem-se entre as frases aleatórias como “foi um sucesso” e “deu problema”. Entre uma e outra existe um tema técnico raramente tratado com o peso merecido e, quando ignorado, recai sobre o cidadão.

Dois megablocos se encontraram, houve tumulto, gente pressionada contra grades, atendimento a foliões no local. O Ministério Público poderia abrir investigação técnica incluindo análises relacionadas à Teoria de Comportamento associadas à superlotação, cenário conhecido por profissionais acostumados a ruas cheias: pessoas inconscientes e uma multidão capaz de perder discernimento sob calor e aperto.

 
Ver essa foto no Instagram
  Um post compartilhado por Jovem Pan NEWS (@jovempannews)


Isento as festas do carnaval de qualquer culpa. A realidade é clara: prefeituras ainda relutam em tratar eventos em espaço público como operações urbanas temporárias. O visível é improviso, nota oficial e grades, inúmeras grades.

Nos comunicados oficiais, além de discursos sobre arrecadação e turismo e alguns passinhos das autoridades, dados, previsão, diagnóstico e gatilhos de intervenção pública brilham pela ausência. Quando a rua colapsa, o poder público costuma empurrar o problema para a PM. Polícia militar, porém, é outra coisa: força de contenção, jamais plano de operação urbana. Sem rotas de respiro, corredor de emergência e protocolo definido, a intervenção vira improviso — e spray de pimenta em multidão comprimida tende a aumentar desorientação e empurra- empurra.

Capacidade funcional não se resume a metragem. Trata-se do conjunto de condições necessárias para o espaço público, rua, praça, calçada, manter legibilidade, fluxo e respiro sob alta demanda. Uma avenida colapsa com gargalos de acesso ao metrô, travessias mal resolvidas, calçadas sem largura, mobiliário convertido em obstáculo, serviços concentrados como banheiro, água, atendimento médico e poucas rotas laterais. O colapso começa pela
perda de continuidade do fluxo: paradas no eixo, contrafluxos, empurra-empurra. A partir daí, qualquer variável — calor, álcool, atraso de trio, mudança de trajeto — vira multiplicador de risco.

Há um componente comportamental nisso, e ele também é técnico. Quando a pessoa sente que perdeu autonomia (não consegue sair), competência (não entende para onde ir) e vínculo (separou-se do grupo), a rua deixa de ser festa e vira ameaça. A reação coletiva muda rápido gerando mais ansiedade, mais empurrão, mais decisões de risco. Por isso, comunicação, sinalização e desenho de fluxo não são apenas “apoio”, são infraestrutura.

O corpo de bombeiros já trabalha com orientação municipal para cálculo de lotação e escoamento em eventos temporários, exigindo plano de emergência com alternativas de fuga por setor. O arcabouço técnico e legal existe e vale para empresas promotoras de eventos privados de porte equivalente, obrigadas a cumprir exigências de dimensionamento, rotas de fuga e plano de abandono.

A pergunta é simples: se o poder público exige esse rigor do setor privado, por qual razão omite-se em aplicar a mesma lógica aos eventos por ele próprio autorizados, patrocinados ou viabilizados inclusive os bancados por marcas de bebidas, com receita garantida e capacidade de planejamento?

Falta levar esse arcabouço a sério para megaeventos e para todo evento autorizado, em toda praça, de todo porte, sem exceção. A variável é a relação entre demanda e capacidade funcional do espaço, traduzida em medidas concretas: planejar por trechos, à margem de estimativas de público; definir gatilhos operacionais antes do início, de modo a acionar controle de acesso e abrir rota alternativa quando a densidade ultrapassar o limite, porque a ausência de gatilho, faz a intervenção chegar tarde e brusca, e é justamente essa a situação a responsável pela reação de manada; criar espécie de válvulas de escape e pontos de reagrupamento em ruas laterais; distribuir água, banheiros e atendimento como gestão de fluxo; padronizar sinalização com equipe nos cruzamentos; e produzir relatório pós-evento, sob pena de o município repetir o mesmo erro com mais estrutura e a mesma fragilidade.

O ocorrido na Consolação e em outros eventos pelo país não é fruto do azar. É previsível quando a capacidade do espaço fica abaixo da demanda e quando se autoriza sem garantir condições de segurança. Autorizar sem planejar é transferir o risco para o folião.

O direito de ocupar a rua inclui uma obrigação institucional: garantir a continuidade da rua legível, respirável e segura mesmo com a cidade inteira reunida nela. Quando isso falha, a expressão correta é falha de gestão pública.

*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.