Cilia Flores, a poderosa mulher de Maduro acusada de empregar mais de 40 parentes. (Foto: Miguel Gutiérrez / (EPA) EFE)

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Esposa do ditador Nicolás Maduro, a advogada Cilia Adela Flores de Maduro, de 69 anos, é uma das figuras mais influentes do chavismo. Presa com ele na ação americana de sábado (3), ela enfrentará os tribunais americanos por acusações de narcotráfico, entre outras acusações.

Chamada de “primeira-combatente” por Maduro — que considerava o cargo de primeira-dama um termo "elitista" —, Cilia foi acusada pelos opositores de ter empregado mais de 40 parentes ao ocupar a presidência da Assembleia Nacional (sendo a primeira mulher a presidir a Casa). Como seu sobrenome de solteira é Flores, o esquema ficou conhecido como o “jardim de Cilia”.

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Na época, ela deixou claro que não se preocupava em negar o nepotismo. “Estou orgulhosa de que sejam minha família” e “defenderia seu trabalho todas as vezes que fosse preciso”, declarou. Alguns parentes foram demitidos após sua saída do cargo em 2012, mas acabaram realocados em outras posições dentro do regime. A influência exercida nos bastidores lhe rendeu apelidos como "Lady Macbeth" ou "Bruxa Escarlate", segundo o jornal El Mundo.

Infância e formação

Cilia nasceu em 15 de outubro de 1956, em Tinaquillo, no estado de Cojedes. Cresceu em uma família de classe média baixa, sendo a mais nova de seis irmãos. Seu pai era mascate e a família mudou-se para Caracas em busca de melhores oportunidades quando ela ainda era criança.

Seu primeiro emprego foi como escrivã em uma delegacia. Formou-se em Direito pela Universidade Santa María, em Caracas, com especialização em Direito Penal e Trabalhista. É católica praticante. Antes de Maduro, Cilia foi casada com Walter Rodríguez, um detetive de polícia com quem teve três filhos.

Cilia conheceu Maduro durante o processo que, em 1994, libertou Hugo Chávez da prisão após a tentativa de golpe de 1992. Enquanto se relacionava com Maduro, “Cilita”, como é carinhosamente chamada por ele, construiu uma carreira política própria: fundou o Movimento Quinta República em 1997 e elegeu-se para a Assembleia Nacional em 2000.

Construção do Poder

Em 2006, tornou-se a primeira mulher eleita presidente da Assembleia Nacional, sucedendo o próprio Maduro, que assumiria o Ministério das Relações Exteriores de Chávez. Os dois só se casariam formalmente em 2013, quase 20 anos após se conhecerem.

Cilia exerceu o cargo posicionando parentes e aliados em postos estratégicos, politizando o sistema judicial e aumentando sua influência. Maduro e Cilia não tiveram filhos juntos. O filho de um relacionamento anterior do ditador, Nicolás Maduro Guerra — o "Nicolasito" — ocupou altos cargos no regime.

Cilia empregou o ex-marido policial, que presidiu a Fundação Negra Hipólita, instituto criado em 2006 por Chávez para ajudar pessoas em situação de vulnerabilidade, e até mesmo a sogra de um dos seus filhos, Magali Viña, que presidiu Instituto Nacional de Serviços Sociais venezuelano.

Os "Narcosobrinhos"

Seus familiares também ganharam as manchetes no caso conhecido como "Narcosobrinos". Os sobrinhos Efraín Antonio Campo Flores e Francisco Flores de Freitas foram presos em novembro de 2015, no Haiti, ao tentarem transportar centenas de quilos de cocaína que tinham como destino os EUA. Eles foram condenados em 2016 por tráfico de drogas. O aliado Diosdado Cabello classificou a ação como um "sequestro" realizado pela DEA (departamento antidrogas americano).

Judiciário dominado

Cilia também foi acusada de controlar cortes superiores ao lado do ex-magistrado Christian Zerpa. Há relatos da construção de uma rede de extorsão judicial que teria enriquecido um grupo de mulheres ligadas ao regime.

Sua família é associada ao enriquecimento ilícito, ostentando casas de luxo em Caracas, viagens em jatos privados e um estilo de vida suntuoso em meio à grave crise econômica do país. Em 2014, seus filhos foram implicados em esquemas de empréstimos da estatal petrolífera PDVSA, conforme noticiado pela agência Reuters.

“Não se meta com Cilia”

Cilia Flores sofreu sanções do Canadá e do Panamá em 2018, sob acusações de "minar a democracia" e lavagem de dinheiro. Também foi sancionada pelos EUA e proibida de entrar na Colômbia em 2019. Maduro sempre a defendeu. "Não se meta com Cilia... não se meta com a família" tornou-se um bordão famoso.

Além disso, durante seu mandato na Assembleia, Cilia foi criticada por violar a liberdade de expressão ao barrar a entrada de jornalistas na sala de sessões.