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Em uma operação espetacular do ponto de vista militar, na madrugada do último dia 3, o Exército dos Estados Unidos capturou o ditador venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa, Cília Rodríguez, enquanto dormiam na Base Militar de Tiuna, em Caracas.
Neste momento, ambos estão detidos no Centro de Detenção Metropolitana do Brooklyn, em Nova York, onde enfrentarão as acusações existentes contra eles nos EUA, relacionadas ao tráfico de drogas e ao terrorismo.
Não há como subestimar, do ponto de vista político e estratégico, a operação militar batizada de “Absolute Resolve”. Trata-se de uma inédita intervenção militar norte-americana na América do Sul, em um país vizinho ao Brasil, com repercussões claras e imediatas para a política internacional, especialmente para os países latino-americanos.
Não se pode dizer que a ação tenha sido propriamente surpreendente. A enorme concentração de meios militares americanos no Caribe deixava claro, há meses, que uma operação dessa natureza era iminente. Além disso, a intervenção armada está perfeitamente alinhada à prioridade máxima conferida pelo governo Trump às Américas e ao combate ao narcotráfico, conforme previsto na recentemente anunciada Estratégia Nacional de Segurança dos EUA.
No chamado “corolário Trump” à Estratégia, prevê-se exatamente o que acabou de acontecer na Venezuela: a intervenção militar americana para proteger a segurança nacional diante de ameaças percebidas — no caso venezuelano, o tráfico de drogas.
Seria, no entanto, ingenuidade acreditar que a operação destinada a retirar Maduro do poder tenha ocorrido apenas — ou principalmente — em função da questão do narcotráfico.
O próprio presidente Trump, em entrevista concedida após a operação, destacou a importância da indústria petrolífera venezuelana para os Estados Unidos, afirmando que seu país iria recuperar o acesso aos direitos de exploração de petróleo que, segundo ele, foram repetidamente “roubados” dos EUA. Para isso, Trump declarou que os Estados Unidos irão governar a Venezuela por tempo indeterminado, de modo a assegurar que os interesses americanos sejam atendidos.
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O que Trump e seus principais assessores de segurança estão propondo é, na prática, uma espécie de tutela sobre o governo venezuelano, que passa agora a ser formalmente liderado pela vice-presidente Delcy Rodríguez. Ela e seu governo — que, até aqui, são exatamente os mesmos que serviam a Maduro — terão de agir conforme as determinações de Washington, permanentemente sob a ameaça de novas intervenções militares americanas.
É justamente a manutenção do mesmo grupo chavista no poder que torna a situação ainda mais surpreendente para aqueles que esperavam que a ação americana conduzisse a Venezuela a uma rota de retorno à democracia. Seria razoável supor que a queda de Maduro abrisse espaço para uma troca de regime, com a assunção da oposição venezuelana — vencedora, de fato, no último pleito eleitoral.
No entanto, o próprio presidente Trump deixou claro, ao responder a uma pergunta sobre a líder oposicionista Maria Corina Machado, vencedora do último Prêmio Nobel da Paz e hoje a face mais conhecida e influente da oposição venezuelana, que ela — ou alguém de seu grupo, como o vencedor de fato das últimas eleições, Edmundo González — não contará com o apoio americano neste momento.
Maduro era um ditador ilegítimo e sanguinário. Sua queda não causa tristeza a ninguém que professe valores democráticos.
Entretanto, sua prisão, acompanhada da manutenção integral do restante de seu governo, provavelmente não alterará em nada o caráter ditatorial do regime venezuelano
Talvez Trump consiga obter aquilo que deseja do novo governo liderado por Delcy Rodríguez: o controle completo da produção petrolífera venezuelana por empresas americanas e algumas operações vistosas de combate às drogas — que, de resto, representam uma parcela muito pequena do total das drogas que chegam aos Estados Unidos.
Já o retorno da democracia à Venezuela, tudo indica, não esteve entre os objetivos da operação “Absolute Resolve”.
