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O anúncio de R$ 2,5 bilhões para a construção de dois túneis no Morro dos Cavalos, na BR-101, em Santa Catarina, ampliou o confronto entre os governos estadual e federal. O governador Jorginho Mello (PL) e o ministro dos Transportes, Renan Filho (MDB), disputaram a narrativa sobre quem, de fato, lidera o ciclo de obras rodoviárias no estado e quem está pagando por elas.
A intervenção no km 232 da rodovia BR-101, em Palhoça, será viabilizada por meio de reajustes tarifários de pedágio, com previsão de início em até 12 meses e conclusão estimada para 2029. Ao defender o pacote federal, Renan Filho subiu o tom e atribuiu à União as principais obras em estradas catarinenses.
“O governo do estado não tem obra. As maiores obras que acontecem são todas federais”, alegou o ministro de Lula (PT) durante o anúncio da construção dos túneis, em janeiro.
Ausente no evento, o governador catarinense rebateu a fala publicamente em Forquilhinha, no sul do estado. “Se fizer [a obra dos túneis], eu vou bater palma”, reagiu Jorginho.
Em seguida, contestou a narrativa federal. “Se ele diz que Santa Catarina não fez obra é porque não mora aqui. Só de estradas, fizemos cerca de 3 mil quilômetros. O governo federal não fez isso no Brasil inteiro".
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Se o governo federal reivindica protagonismo nas grandes obras estruturantes, o Executivo estadual sustenta que promove o "maior ciclo de investimentos" realizado em rodovias de Santa Catarina. De acordo com dados da Secretaria de Estado da Infraestrutura e Mobilidade (SIE), os aportes em obras estruturantes, revitalizações, conservação e manutenção chegam a R$ 5,15 bilhões.
O valor propagado pela gestão Jorginho Mello aponta para um avanço em relação aos três anos da administração estadual anterior. Entre 2019 e 2022, os investimentos em obras em rodovias catarinenses somaram R$ 1,96 bilhão, conforme a pasta atual. Entre 2023 e 2025, a informação oficial dá conta que foram investidos R$ 4,36 bilhões — do total de R$ 5,15 bilhões previstos no programa "Estrada Boa".
De acordo com a pesquisa CNT Rodovias, realizada pela Confederação Nacional dos Transportes, em 2023 cerca de 28% da malha estadual (incluindo trechos estaduais e federais) era classificada como em condição "ótima" ou "boa". Em 2025, esse índice subiu para 36,8%.
Especificamente em relação à malha estadual, ao fim do ano passado, 84% das estradas pavimentadas (5,3 mil quilômetros de um total de 6,3 mil) recebeu a classificação de "ótima" ou "boa", segundo levantamento da própria secretaria de Jorginho Mello.
O programa estadual voltado a rodovias contabiliza 60 obras concluídas, 50 em andamento e 25 a inaugurar, totalizando 135 obras com recursos estaduais em rodovias catarinenses.
Desde o lançamento, em agosto de 2023, foram 2.130 quilômetros de projetos, com intervenções diretas em 1.037 quilômetros de rodovias. Parte do financiamento inclui US$ 375 milhões captados no exterior, sendo US$ 75 milhões de contrapartida estadual.

Algumas das principais obras estaduais em execução em SC
Entre as frentes consideradas estratégicas para logística e mobilidade estão:
- SC-108 Guaramirim–Massaranduba: duplicação de 15,02 km (R$ 238,4 milhões);
- SC-108 Urussanga–Criciúma–Cocal do Sul: revitalização e aumento da capacidade em 16,42 km (R$ 231,9 milhões);
- SC-486 Rodovia Antônio Heil: pavimentação e interseção com a BR-101 (R$ 62,81 milhões);
- SC-120 Meio-Oeste: revitalização de 54,1 km (R$ 199,6 milhões);
- SC-350 Lotes 1 e 2: implantação e pavimentação no Oeste (R$ 247 milhões);
- SC-160 Extremo Oeste: revitalização de 23,1 km (R$ 123,7 milhões);
- SC-401 Florianópolis: revitalização e aumento de capacidade em 10,07 km (R$ 55,9 milhões);
- SC-418 Serra Dona Francisca: construção de duas áreas de escape (R$ 42,9 milhões);
- SC-370 Serra do Corvo Branco: implantação e pavimentação (R$ 72,2 milhões);
- SC's 150 e 390 Piratuba, Capinzal e Zortéa: revitalização com aumento da capacidade (R$ 94 milhões);
A gestão de Jorginho Mello também lançou em julho de 2025 o "Estrada Boa Rural", que prevê a pavimentação de 2,5 mil quilômetros de estradas municipais, com investimento total de R$ 2,5 bilhões. Metade dos recursos será transferida diretamente aos municípios e a outra metade financiada via Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) e Agência de Fomento de Santa Catarina S.A. (Badesc), com juros e correções pagos pelo estado.
Em paralelo às obras estaduais, a administração do PL ampliou transferências diretas às prefeituras. No ano passado, foram R$ 858,8 milhões repassados por meio de 721 convênios pagos.
Rodovias federais concentram os corredores estratégicos — e principais gargalos
Se a malha estadual avança em ritmo acelerado, os principais corredores logísticos de Santa Catarina continuam sob responsabilidade federal — e é justamente nesses trechos que se concentram os gargalos estruturais mais sensíveis à economia.
Levantamento do Monitora Fiesc, plataforma da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc) que acompanha cronogramas e execução física das obras, mostra que vários contratos apresentam percentual elevado de execução, mas permanecem classificados como de “andamento comprometido” ou com prazos expirados.
O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) informou que as obras federais em rodovias catarinenses seguem em andamento, com diferentes estágios de execução física e financeira:
BR-285/SC – Serra da Rocinha
As obras emergenciais no km 50, em Timbé do Sul, recebem investimento de R$ 57 milhões para contenção de encosta de cerca de 50 metros, com cortinas atirantadas e telas de alta resistência. A cortina superior, com 6,8 metros, foi concluída e a inferior, com 5,0 metros, está em fase final. O contrato inclui pavimentação de 160 metros e a entrega está prevista para março de 2026.
BR-470
Debatida desde o início dos anos 2000 e com o primeiro documento formal assinado em 2013, a duplicação da BR-470 tornou-se um símbolo dos entraves federais em Santa Catarina. O trecho de 73 quilômetros entre Navegantes e Indaial — dividido em quatro lotes — integra o principal corredor de ligação entre o Oeste, o Meio-Oeste e os portos de Itajaí e Navegantes, além do aeroporto internacional.
O Dnit informou, em janeiro, que 85% dos serviços estão concluídos, com 62 quilômetros duplicados e liberados. Ainda restam 11 quilômetros de pista e sete viadutos. Dos 27 viadutos previstos, 20 foram entregues.
A previsão é concluir os lotes 1 e 2 em 2026 e os lotes 3 e 4 em 2027. O investimento total informado chega a R$ 1,58 bilhão. Em dezembro de 2025, o Dnit entregou o Viaduto Segalas, em Gaspar, com investimento de R$ 17,5 milhões via Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Também foram concluídos o Viaduto Fortaleza e o Complexo Badenfurt, ambos em Blumenau. Ainda assim, a obra completa segue sem data definitiva de entrega. Questionado pela Gazeta do Povo, em janeiro, sobre os fatores que explicam os atrasos acumulados ao longo de mais de uma década, o Dnit não respondeu.

BR-282
Se a BR-470 é o símbolo dos atrasos, a BR-282 representa o impasse estrutural ainda não resolvido. A rodovia liga Florianópolis ao extremo-oeste e funciona como o principal eixo de escoamento da produção agroindustrial e industrial catarinense.
O corredor reúne mais de 130 mil estabelecimentos industriais e agroindustriais e cerca de 1,3 milhão de empregos, segundo a Fiesc. Apesar da importância econômica, a duplicação segue na fase de projetos. O estudo para o trecho entre Lages e São Miguel do Oeste registra apenas 7% de execução (R$ 2,6 milhões pagos de um total de R$ 37,2 milhões).
O Dnit observa que estão em andamento as obras de adequação de capacidade da BR-282/SC que incluem a construção do viaduto no km 59, em Rancho Queimado. O empreendimento possui investimento de R$ 19 milhões, apresenta 75% de execução e tem prazo de conclusão previsto para agosto de 2026.
Em nota enviada à Gazeta do Povo, em outubro de 2025, o Dnit informou que há 13 lotes com projetos contratados entre Palhoça e São Miguel do Oeste, com investimento estimado superior a R$ 3 bilhões após aprovação final. O órgão também afirma que 70% da rodovia está em boas condições de tráfego e que há frentes de conservação e ampliação em andamento.
Ainda assim, não há previsão concreta para início das duplicações em larga escala. Questionado sobre prazos e eventuais entraves, o Dnit também não respondeu.
BR-163
Com recursos garantidos na Lei Orçamentária Anual de 2026, as obras de adequação e restauração da BR-163 chegaram a 94% de execução e devem ser concluídas em junho. Incluído no Novo PAC, o empreendimento recebe investimento de cerca de R$ 323 milhões e contempla o trecho entre os km 78 e 122, além do acesso ao Porto Internacional de Cargas, em Dionísio Cerqueira. Os trabalhos estão concentrados na travessia urbana de Guaraciaba, com serviços de terraplenagem, drenagem, sinalização vertical e pavimentação dos acessos.
BR-280
As obras de duplicação da BR-280 alcançaram 70% de execução física e financeira. Com 73,9 quilômetros de extensão, a rodovia passa por Jaraguá do Sul, Guaramirim, Araquari, Balneário Barra do Sul, São Francisco do Sul e Schroeder. Incluída no Novo PAC, a obra está dividida em três lotes e tem orçamento estimado em R$ 1,7 bilhão.
- Lote 2.1, entre o entroncamento com a BR-101 e Guaramirim (km 36,6 ao 50,7), com 14,1 km, a execução financeira chegou a 86%, com conclusão prevista para 2026.
- No Lote 2.2, entre Guaramirim e Jaraguá do Sul (km 50,7 ao 74,6), com 23,9 km, a execução financeira atingiu 77% e a previsão de término é 2027. Nesse trecho, foram concluídas interseções nos km 51 e 53 e a passagem superior no km 52, em Guaramirim, além da ponte sobre o Rio Itapocuzinho, no km 61, entre Schroeder e Jaraguá do Sul.
Estão em execução os elevados nos km 64 e 65, em Jaraguá do Sul, e os acessos ao túnel duplo do Morro do Vieira, no km 66. O túnel terá cerca de mil metros em cada sentido, com pavimento de concreto, e foi projetado para reduzir impactos ambientais.

Rodovias catarinenses sobrecarregadas aumentam custo operacional em até 30%
Para o presidente da Fetrancesc (Federação das Empresas de Transporte de Carga e Logística no Estado de Santa Catarina), Dagnor Schneider, o problema estadual no setor rodoviário é estrutural e histórico. De acordo com ele, o estado tem cerca de 7,5 mil quilômetros de rodovias pavimentadas e uma frota superior a 6,5 milhões de veículos.
Isso significa mais de 900 veículos para cada quilômetro pavimentado — praticamente o dobro da densidade registrada no Paraná, que possui quase 20 mil quilômetros pavimentados e frota pouco superior a 9 milhões de veículos. "Santa Catarina tem a menor malha pavimentada do Brasil em relação à densidade de frota. Naturalmente, a mobilidade de pessoas e de cargas é extremamente comprometida”, afirma.
Rodovia BR-101, única duplicada em grande extensão, opera em condição de colapso no trecho norte e é um dos segmentos federais mais perigosos do país.
Embora reconheça que o governo estadual tem investido na recuperação das rodovias sob sua responsabilidade, Schneider ressalta que os principais corredores logísticos estão concentrados na malha federal. Ele cita como eixos estruturantes a BR-101, a BR-470, a BR-280, a BR-282 e a BR-153.
"A BR-101 — única duplicada em grande extensão — opera em condição de colapso no trecho norte e é um dos segmentos federais mais perigosos do país". O setor acompanha com preocupação a redução nos investimentos federais.
De acordo com a Fetrancesc, em 2023 e 2024 os aportes da União em rodovias catarinenses giraram em torno de R$ 1 bilhão por ano. Em 2025, o volume caiu para cerca de R$ 400 milhões e a projeção para 2026 aponta na mesma direção.
Para Schneider, o estado precisaria receber ao menos R$ 1 bilhão anuais de forma contínua para manter as duplicações em andamento e recuperar a malha existente. A precariedade das rodovias eleva o consumo de diesel, aumenta o tempo de deslocamento e reduz a produtividade.
A Confederação Nacional do Transporte (CNT) estima que, nas condições atuais das rodovias catarinenses, o custo operacional do transporte pode ser até 30% maior. “Isso compromete produtividade e competitividade”, afirma.








